Eleições: Lula encerra campanha, não comenta pesquisa e diz que festejará na Paulista

Lula encerra campanha
Lula encerra campanha em entrevista coletiva e diz que tem muitos motivos para comemorar (Foto: Ricardo Stuckert)

Depois de percorrer a Rua Augusta, em São Paulo, Lula (PT) concedeu uma entrevista à imprensa nacional e estrangeira concluindo a campanha do primeiro turno destas eleições. No final da tarde de sábado (1/10), bem-humorado, não demonstrava o cansaço da reta final, que o levara a percorrer Fortaleza e Salvador na sexta-feira. O candidato à Presidência da República falou por quase 20 minutos antes de responder as perguntas dos jornalistas. Quando pediram para comentar as pesquisas Datafolha e IPEC, divulgadas pouco antes, e que atribuíam à sua candidatura 50% e 51%, respectivamente, e a Bolsonaro (PL) 36% e 37%, Lula disse: “Pesquisa não mexe com a minha cabeça porque já participei de várias eleições, perdi muitas, ganhei, então prefiro não comentar”.

Precisava, segundo ele, focar primeiro no seu Corinthians, que enfrentaria o Cuiabá. “Hoje tenho que ganhar esse jogo”, brincou. Seu desejo acabou se confirmando com um placar de 2 X 0. Mesmo evitando falar nas pesquisas, Lula demonstrava confiança na vitória. “Toda vez que você aparece melhor, você fica feliz internamente”, afirmou. “Mas não posso acreditar na véspera. Nunca comi um ovo que a galinha pôs na véspera. Vou esperar ela botar, cantarolar, aí, sim, vou lá ver com quantos votos eu estou.” 

        Com Lula, dividiam o palco do Novotel Jaraguá: Geraldo Alckmin (PSB), candidato a vice-presidente, Fernando Haddad, que disputa o a governo paulista, Marcio França, postulante ao Senado, Gleisi Hoffmann, presidente do PT, e o ex-ministro Aloizio Mercadante, coordenador do programa de governo.

Veja trechos da fala do candidato petistas na entrevista coletiva:

As caneladas que Lula e Alckmin trocaram  

“Sou grato à nossa parceria. Eu e o Alckmin éramos dois jogadores de futebol. Ele do Palmeiras, eu do Corinthians. A gente pensava que era inimigo. Sempre que a gente se encontra, um chutava a canela do outro. De repente, fomos jogar no mesmo time. E percebemos que éramos amigos. Descobrimos muitos pensamentos comuns, e não sabíamos disto antes. Praticamente o mesmo sonho, e não sabíamos. Penso que eu e o Alckmin temos condições de reconstruir este país. Recuperar o Brasil diante do mundo. E pedir perdão a 215 milhões de brasileiros pelo descaso que foi cometido contra o povo, nestes últimos 4 anos.”

Uma aliança com 10 partidos

“Fui candidato em muitas eleições, mas só agora conseguimos construir uma relação política forte, juntando dez partidos, todas as centrais sindicais –  só uma ficou com Ciro –, e quase a totalidade dos movimentos sociais organizados. É por isso a campanha teve, e está tendo, alegria e sucesso.”

De bem com a vida

“Já vivi situações difíceis. Devo parte desta minha alegria ao meu partido e à Gleisi. Ela é a mais extraordinária presidente do PT. Corajosa, competente, ousada, desaforada, leal e capaz de conversar com os mais raivosos adversários sem precisar levantar a voz. Se não fosse ela, a gente não teria conseguido construir tantas alianças. Também tenho que agradecer a Janjinha, que me devolveu a alegria pela vida, a vontade de fazer as coisas. Aos 76 anos redescobri o amor. Somete quem ama sabe o que é o peso do amor no seu dia-a-dia, nas suas decisões.”

