Como as crianças indígenas Tupi-Guarani entendem a pandemia e o coronavírus?

Livro “Coronavírus é um bichinho que deixa doente”, lançado pela Comissão Pró-Índio de São Paulo, está disponível on-line

“Coronavírus é um bichinho que deixa doente”, a definição que dá nome ao livro foi dita por Apoi, de 5 anos. Quando questionada sobre o que era o vírus, a criança mostrou estar consciente sobre os perigos da pandemia. Já Awa Tharuan, de 6 anos, lembrou da importância do uso da máscara. “Coronavírus é pra usar máscara para doenças não ficar matando os outros”, disse. 

Apoi e Awa fazem participaram da construção do livro elaborado pela Comissão Pró-índio de São Paulo junto com professores e lideranças indígenas. O projeto procurou ouvir as crianças Tupi-Guarani da Terra Indígena Piaçaguera sobre o momento que vivemos, um desafio para pessoas de todas as idades.

O livro, que está disponível on-line (clique aqui), reúne depoimentos de 38 crianças e adolescentes com idades entre 4 e 15 anos, da TI Piaçaguera, localizada no município de Peruíbe, litoral sul do Estado de São Paulo. 

A área preservada de Mata Atlântica junto ao litoral sul de São Paulo, vem sendo cada vez mais pressionada pelo avanço da urbanização e dos empreendimentos de turismo. O território é demarcado e homologado com 2.773,7978 hectares, onde vivem, hoje, 358 pessoas distribuídas em 11 comunidades.

Capa do Livro

Por conta do isolamento social, como medida de prevenção ao contágio pelo novo coronavírus, os depoimentos das crianças foram todos coletados virtualmente (via áudio de celular e em conversas por vídeo chamada), com a colaboração de professoras(es) e lideranças, ao longo de dois meses.

“Nós professores, que ficamos com eles uma boa parte do tempo, que conhecemos cada um deles, até a gente ficou surpreso com as respostas. Foi muito gratificante esse trabalho”, revela Lilian Gomes, da Aldeia Piaçaguera, uma das colaboradoras do livro.

Em breves relatos, as crianças compartilham suas percepções, seus temores e seus desejos para quando a pandemia acabar. Contam o que aprenderam que é uma doença “que se espalha pelo mundo inteiro, fazendo as pessoas ficar doentes”. Relatam também como estão se prevenindo. 

Às vezes a resposta está na ponta da língua: “A gente se cuida, usa o álcool em gel. Quando chega, a gente tem que tomar banho, não pode sair sem máscara e também evita aglomerações”. Em outras situações, a resposta sai, por assim dizer, meio “atrapalhada”: “Como você está se prevenindo, David? ‘Lavando o pé… Não, a mão. Lavando a mão’”.

O livro informa que logo que a pandemia foi decretada no mundo, os povos indígenas em todo o Brasil adotaram uma série de medidas para tentar frear o avanço do novo coronavírus, já que se viram abandonados pelo poder público.

Na Terra Indígena Piaçaguera, em São Paulo, os indígenas restringiram o acesso de pessoas de fora e, até mesmo, a circulação entre as comunidades. As reuniões, festas e atividades coletivas foram suspensas.

As lideranças orientaram para que as saídas da Terra Indígena fossem feitas apenas em casos emergenciais, como a compra de remédios e alimentos, já que a grande proximidade da TI Piaçaguera com os centros urbanos aumentava a preocupação com o contágio. 

A Comissão Pró-Índio de São Paulo, que atua junto aos Tupi-Guarani da TI Piaçaguera desde 2014, somou-se aos esforços dos povos originários para proteger as comunidades, e contribuiu fornecendo kits de higiene e limpeza, máscaras de pano e material informativo sobre as medidas de prevenção.

Preocupação e saudade

Trecho do livro

“Eu tenho medo, eu fico preocupada. O meu pai trabalha todas as noites, por isso ele tem que usar máscara, por isso que ele tem que lavar todas as coisas, porque ele foi lá trabalhar”, revelou Maná’i, de 5 anos. 

O medo de perder parentes, amigos e professores atinge todas as crianças e adolescentes ouvidos. Eitsy, de 9 anos, resumiu bem o sentimento sentido quando os adultos precisam deixar a comunidade. “Minha mãe sai, meus tios, meus amigos saem para fazer compras assim, aí eu tenho medo, fico bem preocupada”. 

Questionados sobre o que sentem falta durante a pandemia, a resposta foi unânime: dos parentes, dos amigos e da escola. 

Nas comunidades, as crianças e adolescentes circulam livremente, mas com cautela. Gleicielle, de 13 anos, conta que tem passado este periodo nadando na lagoa e subindo em árvores.

O maior desejo dos pequenos é que a pandemia termine logo para que possam visitar seus parentes que vivem fora da comunidade, amigos e professores. “Eu ia lá para a tia Angu e eu ia ficar em casa lá quietinha. Para eu tentar esquecer esse vírus, esse corona. Para tentar esquecer”, pontuou Izabela, de 9 anos. 

Werton José Oliveira de Carvalho, de 10 anos, disse que tem vontade de ir à praia. E Kamille da Silva Gonçalves, de12 anos, quer voltar a jogar bola. 

Mais de mil mortes indígenas e 163 povos atingidos pelo coronavírus 

O Brasil registrou até agora 1.181 indígenas mortos em decorrência da covid-19. O dado é do Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena, criado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

Sem políticas públicas de enfrentamento ao coronavírus pensadas especialmente para a população indígena, o país registra 58.322 casos de contaminação confirmados e 163 povos atingidos.

O primeiro caso confirmado de contaminação por covid-19 entre indígenas brasileiros foi de uma jovem de 20 anos do povo Kokama, no dia 25 de março de 2020, no município amazonense Santo Antônio do Içá. 

O contágio foi feito por um médico vindo de São Paulo a serviço da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), que estava infectado com o vírus.

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