Cuidemos de nossas meninas

Por Cidinha da Silva

Dez mulheres procuraram a Delegacia da Mulher de Florianópolis para denunciar assédio sexual e moral praticado por professor de História da Universidade Estadual de Santa Catarina, UDESC . Uma dessas acusações é de estupro, que teria ocorrido na casa do denunciado no município de Palhoça, fora, portanto, do espaço da universidade.
As denúncias dão conta de que o assédio sexual e moral teria tido vez nas dependências do Centro de Ciências Humanas e da Educação, na sala de orientação pedagógica, durante encontros reservados de orientação acadêmica.
O perfil das denunciantes tem em comum o fato de serem mulheres negras, cotistas e bolsistas As não-negras pertencem a grupos sociais vulneráveis, são cotistas e bolsistas também.
A denúncia de estupro, feita em fevereiro deste ano, encorajou as que foram objeto de assédio a também erguerem a voz. Por esse motivo, elas têm sido constrangidas e ameaçadas.
Nas redes sociais pessoas apontam o quão inquietante é saber que todas as pessoas envolvidas (quase todas), notadamente o professor, são negras. Se comprovadas as denúncias, ficará explícita a operação de uma lógica perversa e cruel, embora seja redundante somar esses dois adjetivos.
Vejamos. Como o racismo opera nesses casos de assédio sexual? Se um homem negro assedia uma mulher branca, é muito provável que o sistema racista não o deixe escapar, porque em alguma medida, ainda que mínima, mulheres brancas devem ser protegidas, principalmente de homens animalizados pelo sistema, os negros, no caso. Mas o que conta mesmo é a exclusividade de um produto no mercado de corpos para os homens brancos.
Se um homem branco assedia uma mulher negra, o sistema racista relativizará o crime e provavelmente o perdoará, porque às mulheres negras é atribuído o não-valor social e qualquer um é instado a dispor de seu corpo sem penalização.
Se um homem negro assedia uma mulher negra, ele o faz em estado de consciência plena de que poderá se beneficiar do sistema que menospreza a mulher negra, para ficar impune. Ele acredita que ao usar esse estratagema se auto-protege. De fato, o faz, afinal, se o assédio for a uma mulher branca, principalmente àquelas pertencentes aos grupos branco-hegemônicos, o sistema irá trucidá-lo. Ele sabe como saciar suas taras e como se manter vivo, para tanto, escolhe a destruição daquelas que deveriam ser tratadas como suas companheiras de destino, por sofrerem a mesma opressão racial.
Ao fim de tudo, o que concluímos neste e em inúmeros outros cenários, é que as mulheres negras estão por sua própria conta.
Uma das cenas de abertura do filme Pantera Negra, não discutida nas resenhas sobre a narrativa, é emblemática dos processos de fragilização a que as mulheres negras estão expostas.
Diante da iminência da coroação como novo rei, após a morte de T’Chaka, T’Challa, o filho-herdeiro, não pode ser coroado sem a presença de Nakia, seu grande amor. Ela está envolvida em missão (de salvamento de mulheres, descobriremos depois) fora de Wakanda. T’Challa encontra Nakia assentada dentro de um caminhão que transporta várias mulheres islamizadas, reféns de um grupo de homens fortemente armado. Ora, quem está atenta a África contemporânea e suas idiossincrasias, poderá ver ali, referência ao seqüestro de mulheres pelo Boko Haram, grupo terrorista islâmico da Nigéria.
Os relatos das mulheres resgatadas ou fugitivas informam que as cristãs são obrigadas a se converterem ao Islamismo, antes de serem sexualmente escravizadas pelos terroristas. Quando conseguem voltar para casa, essas meninas, moças e mulheres não têm mais um lugar social nas comunidades de origem. São punidas porque foram escravizadas sexualmente. Mesmo as mães que lutaram por sua liberdade, não sabem o que fazer quando elas voltam à vida civil. E essas mulheres se vêm sozinhas e desamparadas por completo.
Quem é pelas mulheres negras que denunciam assédio sexual e moral aqui nesse pedaço da diáspora negra? Quem as escuta? Quem considera suas vozes? Quem não as trata como vis mentirosas até que provem os abusos, enquanto se sentem expostas, pois sua palavra é totalmente desqualificada? Quem dá crédito às suas palavras na primeira hora da denúncia? Quem as protege? Quem se preocupa com os danos emocionais e psicológicos, acadêmicos, profissionais e patrimoniais sofridos por elas?
Há três anos, mulheres organizadas da Universidade Estadual da Bahia, UNEB, lograram exonerar um professor assediador que segue respondendo processo na justiça, acusado por professoras e estudantes. A situação aconteceu no Campus de Eunápolis, Sul do Estado. A denúncia foi feita na universidade e também no Ministério Público, para enfrentar o corporativismo machista que protege os pares. É digno de nota que, por razões de segurança, três estudantes e uma professora foram transferidas para o Campus de Salvador. Nesse ínterim, outra professora sucumbiu à pressão emocional do processo e por pouco não conseguiu interromper a própria vida numa tentativa de suicídio.
A diretora do Diretório Acadêmico Oito de Maio, gestão Sankofa, Maria Carolina, responsável por acolher as denúncias de assédio sexual e moral contra um professor de História da UDESC e por encaminhá-las à Direção Geral da universidade, está sendo ameaçada, bem como as denunciantes e testemunhas.
Ora, cabem as perguntas: quem tem poderes para ameaçar? Quem tem instrumentos para coagir e fazer calar? Em nossa estrutura social, que grupos costumam tomar esse tipo de atitude? São os que defendem as pessoas como sujeitos de direitos? São os bandidos? As milícias? Quem são? De que poder material (capacidade de violentar e matar por meio de armas, armadilhas, tocaias, acidentes forjados) e simbólico, expresso principalmente na subordinação de afetos: medo, angústia, solidão, gratidão, culpa, admiração, isolamento, vergonha, abandono, esses grupos dispõem?
Quem ameaça depoentes num processo abala sua própria presunção de inocência.
Que sejamos capazes de ouvir nossas meninas, nós, mulheres e homens comprometidos com a justiça, a decência, já que não conseguimos protegê-las do assédio sexual e moral. Que sejam rompidas todas as teias que obrigam meninas e mulheres violentadas ao silêncio envergonhado. Ao acabrunhamento provocado pela defesa generalizada a abusadores. Pela insinuação de que, “se elas não reclamaram antes é porque estavam gostando, porque eram coniventes”.
Não! Ninguém gosta de ser subjugada, humilhada, violentada. Só a cabeça de psicopatas é capaz de imaginar esse suposto prazer. As mulheres abusadas têm se calado porque sua psiquê é gravemente ferida pelo abuso; porque se sentem desesperadamente sozinhas, fragilizadas, inseguras, amedrontadas, acuadas. Descrentes da humanidade. Zelemos por elas, como faríamos por nossas filhas, antes que seja tarde.

Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016).

Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.

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Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016). Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.
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