Como o Jornal Nacional ‘informa’ desinformando

"Que falta faz a democratização da mídia no Brasil!"

Ângela Carrato, jornalista e professora de Comunicação na UFMG

A cada dia, o Jornal Nacional aprimora as técnicas de informar desinformando, mas a edição de ontem (11) pode ser considerada paradigmática. Na escalada, a primeira reportagem anunciada foi sobre o aumento no preço dos combustíveis e as enormes filas geradas nos postos de gasolina e o impacto sobre os revendedores de gás em todo o país. A segunda chamada, numa espécie de continuação, abordava a Guerra na Ucrânia.

O resultado dessa técnica, sem que Bonner ou Renata precisassem dizer qualquer palavra, é que o telespectador, de forma automática, associa o aumento dos preços dos combustíveis no Brasil à Guerra na Ucrânia.

Já no primeiro bloco do telejornal, uma longa reportagem tratou do aumento no preço dos combustíveis, mas sem fazer qualquer referência sobre a total responsabilidade dos governos Temer e Bolsonaro. Depois de eximir as petroleiras internacionais de pagarem impostos na exploração do pré-sal feita por Temer, Bolsonaro vem fatiando e privatizando refinarias e demais setores da Petrobras, além de atrelar os preços internos dos combustíveis ao dólar, sem a menor necessidade, pois o Brasil é autossuficiente em petróleo.

Tamanha deferência para com Bolsonaro numa questão crucial deve ter lá seu preço, mas sinaliza igualmente que a família Marinho não está fechando as portas para um possível apoio a ele nas eleições de outubro.

Para confundir ainda mais o telespectador em relação à responsabilidade sobre o aumento nos preços dos combustíveis no Brasil, o JN apresentou uma longa reportagem sobre redução do ICMS, apontando a medida como uma solução possível, mesmo que não imediata. O que não passa de mais uma mentira deslavada.

É o vale tudo para esconder a realidade: o preço dos combustíveis está nas alturas e vai continuar subindo por causa da destruição da Petrobras, que tem dado lucro bilionário apenas para um grupo de acionistas nacionais e internacionais, verdadeiros oligarcas.

Quanto à cobertura sobre a Guerra na Ucrânia, a ladainha continuou a mesma: a culpa é da Rússia e do ‘sanguinário’ Putin. Todas as imagens e referências positivas ficaram por conta de Zelensky e de Biden. A denúncia da existência de armas químicas na Ucrânia feita por parte da Rússia foi minimizada e o JN continua mostrando as atrocidades da guerra apenas pelo ângulo do interesse ocidental.

No mais, a importante posse, hoje, do novo presidente do Chile, Gabriel Boric, mereceu do JN apenas um mero registro. Nem uma palavra sobre a reunião que ele teve com líderes da América Latina, onde defendeu a integração da região.

Nem uma referência ao fato de o representante brasileiro, o vice Hamilton Mourão, ter sido vaiado por populares e muito menos o carinho desses mesmos populares para com a ex-presidenta Dilma Rousseff, que foi à posse representando o PT.

Aliás, o JN se limitou a dizer que Boric herda uma carga pesada em termos de desafios políticos, econômicos, sociais e sanitários, sem qualquer menção à ditadura Pinochet e aos recentes governos neoliberais que destruíram a economia daquele país.

A expectativa é de que Boric consiga encerrar de vez essa triste página na história do Chile, mas Bonner e Renata não falaram nada sobre isso.

Haja manipulação, mentiras e desinformação. Tudo junto e misturado.

Que falta faz a democratização da mídia no Brasil!

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • Angela é das jornalistas mais lúcidas deste pais e realmente a Globo está se rebaixando à compreensão dos imbecis. Definitivamente não quer espectador pensante, priorizando o que sempre faz: moveno massa de manobra. Agora apoiar Bolsonaro é de uma imbecilidade sem tamanho.

  • Na verdade o que estamos vivendo e vendo aqui no Brasil é a continuidade do sistema de coronelismo, que imperou por muitos séculos na nossa sociedade. Trazido da Europa essa forma de centralização administrativa e de comando da sociedade está um pouco fora de moda atualmente, mas muito longe de estar extinta. As organizações Globo, família Saad e outros grupos na mesma linha dsses que existem no país hoje buscam manter essa forma rudimentar de administração como algo ainda muito ativo no meio da nossa sociedade até os dias de hoje. O coronelismo nunca foi modernidade desde sempre foi uma maneira brutal de se exercer o patriarcado. Com um entendimento complemente distorcido daquilo que as Sagradas escrituras nos ensina a respeito da ação, e das funções do patriarca. Os coronéis e barões não praticam e nem exercem a justiça de forma justa e correta. Mas apenas perpétuam uma maneira injusta e completamente desigual de comandar e controlar a sociedade como um todo. Lutar contra o coronelismo é uma obrigação de toda a sociedade que busca ser mais justa e igualitária com as pessoas que vivenciam essa sociedade como um todo !!!

  • Sim a Globo está cada vez mais sofisticada. Crueldades da desinformação com requintes diabólicos.

  • Fundamental esse esclarecimento quanto ao poder da mídia, alinhada a interesses políticos hegemônicos, liberais, em mal informar a sociedade e promover ‘valores’ equivocados e consequente escolhas eleitorais pautadas em informações distorcidas e enganosas.

  • Foi ontem, acho, a Globo News fez um matéria bem honesta sobre a posse do Boric.

  • Esse “grupo de acionistas nacionais” são 800 mil brasileiros. Não é um grupinho.
    E quem disse que somos autosuficientes em petróleo? Todos os jornais divulgam que não. Isso não é exclusividade da Globo.

    • Ainda que sejam 800 mil, muitos são pessoas jurídicas (especialmente bancos) e nenhum desses está entre os 20 milhões que passam fome, nem entre os mais de 100 milhões em situação de insegurança alimentar, não estão entre os 14 milhões de desempregados, nem entre os 20 milhões de desalentados. Aliás, sequer estão entre os 200 milhões com rende mensal inferior a R$ 10.000,00. Então, segura sua ondinha de privilegiado e entenda que os preços dos combustíveis tem um impacto ENORME em quase todos os brasileiros.

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