Eva Wilma: A arte de resistir e lutar até o fim

A morte de Eva Wilma leva embora uma atriz que até o fim se manteve na batalha pelos direitos humanos e contra qualquer tipo de opressão


A morte de Eva Wilma leva embora uma atriz que até o fim se manteve na batalha pelos direitos humanos e contra qualquer tipo de opressão

Por Sérgio Kraselis

“Com a partida de Eva Wilma, a querida Vivinha, a cena brasileira se empobrece, perde talento, memória, coragem, cultura e ativismo contra a opressão, a ditadura e a injustiça social”. Assim a jornalista Hildegard Angel lamentou nas redes sociais a morte da atriz Eva Wilma, aos 87 anos, no último sábado (15), após travar sofrida batalha contra um câncer no ovário. Ela estava internada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Um raio-X na carreira da atriz mostra uma mulher aguerrida, cujo trabalho revela escolhas levadas aos palcos, cinemas e televisão com fortes doses de política social em muitos dos personagens que interpretou.

Foi assim na primeira versão de “Mulheres de Areia” (1973), em que interpretou as gêmeas Ruth e Raquel, e no papel da vilã Altiva, de “A Indomada” (1997), um de seus maiores sucessos na TV.

Integrante do Teatro de Arena, um dos grupos teatrais mais importantes do país nos anos 1950 e 1960, Eva Wilma ali se juntou a inúmeros dramaturgos que se tornariam expoentes da nova cena teatral, entre eles Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal e Oduvaldo Vianna Filho.

Com o golpe militar que instalou a ditadura no país, os artistas passaram a sofrer com o novo regime. Em um país mergulhado na escuridão, estudantes, artistas, intelectuais foram às ruas na famosa passeata dos 100 mil, que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro. A foto clássica daquela época mostra na linha de frente um grupo poderoso de mulheres. A imagem icônica traz Eva Wilma ao lado de Eva Todor, Tônia Carrero, Leila Diniz, Odete Lara, Norma Bengell e Ruth Escobar.

Quando sua amiga Tônia Carrero morreu, em 2018, Eva Wilma deu um depoimento emocionado para a TV Globo. E lembrou do protesto imortalizado. “É uma foto famosa, emblemática, de um momento difícil para a cultura no país. Era uma mobilização contra a censura e pela cultura. Os teatros todos de São Paulo pararam. A mobilização foi combinada de ser feita nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Três dias e três noites ininterruptos. A gene se revezava”, contou Eva. “No encerramento, combinaram que nós atrizes iríamos puxando todo mundo de mão dadas na frente. E lá fomos nós, uma fila muito bonita de atrizes de mãos dadas”.

A força da foto, que viralizou nas redes sociais após a morte de Eva Wilma, coroa a trajetória de uma atriz que fez de sua arte uma bandeira contra toda e qualquer forma de censura e opressão. Eva Wilma, presente! Hoje e sempre

Da esquerda para a direita, protestando em plena ditadura: Tônia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengell e Ruth Escobar

COMENTÁRIOS

  • Excelente texto. Bom que está escrevendo novamente. Aguardando o próximo. 👏

  • Feliz por saborear seu ótimo texto, triste pela morte de uma guerreira, tão bem descrita aqui pelo amigo

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