Cuidando de quem cuida

O Projeto Casa Mãe Mulher abre novos caminhos de atenção às mães de adolescentes em conflito com a lei, privados de liberdade

por Débora Rolando*

1º Encontro sobre Saúde da Mulher Negra na Casa Mãe Mulher

O 1º Encontro sobre Saúde da Mulher Negra se propõe a criar uma agenda de atividades para fortalecimento da campanha Novembro Negro direcionado para saúde da mulher negra na Casa Mãe Mulher.

Serão 03 encontros em novembro ligados aos efeitos do racismo em relação a saúde da mulher negra. Essas atividades serão realizadas por mulheres especializadas nos temas, que irão conduzir o público interessado durante esses encontros, com o objetivo de fortalecer o debate acerca dos temas das questões raciais com foco na saúde da mulher negra e periférica; contribuir para o desenvolvimento da autorreflexão enquanto Mulher Negra na sociedade; socializar conteúdos do autocuidado com a saúde da Mulher negra e periférica; e proporcionar a livre troca de ideias, reflexões e informações.

As atividades propostas terão formatos variados, como palestras, rodas de conversa, oficinas, cine debates entre outros. O projeto vai priorizar atividades lúdicas e práticas, abordando os temas de forma leve e agradável. Sobretudo, o projeto busca assegurar a livre manifestação democrática de todos os participantes.

Público alvo

Mães dos adolescentes em privação de liberdade e voluntários que frequentam a Casa Mãe Mulher; funcionárias do Degase e mulheres moradoras do entorno da Casa.

Programação

DIA 01 – Racismo, encarceramento e seus efeitos na saúde mental das mulheres negras (Sab 20/11)

Roda de conversa sobre racismo, encarceramento e seus efeitos na saúde mental das mulheres negras

Importância do cuidado e atenção à saúde mental

Desafios de acesso à tratamento psicológico, a escassez de profissionais que entendam as mazelas deixadas pelo racismo e a falta de recursos financeiros.

Responsável: Grasiele Gomes – psicóloga

DIA 02 – AgroTerapia: o cultivo terapêutico (Qua 24/11)

Cultivo Terapêutico

É o resgate dos saberes que partem da contemplação da Natureza (biointeração) a fim de encontrar soluções para problemas do cotidiano.

Estes saberes oriundos das aldeias, dos quilombos, das comunidades, dos terreiros, ribeirões e sertões, são considerados saberes tradicionais, retidos materializados em artefatos, ritmos, ornamentos e sabores são tecnologias sociais responsáveis pela transmissão, perpetuação da sapiência e muitas vezes geração de renda.

Presentes desde à concepção, nutrição, manutenção – portanto em diversos campos do saber, podemos afirmar que a AgroTerapia tem sua importância e aplicabilidade para repensarmos ações em função da manutenção de nossos frutos.

Responsável: Alexandre Nascimento

DIA 03 – Racismo e seus impactos na vida das mulheres negras: um olhar para a saúde reprodutiva (Sab 27/11)

Roda conversa sobre violações de direitos no acesso à saúde com foco em métodos contraceptivos, abordando os prós e contras de cada um e desmistificando algumas informações sobre os mais comuns. A roda será também uma oportunidade para as participantes tirarem dúvidas ao longo da conversa. Será distribuída uma cartilha informativa com resumo do que foi abordado no dia.

Responsável: Fátima Oladejo

PROJETO “CASA MÃE MULHER”

Fundada por Sandra Santos, uma mulher preta que carrega uma história pessoal de grande superação e um coração gigante, a Casa Mãe Mulher é uma associação formada por mulheres, desde 2011, para prestar acolhimento e dar apoio às mães de adolescentes em conflito com a lei e privados de liberdade, internados no Degase – Departamento Geral de Ações Socioeducativas.

