Diário do bolso: batom na cueca

Governar é que nem ser pego com batom na cueca: o importante é negar e inventar uma desculpa.
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp

Por José Roberto Torero*, governar é que nem ser pego com batom na cueca: o importante é negar e inventar uma desculpa.

Por exemplo:

1-) Mortes pela covid.

Nunca que eu vou assumir que ajudei a ter 170 mil mortos por covid porque mandei todo mundo ir pra rua, falei que a máscara não adiantava quase nada e não fiz um plano nacional de combate. Vou é botar a culpa nos governadores e prefeitos.

É mais ou menos como dizer: “essa cueca tem as iniciais J.M.B. mas não é minha. Deve ser de algum João Martins Batista”.

2-)Centrão.

Nunca que eu vou assumir que estou fazendo justamente o que eu disse que ia combater: o tomaladacá com o Centrão. Vou falar que todas as minhas nomeações são técnicas.

É mais ou menos como dizer: “acho que foi a lavadeira que achou a cueca tão bonita que deu um beijo nela.”

3-) Inflação.

Nunca que eu vou assumir que as causas do aumento de preço dos itens de alimentação são a alta do dólar e a falta de estoque regulador, que eu e o Temer deixamos acabar. Vou colocar a culpa no tal do “fica em casa”, que impediu o pessoal de produzir mais.

É mais ou menos como dizer: “Isso não é batom, é que eu menstruei.”

4-)Rachadinha.

Nunca que eu vou assumir que o Flavinho é culpado e que, sabendo disso, eu estou mexendo os meus pauzinhos pra livrar o garoto. Vou falar que é tudo perseguição política só porque ele é meu filho.

É mais ou menos como dizer: “Olha só que engraçado: lavei a cueca com uma roupa vermelha e a mancha ficou exatamente no formato de uma boca!”

5-) Racismo.

Nunca que eu vou assumir que o Brasil é racista e que morremuns cem negros assassinados por dia. Vou é falar que a esquerda quer jogar uns brasileiros contra os outros pra desestabilizar o meu governo.

É mais ou menos como dizer: “Batom? Não tem nada aí. Você deve estar com problema nos olhos. Vamos num oculista agora mesmo!”

Enfim, Diário, esse é o conselho que eu vou deixar para a posteridade. Se encontrarem batom na sua cueca, negue e dê uma desculpa. Nem precisa ser boa, porque, se a esposa quiser acreditar, ela acredita em qualquer negócio. E eu falo isso por experiência própria, porque eu já fui casado um monte de vezes, talkei?

*José Roberto Torero é autor de livros, como “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S. Paulo entre 1998 e 2012.

#diariodobolso

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

Diário do bolso: o panelaço contra o genocida

Olha, Diário, o que esses paneleiros querem é o meu “impichimem”!

Me dá um arrepio só de escrever essa palavra. O Dudu me explicou que ela vem do inglês é quer dizer “jogar piche no homem”. Ele acha que deve ter tido um presidente em que atiraram piche, tipo o Gerald Nixon, e aí o nome pegou.

Diário do bolso: eu sou louco?

Por exemplo, essa semana aí, eles entrevistaram uns psicólogos (ou será que foram psiquiatras?, ah, sei lá, uns desses médicos de loucos). E os malucólogos disseram que eu tenho problemas mentais!

>