ELISA LUCINDA: Escolha o que vai beber

Elisa Lucinda
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Ó imenso amor pelas crianças! Sou nutrida até do amor pelas que não conheço e não sabem disso. Uai, então amar nutre? O amador também é beneficiado? Claro, por isso é que é possível amar sem ser amado, pelo menos por um tempo. Aquilo alimenta quem ama. O que se vai dar sobra para o doador. Ninguém dá o que não tem.

Quando nos despedimos de uma relação, a dor é dupla porque também estamos nos despedindo não só de não sermos amados, mas também da dor de deixar de amar. É ruim às vezes, encaramos o vazio.

Da mesma maneira procede o ódio. Não gosto dele, não escolho senti-lo. Não é sentimento saboroso, leve. Pesa para o odiador Quando sinto ódio, minha boca amarga. O rosto freme. Não é bom. É como se, ao contrário do amor, as coisas em mim ,na hora do odiamento se amesquinhassem, se contraíssem para produzir o fel que vou oferecer. Veneno. Não dá para servi-lo sem tomar um gole. Por isso é muito importante que a gente esteja ligado com o que vai dar para o outro, porque é preciso que a gente esteja pronto também para beber daquilo que vamos doar.

Neste momento,em que vamos decidir a direção da nação, é igualmente necessário que o amor entre forte em campo, como coisa antibélica, como antídoto. Capaz de garantir que uma discussão não acabe em ferimento. Sangra também a boca de quem fere. Quem é intolerante, automaticamente chama para si a intolerância. Bumerangue. Volta para o dono, vem à cavalo. Não estou ameaçando ninguém, estou contando minha experiência nesse sentido, narrando o que aconteceu comigo e o que rola na gira do mundo do qual participo,e no qual interfiro com a minha presença. A vida de quem oferece ódio não é fácil. Temos que estar atentos a isso pra não fazermos a escolha de um sentimento gerado e curtido numa onda de ódio cheia de vontade de mais violência pro nosso futuro. Vamos espargir outra substância sobre a letal mistura? Está em nossas mãos o futuro que é daqui a pouco.

Uma vez, numa festa, encontrei um amigo que há muito não via. Havíamos trabalhado juntos muito bem: Querido, quanto tempo, tá bonito, vá ver minha peça sobre Adélia? “ Flor, quanto tempo, eu posso ir?” Claro, deixo dois convites “procê” amanhã? Disse que sim e deixei-o sorridente envolto no prazer do nosso encontro; mas quando o abracei estava meio trêmulo, não jogou seu corpo inteiro para mim. Se deu , mas freava o abraço levemente , sem ser brusco. Quando volto, passo por ele outra vez. Agora está com os olhos emocionados, me agradece, diz e que sou especial. Por que será que o Teo me dissera aquilo? Agradeci sem entender bem.Como já tinha bebido uns drinks e estava na pista dançando, estava noutra para compreender.

Amanhece. Na cama, a primeira coisa que me lembro é da cara do Téo. Quanto tempo não o via, por que nós não estávamos nos falando mais como antes? Claro: brigamos feio, ele foi ingrato, eu achei, enfim ,desentendimentos. Na época, bolei um plano em que, quando o encontrasse cara à cara, porque nossa celeuma foi por e-mail, falaria tudo o que eu achava na lata. Ele Iria ver! Mas passou muito tempo. Esqueci. Lembro do desconforto que por meses, pensar nele me causava, só lembrava do nosso fim, daquela interrupção.

O tempo se incumbiu de ajeitar as coisas, de modo que , não é mais importante ter razão neste assunto. Passou. Então, se esqueci da minha raiva, do meu dissabor, da minha mágoa, do meu ressentimento,pra que voltar a plantá- la em mim se era erva daninha e morreu por si? Para que regerminá-la? Não precisa. O que aconteceu é que ao esquecer o tratei com o afeto que sempre tivemos , sem contaminação da dor do fim, da qual, na hora, eu não lembrara. Na festa pude beber daquilo que eu dava, e ele ao receber o afeto o recebeu transmutado em perdão. Eu o havia perdoado sem saber, e o melhor, perdoar, tanto liberta o perdoador quanto desacorrenta da culpa o perdoado. A partir disso fiquei mais segura ainda do que estou a relatar.

A construção da paz, seguramente não pode vir do ódio. Me parece que o ódio não sabe gerar a paz. Faltam ingredientes para tal, são opostos mas não têm a mesma composição, embora pareçam se equivaler em força. Quantas doses de violência tomam nossas crianças por dia pelo que acontece de arbitrariedade e de abandono do Estado nas favelas, nas periferias e na constante “ educação informal” pelo armamento? Isto custará mais mortes inocentes.

Venho escolhendo cada vez mais o que sai da minha boca, o que produz o meu gesto. Gosto que me digam que foi bom me ouvir, que gostaram dum escrito meu num lugar do mundo que nem cheguei a ir, olhos que nem conheço recebem o que de muito longe lhes ofereci. Assim como acontece agora. Amo escrever. Tudo o que sinto vai na tinta dessas letras. Amo a palavra, ave que voa do meu coração até o seu, meu respeitável e amado leitor. Quando escrevo dou amor. Deve ser por isso este gosto delicioso na boca.

Edição Marina Azambuja

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