A esperança do povo brasileiro

“Não sei quantas vezes o Brasil teve alguém que tivesse uma interação com o povo tão respeitosa e recebesse dele tanto carinho. As pessoas não me veem como candidato, como um diferente, mas como um deles. Isto me dá prazer.  Uma vez, um catador de material reciclável esteve no Palácio Alvorada e me disse: “Presidente, eu não preciso falar, o senhor fala por mim.”

Isto renasceu na campanha, nestas eleições. O que aconteceu ontem em Salvador e Fortaleza, e hoje na rua Augusta, toda a esperança que vi no povo, é algo que me deixa emocionado. O olhar das pessoas é de crença de que alguma coisa vai mudar.  Este povo não quer muito, quer o elementar. Não quer tirar nada de ninguém. Quer comer, ter respeitado, direito a estudo, cultura. Quer ir ao aeroporto sem ser molestado, como se estivesse num lugar que não é para ele. O básico. É só isto que temos que dar. E ele conquistará o resto.”

Bolsonaro deixou o país órfão

“Este cidadão que está aí é fora do padrão de qualquer normalidade de governança. O Brasil é um país alegre, gosta de samba, de futebol, de carnaval, gosta de ter boas relações com o mundo. Este cidadão conseguiu deixar o país esvaziado, parece que o Brasil ficou sozinho, órfão no mundo. E precisa voltar a ter alegria e fortalecer as relações com a América do Sul, América Latina, Europa, África, com os Estados Unidos, com a China e Rússia.

O país não merecia passar o que passou. Não merece o sofrimento a que foi submetido por ganância, por raiva, ódio por preconceito, pela prática do racismo. Por mais que a gente tenha cometido pecado, a gente não merecia ter sido condenado, ganhando este Bolsonaro como presidente da República do Brasil. Todos vocês sabem o que eu estou pensando e o que falo sobre ele.”

Guerra na Ucrânia

“Nós não precisamos de inimigos, precisamos de amigos. Temos que contribuir com a paz entre a Ucrânia e a Rússia. Não tem sentido, no século 21, a gente ter uma guerra por nada, por espaço.

A única posição que interessa ao Brasil na questão da Ucrânia e da Rússia é a paz. O Brasil deve fazer todos os esforços para a paz. Não tem neutralidade. A posição política é dizer chega de guerra. Só se pode produzir benefício para a humanidade em tempo de paz. Tempo de guerra é de destruição. Você passa dezenas de anos fazendo ponte, rodovia, ferrovia, hidrelétrica, fábrica… e a guerra, em pouco tempo, destrói tudo.

Se eu ganhar as eleições, vou tentar fazer todo esforço possível para construir a paz. Já chega o comportamento insano da humanidade contra o clima. Chega de 900 milhões de pessoas passando fome. Chega de tanto desemprego, chega de tanto acúmulo de riqueza em meia dúzia de bilionários que têm muito mais que a metade da humanidade.”

O que a imprensa aprendeu

“Nesta campanha, a imprensa brasileira teve um papel importante. Acho que, depois do negativismo das últimas décadas, dos últimos anos, a imprensa está ficando mais civilizada ao falar de política. Aprendemos uma lição séria, de que a negação da política não contribui para melhorar a situação. A gente erra toda vez que tenta negar a política. Que tenta colocar todo mundo no mesmo saco, achar que todo mundo é igual, ou comparar os diferentes e não perceber as diferenças entre as pessoas. Foi assim no fascismo e no nazismo.”

Artistas têm interesse pela política

“Quero agradecer a coragem dos artistas brasileiros. Nunca recebi tanto apoio como nestas eleições. Incluindo os mais singelos. Às vezes, a pessoa não pode se manifestar por causa do patrocinador, de um contrato com o seu canal de televisão, com o financiador de um filme. Mas me ajuda colocando uma camisa vermelha, um vestido, um sapato vermelho. As pessoas ajudam dando declarações extraordinárias. Recebi apoio dos mais diferentes e dos mais importantes homens e mulheres da cultura. Fico grato porque estas pessoas têm interesse pela política, querem ser sujeitos da história deste país. Não querem apenas ser aplaudidos pelo povo. Mas assumir a responsabilidade para ajudar a cuidar deste povo fazendo seus gestos políticos.”

