“Erro inocente”: curso pré-militar explica vídeo ensinando crianças a matar

Treinamento do curso pré-militar da Unibe Pernambuco - Divulgação
Treinamento do curso pré-militar da Unibe Pernambuco - Divulgação

O vídeo repulsivo gravado no sábado (24) no curso pré-militar Unibe do Recife (Pernambuco), mostrando um batalhão de jovens estudantes, inclusive crianças, gritando mensagens violentíssimas, foi qualificado por Marcos Aurélio Fernandes Campos, gerente comercial da escola, como uma “infelicidade”. “Um jovem trouxe essa canção e acaba todo mundo repetindo, então fica tudo muito despercebido quando o pessoal começa naquela empolgação”, disse Campos.

“Matarei pela cidade, seja aleijado ou criança, menininho ou mulher. Sangue frio em minha veia congelou meu coração. Eu não tenho sentimento, nem tampouco compaixão. Interrogatório é muito fácil de fazer: a gente pega o marginal e bate nele até morrer. Quero banhar-me numa piscina de sangue, sangue dos mortos. Esse sangue eu já bebi…”, cantaram os estudantes em formação militar, na rua Imperatriz Teresa Cristina, 163, no centro da cidade. A maioria dos alunos trajava roupas com estampa de camuflagem, calçava coturnos, e marchava, enquanto gritava as abominações.

Segundo o gerente-comercial da Unibe-Recife, a escola tem cerca de 850 alunos com idades entre 12 e 21 anos. Alunos mais velhos também podem ser admitidos para cursos preparatórios para a Polícia Militar, que a Unibe também forma. Cada estudante paga à escola mensalidades de R$ 265.

Campos disse aos Jornalistas Livres que a canção militar entoada no sábado pelos jovens foi excepcional. “Porque nós somos contra esse tipo de apologia, nós somos contra a violência. Porque sabemos que ali tem crianças, tem meninas, tem jovens. A intenção do nosso curso não é trazer violência é trazer esses jovens para que eles entendam qual é o melhor caminho para a vida deles. A gente recebe muitos jovens com depressão, com déficit de atenção, com crise de ansiedade. Então a gente sempre tenta trazer esse jovem para o lado do bem”. Lembremos da canção: “Matarei pela cidade, seja aleijado ou criança, menininho ou mulher“.

“Xerife” no curso pré-militar

Provavelmente, disse o gerente-comercial do curso pré-militar da Unibe, o sargento que comandava o treino “não se atentou para a mensagem que estava sendo passada naquele dia”. Segundo ele, muitas vezes o sargento coloca um jovem como “xerife”, e pede pra ele puxar uma canção. É quase certo, afirma Campos, que o jovem chamado para ser o “xerife” da vez tenha pesquisado na internet e trazido essa canção. E o sargento “não se atentou para isso”. Não? O exercício na rua durou mais de cinco minutos, e causou a repulsa de vários transeuntes. O mesmo professor gritou ainda palavras de apoio à eleição de Jair Bolsonaro, que eram repetidas pelos alunos. Essas cenas, entretanto, não foram gravadas em vídeo.

“A gente sempre fez treinamento na rua. Sempre trouxemos para o povo ali essa alegria”, disse Campos, que completou assim o seu raciocínio: “Vou dizer sinceramente pra você: se puxaram essa canção, puxaram inocentemente, sem maldade”. O professor-sargento, disse o gerente comercial, enviou uma “explicação” para os versos violentíssimos: “Foi tão inocente da parte do “xerife” que eu não prestei atenção mesmo”. Inocente??? Lembremos da canção: “Eu não tenho sentimento, nem tampouco compaixão. Interrogatório é muito fácil de fazer: a gente pega o marginal e bate nele até morrer.”

Segundo Campos, o professor, que ele não quis identificar, foi demitido. “Tivemos de encerrar o contrato com um professor que é adorado. Todo mundo adora ele, as mães, os alunos. Ele é um professor bastante agradável, mas eu tive de demiti-lo porque ele tinha de estar atento, sim. Infelizmente. Eu tive de dispensá-lo por causa desse descuido aí”. Descuido? Lembremos a canção: Quero banhar-me numa piscina de sangue, sangue dos mortos. Esse sangue eu já bebi…”

A Unibe está espalhada por todo o país, ministrando curso pré-militar para aspirantes a PMs e soldados. Funciona sempre nas proximidades de bases militares. O currículo ensinado pelo professor às crianças, certamente está de acordo com os requisitos da carreira militar. Essas são as Forças Armadas brasileiras: golpistas, cruéis, bolsonaristas. Essas são as Forças Armadas brasileiras, que ainda consideram o assassinato e a tortura parte de seu trabalho. Uma vergonha nacional.

VEJA O VÍDEO:

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