COMO IR A UMA MANIFESTAÇÃO EM 2021

Decálogo lítero-musical sobre boas maneiras sanitárias e políticas para ocupar as ruas na pandemia sem fim, enfrentar os fascistas no armário, não cair em armadilhas tolas e, por fim, sambar um pouquinho de alegria
Fotos do ato #3JforaBolsonaro Por Ina Henrique Dias

Por Bia Abramo*

  1. Este texto começou a ser escrito precisamente às 18h55 do dia 05 de julho. A pandemia não acabou (o Google registra 524 mil mortos; daqui a uma hora o boletim do consórcio da grande imprensa deve atualizar esse número para cima) e os números de vacinação ainda são pífios. Portanto, além dos cuidados básicos (máscara + alquingel + fazer o possível para não aglomerar, tocar e manter a distância), tente ser generoso, se o orçamento estiver permitindo. Leva mais máscara, mais álcool, mais água.

2. Cuidar da sua segurança pessoal sanitária é essencial, solidário, claro. Inclusive, é justo por isso que estamos indo para a rua: para denunciar o que o governo de Jair Bolsonaro (não) está fazendo para conter a disseminação do coronavírus, carimbar em sua testa as palavras genocida, corrupto, prevaricador, assassino, fascista (e o que mais der vontade lá na hora) e pressionar para que ele seja responsabilizado por sua omissão e/ou ação direta nas mortes que já foram e ainda virão. Não é excessivo cuidar de você e de quem está perto. No #3J, foram muitos os gestos de solidariedade que testemunhei e recebi. Na banquinha da UNE, um garoto que sorria com os olhos borrifou álcool em minhas mãos assim que me aproximei para pegar os panfletos.

3. Se você toma, por fim, a decisão de enfrentar o frio (aqui em São Paulo, tem estado um gelo), o vírus e a sua imunização ainda parcial, lembre-se que a repressão é sempre uma possibilidade. Entre as manifestações do #29J e do #3J, percebia-se na rua um policiamento mais ostensivo e nervoso. Quem é decano de manifestação, não importa em que década começou a frequentá-las, sabe muito bem que, além dos policiais fardados, provocadores, infiltrados, bolsonaristas convictos (e mesmo aqueles em várias proporções de arrependimento) vão às manifestações para tumultuar. Não à toa, o noticiário de domingo recomeçou com a ladainha: a manifestação foi pacífica até que _______________________.

4. Aí você decidiu, finalmente, ir. Não complica as coisas. Organize-se em grupos mínimos, leva o essencial de objetos pessoais MESMO (e aí cada um sabe de si, se vai com cartão ou dinheiro vivo, se vai com celular ou sem, se combina ponto de chegada ou de saída), mas, sobretudo, vai com alegria e convicção. A convicção nem precisa explicar, acho, mas sobre a alegria talvez valha a pena se deter. Estar na rua nessa pandemia que não arrefece, ainda por cima enfrentando um governo miliciano, fascista, belicoso, debochado exige que gente potencialize as alegrias, por breves e fugazes que sejam nesse luto cumulativo e absurdo desde 11 de março de 2020. O mote “a alegria é a prova dos nove” do “Manifesto Antropofágico”, publicado em 1928 na Revista de Antropofagia por Oswald de Andrade, nunca fez tanto sentido. Os mexicanos celebram o dia dos Mortos (Finados aqui) fazendo caveiras de açúcar e de chocolate, como uma forma de homenagear os que se foram e trazê-los de volta para os vivos. Na rua, a luta deve ser firme, mas também pode ser colorida, diversa, com música, com encontros cheios do afeto reprimido depois desses 17 meses das quarentenas malfeitas e os lockdowns de mentirinha.


5. Não se reprime não. Pode passar vergonha, pagar mico, chorar largado, cumprimentar quem você não conhece, não reconhecer quem você conhece, ficar parado só olhando ou andar de um lado para o outro só para tentar ver tudo. O Brasil é esse país meio desgraçado de dor (“desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento/tem sangue retinto pisado/ atrás do herói emoldurado”, trecho do samba-enredo da Mangueira em 2019, “Histórias Para Ninar Gente Grande”, composto por Danilo Firmino, Deivid Domênico, Mamá , Márcio Bola, Ronie Oliveira eTomaz Miranda.), mas com uma inventividade ímpar para criar modos coletivos de juntar emoção, luta, tristeza e beleza tudo junto ao mesmo tempo.

6. Aí chegamos num ponto sério. Claro que estamos falando de política e política se faz no debate de ideias, na disputa de posições, nas conquistas dura e laboriosamente negociadas, na pressão e no conflito. Portanto, é preciso organizar essa onda de desejos de diversas origens e motivações para que as manifestações sejam potentes, massivas e, ai, não sejam fagocitadas pelos adversários. (É até um problema menor, por enquanto, como serão interpretadas por intérpretes mais ou menos apressados). A gente começa a perder a disputa política quando tenta açodadamente transformá-la em narrativa (e quem disputa narrativa é, sei lá, roteirista de desenho animado). Minha impressão é que o mais importante, agora, é agir de forma que a ocupação das ruas tenha uma pauta comum acordada, esteja aberta para pautas advindas das diversidades e especificidades de cada grupo que compõe as frentes de luta e que a gente não deixe a direita se apropriar de NADA. E mantenha a extrema-direita exibindo cloroquina para ema.

7. Se eu sei como fazer isso? Sozinha, não. Mas penso que devemos olhar e, bastante, para outras formas de organização não necessariamente políticas, mas que tomaram dimensões políticas ou se politizaram no processo. Aqui em São Paulo, por exemplo, entender como o Carnaval de rua chegou ao tamanho e a importância nos anos da gestão de Fernando Haddad (2013-2016) pode fornecer pistas para pensar em novas maneiras de garantir segurança, pontos de concentração e de dispersão etc.

8. Conflito é do jogo, mas confronto é burrice.

9. Viva a polarização. Não se combate fascismo com meias palavras, não se combate mentira com eufemismo e o contraponto às fake news são os fatos. E, ah, o processo eleitoral deriva do processo político e não o contrário.

10. Em 1964, Gilberto Gil falou: “Existem muitas maneiras de fazer música. Eu prefiro todas.” A Daniela Mercury glosou o Gil agorinha em 24 de junho de 2021: “Há muitas maneiras de lutar. Eu prefiro todas”.  Acho que estou com eles e em boa companhia. 


 *Bia Abramo é jornalista. Escreve no blog Alarido (https://revistaforum.com.br/blogs/alarido/) na Revista Fórum 

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