Com sede em Belford Roxo, Baixada Fluminense, no Estado do Rio de Janeiro, o projeto atende cerca de 200 mulheres por semana. Para desenvolver as ações, a Casa Mãe Mulher conta com o trabalho de voluntárias e a soma de pequenas doações, a maioria feita por pessoas físicas. “Aqui é tudo muito simples, mas fazemos esse trabalho com muito amor”, afirma Sandra que, em 2019, ganhou o prêmio Claudia de melhor projeto social.

O propósito da Casa Mãe Mulher é promover os direitos humanos em um cenário de enormes violações como a falta de assistência jurídica, revistas vexatórias e precariedade das Unidades.

“Essas e outras questões nos movem e por isso travamos essa luta junto às mães pela dignidade dessas famílias e pelo respeito aos direitos humanos, fortalecendo mulheres que vivenciaram a maternidade sem a estrutura adequada e, consequentemente, carregaram e carregam diversos fardos sociais. O Estado foca nos adolescentes, aqui nós olhamos para as mães. Reconhecer a dignidade da vida dessas mulheres é o nosso objetivo principal”, conta Sandra.

As unidades socioeducativas recebem adolescentes de todas as classes sociais, no entanto meninos negros, favelados e periféricos representam o maior número entre os internos. As mulheres atendidas vêm de diversas periferias de todo o Estado: a maioria mulheres pretas em situação de vulnerabilidade e mães solo.

A mãe é a culpada?

Na chegada à unidade, as mães estão muito fragilizadas e totalmente desinformadas sobre a entrada, período de permanência, audiência e saída dos filhos, por exemplo. Completamente perdidas. Sandra explica que o objetivo da Casa Mãe Mulher é instruir essas mulheres, na medida do possível, e fortalecê-las para as audiências diante do juizado e da promotoria.

Trata-se de um sistema marcado por violações, em que até as mães são culpabilizadas e criminalizadas, passando por situações críticas, pelo constante medo de perder seus filhos e pelo desprezo das instituições do Estado, que não prestam qualquer assistência. Sabemos o quão agressivo é esse processo para essas mulheres. Tivemos casos em que a juíza disse para mãe que ela era a culpada. Elas saem do fórum maltratadas. Algumas chegam a adoecer. Além de todas as mazelas que vivem, ainda sofrem com todo tipo de agressividade e desprezo de instituições preconceituosas e machistas em um momento que, para muitas delas, é o pior de suas vidas, vendo seus filhos, ainda jovens, encarcerados, tendo de conviver com o pavor de perder o filho para o crime ou para morte”, explica Sandra.

Dessa forma, a Casa Mãe Mulher procura garantir condições mínimas de dignidade para a vida dessas mulheres e o momento que estão passando.

Quase não existem pesquisas que tracem o perfil socioeconômico das mães de meninos em privação de liberdade. Entretanto, é possível perceber que a maior parte dessas mulheres é negra, de baixa renda e possui baixo grau de escolaridade.

Sandra relata que as mulheres atendidas, em geral, foram invisibilizadas por toda a vida. “Algumas não sabem nem o dia do próprio aniversário”, narra. Nesse sentido, a Casa busca oferecer acolhimento e contribuir para a elevação da autoestima e a garantia de direitos.

Sobre os 10 anos de trajetória do projeto, Sandra descreve que foi possível perceber os impactos da Casa Mãe Mulher na vida dessas mulheres.“Contribuímos com apoio emocional e psicológico; colaboramos com esclarecimentos acerca dos direitos dessas mães e de seus filhos; incentivamos a formação escolar e, sobretudo, criamos uma rede organizada de mulheres em luta pelos direitos humanos. Esse apoio reverbera na vida pessoal delas. É visível a mudança de atitude e comportamento. Ficam menos agressivas. Nós inspiramos essas mulheres a sonharem e realizarem seus sonhos. Hoje, temos a mãe de um adolescente que resolveu se dedicar a essa causa e atua ativamente no projeto. Temos casos de mulheres que voltaram a estudar, inspiradas por nós. Ao reconhecermos a dignidade da vida delas, elas também enxergam nas próprias vidas”.