À espera de domingo

“Esperava chegar à véspera das eleições exatamente como estou. Feliz do ponto de vista político e da minha vida pessoal. Feliz com o eleitorado brasileiro, com as pesquisas. Vou dormir vendo carneirinhos pulando por cima de mim. Vou acordar e votar às 8 horas da manhã. Depois vou descansar e esperar o resultado.”

Festa na Paulista com vitória ou sem

“Eu acho que pode ficar definido amanhã. Em todas as eleições, eu queria que elas terminassem no primeiro turno. Tiveram segundo turno e fomos lá. Eu, amanhã, estarei festejando: se ganhar no primeiro turno ou se tiver segundo. Vamos para a Paulista fazer festa. Porque ressurgir das cinzas, como nós ressurgimos, é motivo de muita, muita alegria e vitória. Festa também pela luta que vamos ter que enfrentar daqui para frente.”

Aliança com os que perderem

“O importante de ganhar no primeiro turno é ter um tempo maior para montar o governo. Mas se não der pra decidir amanhã, como em um jogo que vai para a prorrogação, a gente descansa 15 minutos e entra em campo outra vez. E vai marcar os gols que não tiver conseguido.

Segundo turno é outra eleição. Não tem nada comparado ao primeiro. Você vai procurar as forças políticas que foram derrotas para conversar. Se quem perdeu não quiser falar, você conversa com o partido. E com os eleitores dele. O que está em jogo é o interesse em melhorar a vida do povo brasileiro. E não tem que ficar com melindre. Vamos falar com quem for preciso. Nosso barco é como a Arca de Noé. Basta querer viver para entrar – e nós iremos salvar todo mundo.”

Apelo para o eleitor votar antes de ir à praia

“Estou muito otimista, há chance de ganhar no primeiro turno. Por isto faço um apelo para que o povo vá votar amanhã. Pode arrumar as malas no carro, ir para a praia, passear. Mas antes vá votar. 

É dia da gente fazer o nosso principal ato cívico. Tem tanto candidato, escolha aquele em quem você mais acredita. Escolha a pessoa que vai contribuir para que o povo realize seus sonhos de ter mais saúde, educação, mais salário e menos sofrimento.”

Para quem não vota 13

“Também respeito aqueles que não votam em mim nestas eleições. Talvez eu não tenha encontrado as palavras certas, as palavras de sabedoria para convencê-los a votar em mim. Sou novo ainda, um dia posso tentar melhor. É só esperar para ver o que vai acontecer neste país.”

Padre Kelmon, o laranja  

“Eu não estava diante de um padre, mas de um candidato a presidente da República. Assim como não estava diante do presidente Bolsonaro, mas do candidato. Não estava diante do advogado nem de duas mulheres, mas de candidatos. Ali não tinha liturgia. Todo mundo estava nu. E vestido de candidato.  

O debate é sempre importante. É uma oportunidade de discutir, quando você tem o que discutir. Quando não tem, você vai para falar bobagem. Temos um presidente que gosta de mentir, faz parte do DNA dele inventar números. Se tiver segundo turno, o debate e no tête-à-tête, a pessoa tem que provar as coisas que fala. Mas o debate foi bom por muitos motivos. Para o povo ver o que está em jogo. Ver que falta um pouco de seriedade na política, e nos partidos, para escolher candidatos. Você não pode inventar candidato de última hora. Não pode inventar um laranja. É uma coisa muito séria escolher um presidente para um país.”

E se Bolsonaro quiser melar a posse?

Não temo nada. A única coisa que eu temo é o povo não me eleger. Mas se me eleger, haverá posse e tudo mais que eu tenho prometido.”

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