Da série: Respondendo perguntas

A coluna “Café com muriçoca” é um espaço de compartilhamento literário dos Jornalistas Livres. Hoje a crônica Da série: Respondendo perguntas” de Dinha compõe o projeto.

É tipo formiga
É o enxame
É a Zika
A família está unida

Sabotage

“Foi também por razões de sobrevivência que eu me joguei no poço artesiano das leituras: É que, no barraco apertado, livros eram janelas, passagens de navio, de avião… Passe livre nos buracos de minhoca.”

Salve povo! Como tá indo o domingo?

Hoje eu vou estrear essa série aí, ó: Respondendo perguntas.

Quando eu terminar é capaz que tenhamos um compilado das perguntas mais feitas a escritoras e escritores da periferia.

Uma pergunta que sempre me fazem é sobre o meu processo de escrita. Por que, o que, quando comecei a escrever e porque não desisti no caminho.

Eu não sei bem o motivo das perguntas: se é algum tipo de curiosidade das mais simples, se é alguma esperança de tirar um aprendizado com base no que é singular ou comum nas respostas de todo mundo… ou estranhamento sociológico, tipo, como essa praga conseguiu ler e escrever nessa ruindade de vida?

O fato é que minha mira quase sempre esteve voltada para o que contraria: mas do prato raso em que a vida era servida, dele, eu comia todos os grãos e ainda mastigava o osso.

Nosso cachorro, Sultão, coitado, se comesse osso, era moído.

Mas era assim que eu sobrevivia.

Escuta essa história aqui da laranja, por exemplo:

Na nossa casa, quase nunca tinha fruta e, se tivesse, a ordem era sempre pôr pra dentro só uma por boca faminta.

Por alguma razão que a biologia explica, mas eu não sei me explicar, laranja sempre aumentou meu apetite. Daí, na hora de chupar minha cota, eu virava a trouxa da família, porque trocava o sumo da minha laranja pelo bagaço de quem topasse essa transação esquisita.

O bagaço nunca me dava fome. Daí minha barriga sossegava depois de três sobras ingeridas.

Essa história é pra dizer que eu acho que eu sou tipo praga mesmo… sobreviver, pra mim, já era viver a vida.

Foi também por razões de sobrevivência que eu me joguei no poço artesiano das leituras: É que, no barraco apertado, livros eram janelas, passagens de navio, de avião… Passe livre nos buracos de minhoca.

Com leitura eu distraia as fomes, os perigos convencionais impostos às meninas que viviam como eu e, presta atenção que é importante essa porra, aprendia os idiomas proibidos da nossa elite sarnenta e de seus petzinhos armados de caneta ou de fuzil.

Mas eu prometi, nessas prosas, responder a algumas perguntas.

Não vou responder todas elas, de uma vez porque assim não seria uma série e também porque aqui não caberia.

Mas eu vou responder “para quê”. Por que cargas d’água eu podia tá matando (rico), eu podia tá roubando (rico), mas tô aqui ó, com vocês, escrivinhando (riqueza).

E lá vai a resposta. De quase tudo o que eu já disse, uma pequena síntese:

Escrevo, ainda, pra sobreviver.

Escrevo pra corromper as estatísticas.

Escrevo pra que meu povo não mais morra nas mãos da polícia.

Escrevo porque eu não seria eu, não sem a literatura.

Por hoje é só.

Logo menos, é nóis de novo.


Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota) é poeta, militante contra o racismo, editora independente e Pós Doutora em Literatura. É autora dos livros "De passagem mas não a passeio" (2006) e Maria do Povo (2019), entre outros.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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