Do berrante à apropriação do Hino Nacional

Bolsonarismo se assenhora de um dos símbolos brasileiros, sem saber que, por trás dos versos que entoa, há uma história romanesca e um plágio descarado

Por Homero Gottardello, jornalista e balcharel em Direito

Uma das características do bolsonarismo é sua apropriação dos símbolos nacionais. E a verdadeira adoração que o gado nutre por seu amo é expressa, dentre outras formas, no assenhoramento de tudo que remete ao patriotismo. Não é à toa que a camisa da Seleção Brasileira se tornou uma espécie de uniforme dos apoiadores do “excrementíssimo” – a moda foi lançada em 2015, durante a campanha que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff –, ao mesmo passo em que o Hino Nacional ganhou inúmeras versões (inclusive, ferindo a proibição de “quaisquer arranjos”, prevista no art. 34, da Lei 5.700/71) para servir como trilha sonora de motociatas e afins.

Ninguém duvida que o som do berrante é mais facilmente compreendido e decodificado pelos bolsonaristas do que a harmonia e a letra do Hino Nacional, mas fato é que a maioria das pessoas desconhece é a história romanesca por trás de sua composição, um verdadeiro parto que começa na Independência e só termina, com uso de fórceps, dez anos depois da Proclamação da República.

É que, ao contrário de Lennon e McCartney, Richards e Jagger, Roberto e Erasmo Carlos, que dividiram ou ainda dividem uma mesma vivência, transposta para letra e música, a dupla que assina o Hino Nacional jamais se encontrou. Mais do que isso, Francisco Manuel da Silva e Joaquim Osório Duque Estrada nunca cruzaram olhares ou estiveram, sequer, no mesmo ambiente. Isso porque o primeiro morreu cinco anos antes de o segundo nascer. Outra curiosidade sobre a composição é que ela não tem absolutamente nada de autoral. Ao contrário de “Let It Be”, “Satisfaction” ou “Detalhes”, que expressam o que há de mais original na obra de seus autores, o Hino Nacional é uma colcha de retalhos, uma compilação de trechos operísticos costurados sem muita medida e que, em um passado sem Google, YouTube ou Pro Tools, não teria como ser questionado.

Resumindo, trata-se de um símbolo, sim. Mas uma representação da nossa origem tupiniquim, de uma herança colonial concebida e executada pela mesma politicagem fraudulenta que, hoje, alcançou os píncaros do absurdo. Mas vamos aos fatos!

A melodia do Hino Nacional foi composta por Francisco Manuel da Silva (1795-1865), entre 1822 e 23, por ocasião da Independência do Brasil, como “Marcha Triunfal” – há quem defenda que ela foi composta em 1831, mas quando D. Pedro I abdica e põe fim ao Primeiro Reinado, em abril deste mesmo ano, a música já era conhecida e apenas ganha versos políticos, que comemoram sua renúncia. Francisco Manuel teve, desde cedo, educação musical, sendo aluno dos mais proeminentes nomes do período colonial: José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) e Sigismund von Neukomm (1778-1858).

O padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), principal compositor brasileiro do período, é autor de missas, motetos, peças orquestrais e de câmara. Nunes Garcia tinha conhecimento acadêmico e era um homem de inspiração inumerável, o que fica evidente ao compararmos sua obra com a de outros nomes do barroco português, como o Frei José Marques e Silva (1782-1837), João de Sousa Carvalho (1745-1798) e João Lourenço Rebelo (1610-1665). Era considerado um cravista destacado e das suas quase 250 composições que sobreviveram ao tempo, constam títulos didáticos e até mesmo modinhas.

O austríaco Sigismund von Neukomm (1778-1858) chega ao Brasil, em 1816, para trabalhar na Corte de D. João VI, trazendo um currículo relevantíssimo: organista da igreja da Universidade de Salzburgo (1792), regente do coral do teatro da corte na mesma cidade (1796) e mestre de capela do teatro germânico de São Petesburgo (de 1804 a 1809). Neukomm foi aluno de Michael Haydn, irmão mais novo de Joseph Haydn, e afirmava-se que ele havia nascido em uma casa vizinha à de Mozart. Outra lenda diz que o Neukomm foi um espião, algo difícil de acreditar, já que ele compôs dez óperas, 48 missas, oito oratórios e outras 200 peças que incluem quintetos, quartetos, obras para piano e órgão – é muito estro para um mero agente de espionagem.

