Elisa Lucinda: O rei equivocado

Elisa Lucinda
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A capa da revista mostra uma quadrilha de escrotos fincada no mês junino e botando o país nesta fogueira. Uma quadrilha perigosa! Quem não é indiciado é,no mínimo,suspeito. Na ficha de todos não há ninguém com infância pobre, ninguém que não teve como estudar, ninguém que tivesse chegado em casa e encontrado as crianças gritando  de fome, sem ter  como alimentá-las. Um caso a ser estudado. São ladrões brancos, bem vestidos,que circulam entre privilégios e que, neste momento, se engalfinham nas paredes do poder a fim de garantir mais um prazo de validade para as suas falcatruas, nas quais o que menos importa é o país. Enquanto escrevo não sei do amanhã. É tão chocante que em tão pouco tempo esse governo ilegítimo tenha depredado com tanta pressa a nação. Foda. Que dor no meu coração. Enquanto escrevo não tem ministro da cultura e quem se importa? Privilegiados e ignorantes os que assaltaram o poder não se importam, não sabem, falta discernimento. Não leram Darcy Ribeiro, exportaram Paulo Freire. Repare bem, enquanto escrevo a cada 25 horas alguém mata alguém por ódio e homofobia porque lhes falta uma educação. A desinformação, o acesso à pluralidade cultural, o encontro com as artes e as reflexões que elas provocam abrem a cabeça dos indivíduos. Isso é o que faz pensar. Temos muitos presídios na mesma proporção em que nos falta escolas. Ou seja, não recebemos a educação que por direito e tributo pagamos, e ainda pagamos a conta, muitos com a própria vida, com a vitória da violência sobre a paz. Muito triste.

O que está no poder desmata, desnutre hospitais e universidades federais, destruindo a patente de referência de muitas dessas instituições, arranca a verba da cultura em todos os Estados, desmantela seus equipamentos, fecha as portas abertas de alguns direitos fundamentais alcançados, desnacionaliza o território brasileiro, e o pior, com o brasileiro dentro. Tudo está ruindo. A Comissão de Constituição e Justiça tem em seu comando gente suspeita de ser inconstitucional. Loucura. Aliados do Presidente afirmam que o país está melhorando. Pergunto: qual país? Eu acho que o Presidente não entendeu o que a palavra Presidente quer dizer. Enquanto escrevo, ele fala na TV “que é muito bom ser Presidente, convenhamos”. Me parece que o que ele não sabe, é que ser Presidente é ser símbolo, um símbolo que representa quem o elegeu. Como ele não dispõe dessa representatividade, não é reconhecido, respeitado, não pode circular na rua sem vaias, o seu símbolo fica vazio, ele está sentado na palavra Presidente como um refúgio, um lugar onde o mar não vem. Ou pelo menos ele pensa que ali o mar não vai. (Logo o mar, meu Deus, o imprevisível). A vaidade de ser Presidente mora na legitimidade disso. Lembro do olhar do povo da África do Sul para o Mandela. Aquela energia de confiança de preenchimento do simbólico inflou de esperança a palavra Presidente que se misturou com a palavra Madiba, e que se misturou por fim ao fim do apartheid naquele país.

O que nós temos é um homem pendurado nos farrapos de sua cada vez mais parca aliança, que gasta metade do tempo retrocedendo o país, e a outra metade abandonando-o à própria sorte, enquanto se emaranha, diuturnamente, em reuniões e negociatas para manter-se, ele e os seus, no poder. A luta é pelo poder. E não é pensando na previdência de cada um, não é preocupado se não vão todos se transformar em velhos pobres que não conseguiram comprar nada à esta altura da vida. Não. É gente que tem bens acumulados, é gente enriquecida há muitas gerações. Estão concentrados nas peças do tabuleiro dispostas de modo a protegê-los e só. Para nenhum ministério interessa alguém tecnicamente preparado ou coisa que o valha. Seja o ministério da Transparência, da Agriculturae etc. Curiosamente, para o Ministério da Justiça, escolheu-se alguém tecnicamente bem preparado para que possa fazer a defesa do equivocado rei.

Não sou uma estudiosa assim profundamente da filosofia, mas como leitora e tendo bom ouvido, me parece que eu não conheço filósofo de direita. Embora a direita tenha seus teóricos e interlocutores, me parece que a filosofia está mais identificada com a esquerda porque pretende compreender este ser humano que afinal, parece que está provado, que em comunidade e com igualdade de direitos, vive melhor. E é nesta vertente que, através da história se alinham, ou melhor, despontam os transgressores. São esses que, por conta de suas revoluções e ousadias acabam por fazer avançar o mundo. O que é inversamente proporcional é que podemos reparar que os conservadores, representantes de um pensamento mais à direita, fidedignamente ligados à competitividade, à concentração de privilégios e de rendas na mão de poucos, se interessam por essa massa de gente que, por não ter esclarecimento, cultura, informação, pode ser facilmente manipulada. O que quero dizer é que aos ditadores e aos neoliberalistas, e aos fundamentalistas, interessará muito pouco um Ministério da Cultura forte, um Ministério da Educação eficiente.

A boa notícia é que esse deliberado pensamento conservador, ainda que maquiavélico, também é condenado à mesma ignorância e não vê que, apesar da pobreza cultural em que estamos imersos, continuam a despontar os transgressores de todos os lugares. Inclusive da periferia desprezada, que graças às ultimas políticas de inclusão, têm participado efetivamente de movimentos sociais, e têm garantido uma arte reflexiva para traduzir a sua favela e trabalhar para transformá-la em espaço de cidadania.

Nada deterá os transgressores. E haverá uma hora em que a palavra Presidente desaparecerá deste seu modelo atual sobre Temer, em que não passa de uma capa nas costas de um homem orgulhoso e amedrontado.

Enquanto escrevo, os transgressores estão jogando os seus dados.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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