Do luto à luta, nas ruas!

29 de maio de 2021, provavelmente, entrará para a história como o dia do início de uma nova onda de lutas populares massivas no Brasil

Por Gilvander Moreira1

O dia 29 de maio de 2021, provavelmente, entrará para a história como o dia do início de uma nova onda de lutas populares massivas no Brasil por vários direitos, entre os quais, “Fora, Bolsonaro!”, “Vacina, já!” e “Auxílio Emergencial de R$ 600,00”. Houve atos públicos, marchas e manifestações em 213 cidades no Brasil e em 14 cidades no exterior. Grande parte da mídia, jornais O Globo e Estadão, por exemplo, não mostraram a força e o tamanho das manifestações. Postura irresponsável e cúmplice do fascismo e do genocídio no nosso país, que ignora a realidade e tenta negar os fatos, mas a imprensa internacional e os veículos da microcomunicação noticiaram a grandeza e a força das manifestações.


Com precauções sanitárias, usando máscaras e tentando manter o distanciamento social e corporal, centenas de milhares de brasileiras e brasileiros – mais de 400 mil – foram às ruas protestar contra o desgoverno federal genocida e cúmplice da morte de mais de 470 mil pessoas, não apenas vítimas da pandemia da covid-19, mas principalmente da política genocida em curso no país.

Com muita criatividade, ao som dos tambores, com inúmeras mensagens estampadas em cartazes, faixas e banners, com uma energia contagiante, o povo deu um recado em alto e bom som: “Basta de genocídio! Basta da falta de vacina! Basta de miséria e fome! Basta de violência social e de cortes de direitos!”. São eloquentes e emblemáticas as mensagens empunhadas por pessoas lutadoras em faixas, cartazes, banners etc. Eis uma série delas: Crianças levantaram cartazes com a inscrição: “Minha professora já devia estar vacinada”; Uma vovó, em João Pessoa, cantou: “Eu vou, eu vou rezar, vou rezar o meu rosário para que Nossa Senhora bote fora Bolsonaro.”; Outras crianças, com cartazes: “Balbúrdia é querer me dar armas e tirar livros.”; Outra vovó segurava uma bandeira do Brasil e o cartaz: “Essa bandeira é nossa! Fora, milicianos!”; Um jovem marchou empurrando uma cadeira de rodas com um boneco dentro de um saco preto, com a inscrição: “Eu trouxe meu pai. Ele havia votado em você, Bolsonaro.”; “Cemitérios cheios, geladeiras vazias. Governo ruim não salva vidas nem a economia.”; “Se o povo protesta em meio a uma pandemia, é porque o governo é mais perigoso que o vírus.”; “Eu te responsabilizo, Bolsonaro!”; “Se estamos nas ruas, é porque o Governo se tornou mais perigoso do que o vírus.”; “Bolsonaro, genocida e inimigo da educação!”; “MAIS amor, vacina e ciência e MENOS ódio, negacionismo e Bolsonaros.”; “Fora, Bolsonaro! Basta de genocídio negro!”; “Em defesa da educação e do meio ambiente, Fora, Bolsonaro!”; o) “Nas terra de Zumbi, genocida não se cria. Fora, Bolsonaro!”; “Queremos vacina no braço, comida no prato e Fora, Bolsonaro!”; “Não tem vacina, mas tem chacina. Em memória dos 29 do Jacarezinho.”; “Nem tiro, nem fome e nem covid. Fora, Bolsonaro!”; “Vacina salva vidas, Amazônia salva o Planeta”; “Com Bolsonaro no poder, as mortes só aumentam.”; “Não estão todos, faltam 459 mil vidas.”; “Nem tiro, nem vírus, nem fome: a CPI tem que acabar em impeachment.”; “Pela Vida! Pela Vacina! Fora, Bolsonaro! Fora, Governo Genocida!”; “Vida, Pão, Vacina e Educação! Fora, Genocida!”; “A Ciência e a Educação salvam. Bozo mata!”; “Onze ofertas ignoradas para salvar vidas!”; “Nem tiro, nem cadeia, nem covid, nem fome. Fora, genocida!”; “Fora, Bolsonaro! Chega de mortes! Vacina, já!”; “Pela Educação, Fora, Bolsonaro e Mourão!”; “Em defesa da vida, do emprego e da terra!”; “Auxílio emergencial de R$600, já!”; “Chega de genocídio, fome e desemprego!”; “Vacina para todos, já!”; “Não é mole não, tem dinheiro pra milícia, mas não tem vacinação!”. O bispo Dom Vicente Ferreira divulgou no twitter: “#ForaBolsonaro sendo gritado em mais de 180 cidades.

