Documentário sobre crime da ditadura contra adolescentes estreia essa semana

Longa metragem de Tiago Rezende de Toledo mostra como agentes do DEIC de São Paulo abandonaram 93 jovens sem roupa ou comida em uma estrada na cidade de Camanducaia, Minas Gerais
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Em 1974, no auge da ditadura civil-militar que comandou o Brasil por 21 anos, uma operação policial recolheu 93 crianças e adolescentes que viviam nas ruas de São Paulo, levou os jovens ao Departamento de Investigações Criminais, dos colocou em ônibus e os abandonou nus, famintos e feridos na beira de uma estrada na cidade de Camanducaia, Minas Gerais. Mais de 40 anos depois, o diretor e roterista Tiago Rezende de Toledo resgata a história da criminosa Operação Camanducaia por meio de testemunhos de vítimas, parentes e autoridades.

Com estreia prevista para às 22h30 de 04 de dezembro de 2020 no Canal Curta!, o documentário, produzido pela Cambuí Produções com recursos do FSA, mostra como as “forças de segurança” do Estado realizaram uma verdadeira “limpeza social” nas ruas da cidade. Após serem deixados na rodovia, os jovens invadiram um postos de combustíveis na entrada da cidade em busca de ajuda. Somente 41 foram recolhidos pelas autoridades em Camanducaia e 52 deles continuam com o paradeiro desconhecido.

A ideia para a produção do filme e para reacender esse fato chocante de violação dos direitos humanos nasceu da leitura do livro Infância do Mortos, de José Louzeiro. O autor trabalhava na Folha de São Paulo em 1974 e afirmava ter sido o primeiro jornalista a chegar a Camanducaia. Esse episódio foi amplamente divulgado pela imprensa na época, além de ter sido denunciado na justiça, mas acabou arquivado no TJSP, sem punição para os envolvidos.

Na primeira sindicância sobre o crime, o escrivão José Alípio Pinto assumiu a autoria, preservando o alto escalão da polícia e da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Essa sindicância foi acusada pelo promotor João Batista Marques Viana Filho de ter sido forjada. O escrivão foi suspenso por 30 dias, mas durante a investigação da Corregedoria dos Presídios e da Polícia Judiciária outras testemunhas acabaram revelando a manipulação dessa sindicância e que o verdadeiro mandante seria Rubens Liberatori, diretor do DEIC, que deixou o cargo, mas logo assumiu outro posto importante na polícia.

Há dez anos Tiago iniciou a busca pelos protagonistas dessa história, os que estavam no ônibus naquele dia: policiais paulistas e garotos (agora homens) apreendidos. Na última década, ele pesquisou em mais de 1,5 mil páginas de documentos e jornais e entrevistou cerca de 57 pessoas. Depois de percorrer bibliotecas, hemerotecas, sebos, Fóruns da Infância e Juventude, de São Paulo e de Camanducaia, arquivos públicos e de inúmeras viagens para encontrar os sobreviventes, Tiago fez com que o longa priorisasse mostrar a singularidade de cada personagem.

Os 41 + os 52 que faltam

De acordo com a fonte, havia entre 91 e 97 garotos naquele ônibus. O filme adotou o número de 93 como referência, por conta indicações dos processos, a partir dos relatos dos que testemunharam a contagem no pátio do DEIC. 41 deles foram recolhidos e identificados pelas autoridades de Camanducaia/MG. E os demais?

“Pensar nos garotos que nunca foram encontrados é um desafio, um mistério interminável. Há relatos de tiros no momento do despejo, mas será que todos eles foram mortos? Não há evidências. Certamente, quem sobreviveu guarda na memória psíquica e corporal as difíceis lembranças da Operação Camanducaia, independente de terem sido identificados oficialmente ou não. Se não houve a morte física, de certa forma, houve uma morte simbólica”, diz o diretor do filme.

Para Tiago Toledo, “os sobreviventes registrados pelo Estado também carregam marcas, disso não há dúvidas. Nossa equipe esteve com alguns, que se dispuseram a se abrir, tornando-os personagens do filme. Após anos de anonimato, relegados a ficar atrás das abreviações de suas iniciais e das vendas de seus olhos, o objetivo maior do filme foi abrir espaço para a subjetividade e a singularidade de cada um. Eles têm nome e voz. Foi necessário lhes remover as vendas e abrir os nossos ouvidos: não nos cabe falar em nome deles.” 

“Uma de nossas tarefas enquanto filme documental, a de dar a eles oportunidade de verbalizar, foi cumprida. E para que a outra tarefa também se faça, cada um de nós tem um papel importante: ser instrumento para reverberar, mantendo viva a memória da Operação Camanducaia e divulgando ações criminosas que acontecem até hoje em larga escala com nossas crianças e adolescentes”, completa o diretor. 

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