Além da orientação, apoio psicológico e emocional através da escuta, a Casa também oferece café da manhã e almoço. Voluntários desenvolvem atividades recreativas, oficinas e palestras. O projeto conta, ainda, com um bazar de roupas a preços simbólicos. Nele as mães também podem pegar emprestado algumas peças quando as próprias roupas não estão adequadas para as visitas no Degase. Muitas delas já foram proibidas de entrar por causa disso.

Esta atenção prestada melhora não somente a relação dessas mães com a própria instituição, mas principalmente entre a família. O atendimento prestado pela Casa contribui para um relaxamento de tensão de ambas as partes. As mães se sentem mais confiantes e seguras sobre elas mesmas e os processos dos filhos e filhos se sentem mais acolhidos e cuidados pelas mães, facilitando, assim, o processo socioeducativo no período de internação.

O futuro da Casa

Mesmo com a pandemia e as restrições de visitação nas unidades, a Casa Mãe Mulher permaneceu ativa, oferecendo cestas básicas às mulheres assistidas pelo projeto. Sandra explica que quando começou a quarentena, em 2020, decidiu manter as portas abertas porque sabia que muitas mães não tinham o que comer em casa e sentiu a necessidade de ajudar com isso também.

“O objetivo, hoje, é expandir nossa atuação. Para esse fim, estamos formalizando a associação. Adquirindo um CNPJ, ampliaremos as possibilidades de participação em mais editais e uma maior captação de recursos para oferecer novas atividades que possam fortalecer ainda mais essas mulheres, trazendo mais autonomia e empoderamento para elas, aumentando as chances de romper o ciclo de violências estruturais a que elas e seus filhos são submetidos. Queremos estruturar a Casa Mãe Mulher para potencializar a capacidade de apoio a essas mulheres e gerar dados que comprovem o efeito positivo desse trabalho na vida delas e na ressocialização dos adolescentes”, ressalta animada.

Quem cuida da Casa

A Casa Mãe Mulher foi fundada por Sandra Santos, nascida em Casimiro de Abreu, Rio de Janeiro. Aos cinco anos de idade foi separada dos pais e veio com uma tia para a capital. Aos 12 anos começou a trabalhar como doméstica em uma casa de família onde viveu 14 anos em condições análogas à escravidão. Não recebia salário e para ter o direito a estudar tinha que trabalhar até 14 horas por dia, e, ainda assim, conseguia ser uma das melhores alunas de sua classe.

Em 1994, passou em um concurso público para uma unidade socioeducativa, onde trabalhou como cozinheira. Quatro anos depois, foi transferida para outra unidade em Belford Roxo, o Degase. Com a terceirização das refeições na Unidade, Sandra foi encaminhada para trabalhar na revista dos visitantes, onde passou a ter mais contato com as mães dos internos. E foi assim que se deu conta da situação dessas mulheres: abandono, fragilidade, tristeza, culpa, falta de recursos e orientação acerca de seus direitos. Muitas chegam na unidade só com o dinheiro da passagem. Não recebiam orientação, algumas desmaiavam na fila, não tinham onde tomar um copo d’água nem acesso a um banheiro. Ela percebeu que aquelas mulheres precisavam de acolhimento. Diante daquela situação, resolveu alugar uma casa para dar algum apoio e orientação para essas mães, dando início à Casa Mãe Mulher.

A partir da repercussão positiva do trabalho desenvolvido pela Casa Mãe Mulher, algumas unidades implementaram ações de aproximação com a família. Na Unidade CRIAD de Caxias, por exemplo, as mães são convidadas a almoçar com os filhos uma vez por mês; o Degase da Ilha do Governador passou a destinar uma sala de espera para as famílias. Houve uma melhoria na escuta às famílias em todas as unidades do Estado, ou seja, mesmo que de forma tímida aconteceu um reconhecimento da importância de trazer a família para perto da instituição como parte do processo socioeducativo no período de internação.

Débora Rolando é jornalista

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