Ernesto Germano lembra os 33 anos do massacre da CSN em Volta Redonda

No dia 9 de novembro de 1988, o exército brasileiro "esqueceu" que a ditadura tinha "terminado" e matou três jovens trabalhadores preparando o país para as privatizações que viriam

Mataram William Fernandes Leite, 22 anos, com tiro de metralhadora no pescoço.

Mataram Valmir Freitas Monteiro, 27 anos, com tiro de metralhadora nas costas.

Mataram Carlos Augusto Barroso, 19 anos, por esmagamento de crânio.

Um ano antes da Globo manipular o último debate da primeira eleição direta pra presidente desde o golpe de 1964 ajudando a eleição do corrupto e incompetente Fernando Collor de Mello, em pleno governo civil de José Sarney e com apenas um ano de vigor da Constituição Cidadã, o exército brasileiro foi chamado para impedir uma greve de trabalhadores na Companhia Siderúrgica Nacional. E as Forças Armadas fizeram o que fazem tradicionalmente até hoje: atacaram e mataram civis inocentes. Não conseguiram impedir a greve, mas os três cadáveres e o medo entre os sobreviventes deram o recado do que viria pela frente, incluindo um atentado à bomba contra um memorial aos mortos erguido em 1989.

Marco inicial da industrialização do Brasil, fundada por Getúlio Vargas em 1941 no acordo para a entrada do país na Segunda Guerra ao lado dos EUA, a CSN também foi um dos berços do sindicalismo combativo nacional. Privatizar a CSN era essencial para os planos do financismo neoliberal internacional, o que de fato aconteceu no primeiro ano de governo de Collor. Em 1998, a jornalista carioca Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação, demonstrou em um texto sensível o que o massacre e a privatização fizeram com a cidade de Volta Redonda. Mas precisaríamos de mais quatro anos para eleger um trabalhador à presidência e barrar, ou pelo menos diminuir, a sanha privatista que voltou com tudo com o golpe de 2016 e a eleição do fascista negacionista da ditadura apoiado pelo exército que mantém a mesma índole genocida.

Hoje, quando o massacre completa 33 anos, o jornalista, consultor sindical e militante marxista desde a ditadura, Ernesto Germano Parés, escreveu um breve texto lembrando a greve e o ataque do exército que os Jornalistas Livres reproduzem abaixo:

PARA NÃO ESQUECER – 09 DE NOVEMBRO DE 1988

O EXÉRCITO NA GREVE DA CSN

Por: Ernesto Germano Parés

O texto a seguir eu fiz a pedido do companheiro Clóvis, chargista e militante de Volta Redonda. 

*

Falar sobre o Nove de Novembro é uma tarefa difícil, ainda mais quando precisa não alongar. A dificuldade maior é esquecer ou ser injusto com algum companheiro que participou daquela greve. Mas vamos tentar ser mais “leves” na narrativa.

Posso assegurar, sem dúvidas, que o Nove de Novembro de 1988, na verdade, começou antes. Com pouca chance de errar, arrisco-me a dizer que tudo começou numa tarde de agosto durante uma reunião normal da diretoria do Sindicato. Os diretores faziam os informes do que acontecia na Usina e a avaliação apresentada era de uma situação de insatisfação geral entre os metalúrgicos. 

Ao final da reunião, a diretoria concluiu que – concretamente – só havia a possibilidade de lutar pela reposição da URP e pelos atrasados do Plano Bresser, e que se iniciaria imediatamente esta campanha. De toda forma, considerando o período retroativo, se a CSN fizesse o pagamento dos atrasados da URP daria um bom dinheiro extra para os trabalhadores. E criou-se um lema para a campanha do pagamento da URP: “Buscar a castanha do Natal”. A ideia era forçar a empresa a fazer o pagamento antes do final do ano.

Sexta-feira, dia 04 de novembro – uma Assembleia convocada pelo Sindicato aprovava o início da greve para a segunda-feira (07/11), durante a entrada do turno da noite. Ficou também decidido que seria realizada uma nova Assembleia às 17 horas, para o caso da empresa acatar as reivindicações, evitando a paralisação.