Nas ruas do Brasil e do mundo. Vacina já! Auxílio emergencial justo e digno! Não dá mais para tolerarmos esse genocida. Se o povo corre risco de contrair COVID nas manifestações, é porque o vírus do desgoverno é mais perigoso.”; Não dá para citar todas as frases emblemáticas carregadas e ecoadas por mais de 400 mil pessoas nas ruas do Brasil dia 29 de maio último.
A Polícia Militar do Pernambuco deixou de agir segundo a Constituição federal e, com postura fascista, reprimiu violentamente a manifestação pacífica em Recife, atirando indiscriminadamente balas de borracha nos manifestantes e jogando bombas de gás lacrimogênio. Duas pessoas levaram tiro nos olhos e provavelmente ficarão cegadas. A vereadora Liane Cirne (PT), com mais de 25 anos como professora no curso de Direito, inclusive para centenas de policiais, mesmo mostrando a carteira de vereadora, recebeu gás lacrimogênio no rosto em uma ação truculenta e ilegal dos policiais. A vereadora só pedia para eles pararem de atirar bombas no povo.
Esse ato corajoso e sensato de milhares de pessoas ocuparem as ruas em plena pandemia é demonstração clara do limite a que chegou o povo brasileiro. Não dá mais para suportar as injustiças e o sofrimento impostos. Para quem defende a vida, para quem luta pelo respeito à dignidade da pessoa humana e de toda a criação, lutar contra o genocídio é também um serviço essencial e necessário. Bolsonaro minimizou o impacto da pandemia. Recusou várias ofertas de vacina (ofertas comprovadas pela CPI) que teriam poupado milhares de vidas. Colocou um general despreparado no Ministério da Saúde. Defendeu o uso da cloroquina e do tratamento precoce. Debochou do uso de máscara e foi à Justiça contra o isolamento social.


Lutar tem risco, mas o maior risco hoje é não lutar pela superação dos desmandos na política brasileira. A política genocida está se reproduzindo cotidianamente. De 2 mil a 2.500 mortos por dia; quase 5 mil em dois dias; 10 mil em 4 dias; 20 mil em uma semana; 80 mil por mês. Se continuarmos assim, até as próximas eleições em 2022 poderemos ter cerca de 2 milhões de mortos. Como nos resguardar dizendo que não quereremos novos mártires se o martírio está sendo o cotidiano do povo negro, do povo indígena, de mulheres e de toda classe superexplorada deste país? Como honrar os milhares de mártires da pandemia da Covid-19, resultado do descaso com a saúde pública que o desgoverno Bolsonaro e a necropolítica agravam cotidianamente? E quem mais está morrendo?
Em uma sociedade desigual, os omissos não são apenas omissos, são cúmplices e coniventes com os sistemas opressivos. Quem fica na inação “esperando o momento propício, sem riscos”, pela omissão, faz a pior “ação”: torna-se cúmplice da reprodução da violência. É grande ilusão pensar que é possível lutar por direitos sem correr riscos. Impossível conquistar a superação do sistema de morte sem lutas arriscadas. Sem lutas massivas e arrojadas não acontecerá a superação do autoritarismo e de todas as violências estruturais. Só posturas institucionais serão sempre tímidas e paliativas. O fascismo e o nazismo cresceram na Europa graças também a posturas conciliadoras de partidos e movimentos sociais que ficavam com excesso de cautela. Manter todas as precauções para não se contaminar com o novo coronavírus, sim, é necessário, mas jamais deixar de lutar por todos os direitos com organização e afinco. Enfim, sem lutas massivas e arrojadas nas ruas e em todos os cantos e recantos, nas periferias e na floresta, quem continuará sendo martirizado é o povão, a mãe Terra, os biomas e toda a biodiversidade.
Margarida Alves, martirizada a mando de latifundiários da monocultura da cana de açúcar, dizia sempre: “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”. O sangue de George Floyd, de João Pedro, do menino Miguel, dos milhares de brasileiros/as que estão sendo mortos de mil formas pela necropolítica reinante precisa continuar circulando nas nossas artérias, suas vozes devem se expressar agora e sempre por meio daquelas e daqueles que se comprometem com as lutas pela superação do sistema do capital. Observando todas as medidas de segurança para evitar o contágio do novo coronavírus, o povo deve, sim, seguir se manifestando com coragem e compromisso até depois de conseguir a derrubada deste desgoverno genocida e a implementação de outro governo justo economicamente, democrático politicamente, solidário socialmente, responsável ambientalmente e respeitador da diversidade cultural presente no nosso país. Inibir lutas necessárias é um grave erro político. Enquanto houver opressão e repressão haverá luta!

1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente da CPT, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH e de Teologia bíblica no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte, MG. E-mail: [email protected]  – www.gilvander.org.br  – www.freigilvander.blogspot.com.br       –       www.twitter.com/gilvanderluis         – Facebook: Gilvander Moreira III

1º/06/2021

Obs.: Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.

1 – Atos “Fora, Bolsonaro!, Vacina Já! Auxílio Emergencial de 600,00, já!”-SÍNTESE de n cidades-29/5/21

2 – Ato por “FORA, Bolsonaro!”, em Belo Horizonte, MG, 29/5/21: BASTA DE GENOCÍDIO E DESTRUÍÇÃO, BSA, GO

3 – MULTIDÃO NAS RUAS DE SÃO PAULO EXIGE VACINAS E IMPEACHMENT | #ForaBolsonaro

4 – “Mídia repete Diretas Já sem noticiar atos Fora Bolsonaro”

5 – Goiânia – 29M Fora Bolsonaro

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

Recorde em SP: 48 mil pessoas vivem nas ruas

Um levantamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que 48.261 pessoas viviam nas ruas em São Paulo no ano de 2022, sendo o maior já registrado na capital paulista. No Brasil são quase 192 mil pessoas em situação de rua registradas no CadÚnico.