Ao contrário de seus mestres, Francisco Manuel não teve uma produção tão fecunda. Aos 14 anos, ingressou no coro da Capela Real e, pouco depois, iniciou seus estudos com o violoncelo – mais tarde, violino, piano, órgão e composição. A proximidade com D. Pedro I e uma provável indicação de Neukomm o impeliram para a carreira burocrática na corte (foi promovido a diretor musical da Capela Real) e, nesta condição, se firmou como um dos aduladores do imperador. Ainda jovem, compôs um hino litúrgico (Te Deum) para o próprio monarca que, em retribuição, prometeu financiar seus estudos na Europa. A promessa jamais seria cumprida, mas Francisco Manuel seguiu ocupando postos de prestígio, como o de compositor (nomeado em 1841, por D. Pedro II) e mestre de capela da Câmara Imperial. Sua única composição preeminente, dentre um catálogo medíocre, é justamente o Hino Nacional.

Mas de onde Francisco Manuel teria encontrado inspiração para sua melodia?

A resposta é simples: de vários manuscritos. Francisco Manuel exerceu as funções de copista e arquivista da corte, entre os anos de 1821 e 22. Ou seja, por suas mãos passavam e foram exaustivamente copiadas obras como a Sonata Nº 1 em Lá Menor, da Centone di sonate, Op. 64, MS 112, de Niccolò Paganini (1782-1840); e a Sinfonia Nº 3 (Eroica) de Ludwign van Beethoven (1770-1827), mais especificamente seu segundo movimento: “Marcha funebre – Adagio assai”. Mas foi do próprio mestre, Nunes Garcia, que Francisco Manuel obteve sua iluminação, mais precisamente da sua Matinas – Missa – de Nossa Senhora da Conceição, composta em cerca de 1810. É desta peça sacra, para coral, que o copista extrai a parte “cantada” do Hino Nacional, bebendo em outras fontes para as partes “instrumentais”.

O tema do Hino Nacional não foi um sucesso imediato e sua melodia só recebeu os primeiros versos, mesmo assim genéricos, após a abdicação (1831) de D. Pedro I, quando ganhou popularidade. Só em 1841, depois da coroação de D. Pedro II, é que a composição ganhou uma letra “oficial” e passou a ser executada como hino. Mas ainda faltavam muitos anos para que o Hino Nacional, conforme o conhecemos, ganhasse sua versão definitiva.

A letra que entoamos, de Joaquim Osório Duque-Estrada (1870-1927), não foi uma epifania, um lampejo, uma revelação patriótica, como muitos supõem. Foi escrita para um concurso, lançado em 1906. Antes disso, em 1890, o governo republicano recém-constituído do Marechal Deodoro da Fonseca já havia promovido a seleção de um hino oficial, vencida por Medeiros e Albuquerque (1867-1934), autor dos versos, e Leopoldo Miguez (1850-1902), autor da música. O problema é que a nova composição não agradou nem o populacho, nem o próprio Deodoro que, depois de golpear D. Pedro II, não mudou de farda para descumprir com os vencedores – de qualquer forma, a composição vencedora foi transformada no Hino da Proclamação da República.

Só em 1909, a letra de Duque-Estrada foi declarada vencedora do concurso promovido três anos antes, mas a propriedade intelectual definitiva (que custou 5:000 $, cinco contos de réis ou o equivalente a R$ 300 mil, em valores atualizados) só foi garantida em 1922, portanto, um século depois de a melodia ser composta.

Duque-Estrada foi professor e ensaísta, além de imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), mas, a exemplo de Francisco Manuel da Silva, tem sua expressão máxima na poesia, na letra do Hino Nacional – também foi crítico literário no “Correio da Manhã” e no “Jornal do Brasil”. O aspecto autoral de seus versos é inegável, mas, aqui, o tempo prega uma peça no conjunto da obra. É que, enquanto a música do Hino Nacional é de cunho romântico-operístico, a letra é positivista e encaixar os versos na melodia foi uma tarefa tão difícil, que ficou a cargo do compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920), este, sim, um mestre da música propriamente brasileira.

Uma curiosidade a respeito da letra do Hino Nacional é que, ainda na era imperial, havia três estrofes que eram cantadas junto com a introdução – supostamente, de autoria do ex-presidente das Províncias do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, Américo de Moura Marcondes de Andrade. Outra curiosidade sobre o Hino Nacional é que ele só foi oficializado, ou seja, posto como definitivo e perpétuo, em setembro de 1971. Em outras palavras, aquele que é o mais representativo dos Símbolos do Brasil teve caráter provisório durante nada menos que 149 anos. Como o leitor pode ver, no país do bolsonarismo, nada sobrevive a uma investigação histórica. Somos um povo precarizado, cada vez mais tolerante às fraudes e, se isso serve de consolo, só de não termos a “Dança da Bundinha” ou um reles sopro do berrante de Sérgio Reis como ode cívica, podemos nos dar por satisfeitos.

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