Mas no domingo, dia 06 de novembro, havia uma reunião da diretoria do Sindicato já marcada. Serviria para se fazer um balanço do movimento, preparar o boletim que seria distribuído, distribuir as tarefas de cada diretor para a segunda-feira e avaliar a questão das eleições.

Na tarde do domingo, já com novas informações sobre o ânimo dos trabalhadores, ficamos sabendo que havia movimentação no quartel de Barra Mansa e que o exército viria mesmo para a cidade. Era necessário mudar os planos porque a informação era de que as tropas iriam chegar na hora da Assembleia que iniciaria a greve.

Um dos companheiros da reunião fez nova proposta: se o exército vai chegar na hora de começar a greve, então vamos antecipar.

Segunda-feira, dia 07 – tudo começou exatamente como o previsto. Um grupo de diretores e ativistas entrou com um panfleto curto e objetivo: “A Greve Começou”. Imediatamente os vários setores iam aderindo e parando os equipamentos que podiam parar ou preparando os mais delicados para o desligamento. 

Tudo corria tão bem que na hora do almoço, mesmo estando de plantão no Sindicato, saí para almoçar no bar em frente. Todos os diretores do Sindicato estavam na Usina.

Nada aconteceu e a noite correu tranquila. Vez por outra um companheiro telefonava de dentro da Usina para dar informes. Tinha até alguém tocando violão.

O movimento começou a mudar de figura na tarde da terça-feira quando o telefone tocou no Sindicato. A atendi a ligação que a telefonista me passou. Era a esposa de um metalúrgico que morava na estrada entre Barra Mansa e Volta Redonda para dizer que vários caminhões com soldados do BIB estavam passando em nossa direção.

No final da tarde da terça-feira já estavam em Volta Redonda vários batalhões e os soldados ocupavam a entrada da Usina com ninhos de metralhadoras, tanques e outros veículos de combate. Faziam uma espécie de cerco na área como se estivessem impedindo os trabalhadores de invadir a CSN e, certamente, isto era apenas uma cena para ser filmada e fotografada para a imprensa do restante do país dando a impressão de que estavam ali para impedir os metalúrgicos de entrar.

Mas também esta noite transcorreu sem incidentes. 

Na manhã da quarta-feira, dia 9, já sabíamos que as coisas seriam diferentes. Houve movimentação de tropas durante toda a noite, novos batalhões vindos de Resende e outros quartéis chegavam a Volta Redonda. Muitos carros de combate estavam posicionados nas quatro entradas da Usina e os soldados pareciam nervosos. E víamos também, pela cidade, uma inusitada quantidade de soldados da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Veio a tarde, a movimentação no Sindicato aumentou. Estávamos programando um ato público de apoio aos metalúrgicos na entrada da Usina. Haveria músicas e a ideia era permitir que as famílias dos operários enviassem recados para o pessoal através do carro de som. 

Foi quando os soldados começaram a barbárie na Vila Santa Cecília. A polícia começou a bater no pessoal, na rua, e jogando bombas de gás! Tomaram conta da Vila e invadiram até lojas comerciais procurando o pessoal que estava no Ato!

Isto tudo foi fartamente documentado e filmado. Há vários vídeos mostrando a ação dos soldados no centro da cidade e, inclusive, a TV Manchete chegou a colocar um no noticiário.

Começava a pior parte da história. Pouco depois o Marcelo, vice-presidente do Sindicato, voltou a ligar:

– Ernesto, você precisa fazer alguma coisa aí de fora! Os soldados estão atirando, e não é bala de borracha, não. Os tiros batem no teto da aciaria e furam as chapas… Liga para o Dr. Ulysses e fala também com a imprensa. Está difícil de conter o pessoal… os soldados estão ameaçando invadir a aciaria e aí eu não sei o que vai acontecer…

Alguns podem estranhar quando digo que o Marcelo ligou de dentro da Usina. Na época não existiam os celulares! Mas o Sindicato tinha conquistado, por acordo, um ramal direto da empresa. De qualquer lugar da Usina um trabalhador poderia ligar para e dar algum informe ou tirar dúvidas.

