Denegrindo minha imagem

A coluna “Café com muriçoca” é um espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. Hoje a crônica é “Denegrindominha Imagem" Por Dinha

Escrevo sem ter linha
Escrevo torto mesmo
Escrevo torto, eu falo torto
Pra seu desespero”

Ellen Oléria

“Se encaixar no padrão da branquitude é uma forma de defesa individual legítima que nos poupa sofrimento e garante um problema a menos na hora de lidar com as salas superlotadas e com o excesso de trabalho das escolas públicas.”

Salve, gente bonita!

Eu fiz Letras, ceis deve saber.

Na FFLCH eu era a menina mais improvável que podia ter por lá.

E foi lá que eu me confrontei irremediavelmente com minha negritude e nordestinidade favelada. Foi lá que eu senti o gosto estranho de saber quem eu era, da minha linguagem favelada, das minhas roupas e assuntos de pobre que leu mais do que o que tava combinado pra sua classe, raça e origem geográfica.

Mas também foi lá que eu desenvolvi meu talento pra escrita e aprendi que o linguajar periférico era não apenas legítimo, mas um dos grandes responsáveis pela vivacidade da língua oficial brasileira. Aprendi também que a “Língua de Camões”, meu crushzinho quinhentista”, é só sobra do Latim falado por soldados romanos e misturado aos idiomas locais do que hoje conhecemos como Portugal.

Outra coisa que a gente aprende lá é que as palavras contam histórias e revelam o que nossa ingenuidade ou maldade tenta esconder. Sabe quando a pessoa usa “invasão” no lugar de “ocupação”, pra se referir ao aglomerado de residências construídas à revelia da opinião pública?

Pois é. Quem usa “invasão” demonstra que não concorda com essas ações de ocupar terras, terrenos e edifícios que não cumprem com sua função social.

Ou seja: a pessoa abriu a boca e a gente já sabe o quanto coxinha se é.

E, por falar em coxinha, esse é um dos legados das quebradas. Trata-se de uma contribuição importantíssima à língua portuguesa, que serve pra substituir os antigos apelidos dos polícias: “uzômi” e “os gambé”. “Coxinha” surge pra provocar os policiais que ficam nas padarias comendo salgados de graça, em troca da proteção extra oficial que dão aos comerciantes na hora de abrirem e fecharem suas portas.

Mas o vocábulo extrapolou os muros dos guetos e ganhou outros significados. Hoje em dia, “coxinha” é patrimônio linguístico do nosso país e serve pra nomear todo mundo que é de direita, ou que finge ser esquerda, mas na hora do vamuvê dá pra trás.

Mas, voltando ao peixe que morre pela boca, à ideia de que as palavras deixam a gente nua -, pensa você na palavra “denegrir”.

Denegrir” significa “enegrecer”, “tornar negro”, e faz muito tempo que eu não uso esse termo, a não ser como um elogio.

Acontece que quando me tornei professora, em 2008, percebi que a maior parte das minhas colegas – a maioria de origem pobre, como eu – assim que entravam na carreira pública tratavam logo de alisar e pintar os cabelos de loiro, tentando se aproximar de um padrão de beleza que faria com que elas não fossem confundidas com o pessoal que lava o chão.

Não digo isso pra falar mal das colegas. Não mesmo. Até porque, quem, em sã consciência, vai querer ficar pagando veneno, sofrendo discriminação a torto e a direito?

Se encaixar no padrão da branquitude é uma forma de defesa individual legítima que nos poupa sofrimento e garante um problema a menos na hora de lidar com as salas superlotadas e com o excesso de trabalho das escolas públicas.

Mas, como eu sou poeta, depressiva e, logo, tenho uma quedinha pelo sofrimento, eu fiz o percurso contrário e fui “denegrindo minha imagem”, enegrecendo ela, conforme me deparava com os obstáculos raciais.

Essa foi uma escolha que eu fiz pensando em mim, no meu ex-companheiro, nas minhas filhas e nas crianças e adolescentes pra quem eu dava aulas. Intuitivamente eu ressaltava minha negritude pra não me destacar dos meninos e meninas para quem eu era referência, figura de autoridade.

Ilustração de Sam

Daí eu mantinha o cabelo escuro e volumoso – cheguei até a usar dreads -, discutia as questões raciais em todas as aulas que eu desse e, se alguém reparava na cor dos meus olhos (que ficam castanhos ou verdes, a depender da luz) eu me fazia de besta e mudava de assunto.

Como disse, eu denegria minha imagem tentando mostrar às crianças que pessoas negras são sim bonitas e inteligentes e talentosas (e eu nem tô dizendo que sou tudo isso… mas vai que cola, né?)!

Mas, voltando aqui ao assunto, nessa, de enxergar o mundo através da linguagem, a gente chega no último ponto dessa nossa conversa aqui.

Sabe quando a gente pergunta pra um menino se ele entendeu o que dissemos e daí ele responde “tendeu… tendeu”?

Então. Primeiro a pessoa pode achar que não é nada… só mais um desvio desse povo que não sabe falar português. Mas se a gente olhar bem, vai perceber que (1) esse “tendeu” é uma abreviação de “nóis entendeu” e (2) o sujeito da oração é plural, é coletivo.

Isso aí é o que acaba comigo e faz meu coração transbordar de amor por esse povo que vive, sofre e ama em conjunto.

Esse eu, no plural, ele acaba comigo.

Mas o assunto ficou longo, deixa eu parar por aqui. Outro dia, logo menos, a gente desenrola.

Da minha parte, aqui, só agradece.

Só agradece a atenção da família


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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