Está confuso, mas eu sonho _ Leonardo Boff_

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
“Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar”,proclamou o poeta Thiago de Mello na época sombria da ditadura civil-militar de 1964.
”Está confuso mas eu sonho” digo eu, nestes tempos não menos sombrios. O sonho ninguém pode prender. Ele antecipa o futuro e anuncia o amanhã.
Ninguém pode dizer o que vai ser deste país após o golpe parlamentar-jurídico-mediático de 2016. Faz escuro e tudo está confuso, mas eu sonho. Este sonho está rodando em minha cabeça há muitos dias e resolvi expressá-lo para alimentar a nossa inarredável esperança.
Sonho ver um Brasil construído de baixo para cima e de dentro para fora, forjando uma democracia popular, participativa e sócio-ecológica recohecendo, como novos cidadãos com direitos, a natureza e a Mãe Terra.
Sonho ver o povo organizado em redes de movimentos, povo cidadão, com competência social para gerar as suas próprias oportunidades e moldar o seu próprio destino, livre da dependência dos poderosos e resgatando a própria auto-estima.
Sonho ver a utopia mínima plenamente realizada de comer pelo menos três vezes ao dia, de morar com decência, de ter frequentado a escola por oito anos, de cursar a universidade e a pós-graduação, de receber por seu trabalho um salário que satisfaça as necessidades essenciais de toda a família, de ter acesso à saúde básica e, depois de ter labutado por toda uma vida, ganhar uma aposentadoria digna para enfrentar, serenamente, os achaques da velhice.
Sonho ver celebrado o casamento entre o saber popular, de experiências feito, com o saber acadêmico, de estudos feito, ambos construindo um país para todos, sem excessos e também sem carências.
Sonho ver o povo celebrando suas festas com muita comida e alegria, dançando o seu São João, o seu Bumba-meu-Boi, seu samba, seu frevo, seu funk e seu esplêndido carnaval, expressão de uma sociedade sofrida mas que se encontrou na fraternura e na alegre celebração da vida.
Sonho ver aqueles que foram condenados a sempre perder, sentirem-se vitoriosos porque o sofrimento não foi em vão e os amadureceu para, com outros, construirem um Brasi diferente, uno e diverso, hospitaleiro e alegre.
Leonardo Boff fala sobre a utopia a estudantes, professores e funcionários da UFU – Setembro 2017 – foto Letícia França – ADUFU

Sonho contar com políticos que se abaixam para estar à altura dos olhos do outro, despojados de arrogância, conscientes de representar as demandas populares, fazendo da política cuidado diligente da coisa pública.
Sonho andar por aí à noite sem medo de ser assaltado ou vítima de balas perdidas podendo desfrutar da liberdade de poder falar e criticar nas redes sociais sem logo ser ofendido e difamado.
Sonho contemplar nossas florestas verdes, nossos imensos rios regenerados, nossas soberbas paisagens e a biodiversidade preservada, renovando o pacto natural com a Mãe Terra que tudo nos dá, reconhecendo seus direitos e por isso tratá-la com veneração e cuidado.
Sonho ver o povo místico e religioso, venerando a Deus como gosta, sentindo-se acompanhado por espíritos bons, por forças portadoras da energia cósmica do axé, dando um caráter mágico à realidade com a convicção de que, no fim, por causa de Deus-Pai/Mãe de infinita bondade e misericórdia, tudo vai dar certo.
Sonho que este sonho não seja apenas um sonho, mas uma realidade ridente e factível, fruto maduro de tantos séculos de resistência, de luta, de lágrimas, de suor e de sangue.
Só então, só então, poderemos rir e cantar, cantar e dançar, dançar e celebrar um Brasil novo, o maior país latino do mundo, uma das províncias mais ricas e belas da Terra que a evolução ou Deus nos entregaram.
Assim o quer o brasileiro e nos ajude Deus.

Leonardo Boff é escritor e publicou: “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência” (Vozes) 2018.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

Ajuste Familiar no Brasil de hoje, por Dirce Waltrick do Amarante. Imagem: Gustav Klimt.

Foi numa manhã primaveril que decidi que seria heterossexual.
Assim, convicto, fui tomar café da manhã com a minha família, que era, contudo, desajustada: meu pai era funcionário fantasma no gabinete de um vereador, minha mãe era laranja do meu pai, que era laranja do vereador, meu irmão colecionava armas (de plástico, pois não tínhamos dinheiro para comprar armas de verdade).

>