Foi neste momento que eu cometi um dos maiores erros da minha vida, mas que acabou dando certo. O Marcelo tinha pedido para eu telefonar para o Dr. Ulysses. Ele estava pensando no Dr. Ulysses Riedel, nosso advogado com escritório em Brasília e presidente do Diap. Mas eu troquei tudo:

– Cidinha, agora liga para o Ulysses Guimarães!

Poucos minutos depois – não me perguntem como – a Cidinha me chamou dizendo que o Ulysses estava na linha. E tenho que admitir que foi inacreditável! Ele já estava em casa, descansando, e me atendeu cordialmente. Passei todas as informações, disse que o Juarez, deputado federal, estava cercado pelos soldados dentro da Usina e que diziam que estavam com ordens para prendê-lo. Falei que os soldados estavam atirando e que já havia muitos feridos entre as pessoas que estavam no centro da cidade. E ele perguntou se eu sabia o nome do comandante. Pediu para desligar e que eu ficasse aguardando outra ligação. Dei para ele o outro número de telefone, que raramente usávamos e estaria mais disponível.

Antes das dez horas, a conversa com Ulysses Guimarães começou a fazer efeito. Quando o telefone tocou, a Cidinha me chamou dizendo baixinho:

– É o general!

Peguei o telefone e estava bastante nervoso. Respirei fundo… Do outro lado, o general José Luis Lopes perguntou com quem estava falando. Acho que mediu bem para saber se valia a pena falar comigo, e, sabendo que não teria um diretor para falar, me intimou:

– Vamos fazer um acordo. Você manda seus homens recuarem e pararem as provocações que eu mando a tropa não invadir a aciaria.

E aqui eu cometi o grande erro! Respondi ao general:

– General, eu não tenho “homens”! Lá dentro estão trabalhadores, em greve. Tudo eles decidem lá, entre eles, votando… Eu posso é passar o recado para eles.

Ele desligou e eu comecei a achar que tinha feito uma besteira enorme! Mas, poucos minutos depois, ele voltava a ligar para o Sindicato e me perguntava se havia alguém em condições de negociar com ele. Eu respondi que sim e que daria uma relação com os nomes, mas pedi alguns minutos para confirmar e que ele, ao menos, mandasse os soldados pararem de atirar.

Já estava no Sindicato, prontificando-se para qualquer necessidade, o prefeito da cidade, Dr. Marino Clinger. Tentei localizar Dom Waldir Calheiros, bispo de Volta Redonda, para que fizesse parte da comissão. Ele aceitou imediatamente e eu ainda falei com o deputado federal Edmilson Valentim, que ouvira no noticiário no rádio do carro e mudou o itinerário indo para Volta Redonda. 

Quando um oficial ligou para saber quem iria falar com o general, eu passei a lista: Dom Waldir Calheiros, Dr. Marino Clinger, Edmilson Valentim e Juarez Antunes. Ele me comunicou o local do encontro – no Hotel Bela Vista – e perguntou se eu iria também. Respondi que não (nem sou maluco!) e que iriam só aqueles, com o motorista do Sindicato.

A trégua foi acertada, os metalúrgicos se retiraram da Usina, mas a greve continuou até 23 de novembro!

Todas as reivindicações foram atendidas, mas havia uma última reivindicação: os trabalhadores só voltariam para a Usina quando nenhum militar estivesse mais em Volta Redonda!

Os jornais noticiaram esta saída. O jornal O Globo noticiou assim:

“O Exército começou a deixar a Usina Presidente Vargas, em Volta Redonda, exatamente às 13h 40m, quando uma Veraneio cheia de oficiais cruzou os portões da entrada Leste da empresa, no bairro do Jardim Paraíba. A seguir passaram 71 veículos, entre caminhões, jipes, ambulância e caminhonetes, além de oito tanques. Às 13h 45m, o último veículo deixou a empresa.”

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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