Colégio de Cuiabá cria evento de fachada para retomar o ensino presencial

Aulas presenciais estão suspensas sem previsão de volta, mas eventos para até 300 pessoas estão liberados. Com isso, Escola particular de Mato Grosso resolve fazer "eventos" para os alunos todos os dias, no horário das aulas.
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Por: Eloá Motta, especial para os Jornalistas de Cuiabá, MT

Em 6 de novembro, os responsáveis pelos alunos que estudam no Colégio Ibero Americano, escola da rede particular de Cuiabá (MT), receberam um convite para a participação dos filhos no evento “Convenção do Conhecimento”, que iria do dia 9 de novembro até o fim do ano letivo, dia 11 de dezembro. O evento, realizado para estudantes do primeiro ano do Ensino Fundamental I ao Ensino Médio, propunha ensinar, segundo o comunicado divulgado, “sobre as diversas áreas do conhecimento divididas nas disciplinas habituais, acompanhados por seus respectivos professores, de segunda a sexta feira” e que não se tratavam de conteúdo obrigatório. Também foi garantido a permanência da aula remota para alunos cujos pais não se sentissem à vontade com o ensino presencial e o respeito às normas de biossegurança. No entanto, o que parecia um mero evento para promover a interação entre alunos, acabou se revelando na verdade uma desculpa para realizar aulas presenciais.

Para que pudessem participar do evento, os responsáveis pelos alunos precisavam preencher uma autorização na qual, entre outras coisas, consta que a escola não se responsabiliza caso algum aluno seja contaminado pelo novo coronavírus.

Para os estudantes do Ensino Fundamental II e Médio, o “evento” vai das 8:00 as 15:00, com direito a almoço servido no refeitório do colégio para quem não pudesse almoçar em casa. Já os alunos do Ensino Fundamental I ficam das 13:00 as 17:00. Todos os horários estabelecidos estão de acordo com o decreto da prefeitura voltado para eventos a serem realizados.

Marcela, nome fictício usado para preservar a identidade, afirma que ficou desconfiada ao perceber que os horários das aulas de seu filho não mudariam em função do evento, sendo que o conteúdo apresentado não era o previsto na grade curricular.

“Como eles dariam conteúdo do conhecimento, do nosso cotidiano, sem que fizesse parte do conteúdo programático? […]Eu pensei, ‘bom, vai ter uma palestra, debate, sei lá’, ou que fossem fazer oficinas, alguma coisa assim, mas não. A professora sentou, mandou abrir a apostila, seguiu com a aula normalmente, só que com uma parte em casa e outra na escola. Não tem nada, absolutamente nada de diferente do que estava acontecendo nas aulas online. A única coisa que mudou é que, no caso da sala do meu filho, 15 alunos, se eu não me engano, estão tendo aula dentro da escola e cinco alunos online”.

Ela também comenta que a câmera da professora estava apontada apenas para si no início da aula e, após seu filho pedir para ver os colegas, ficou claro que os alunos, uniformizados e de máscara como um dia de aula normal, não estavam sequer posicionados em distanciamento adequado.

A mãe reclama, ainda, que os professores dão mais atenção aos alunos que estão presencialmente do que os que estão no ensino remoto e a internet da escola não suporta tantas pessoas usando ao mesmo tempo. Paula, nome também fictício para preservar a verdadeira identidade da denunciante, reclamou que as aulas estão começando atrasadas, as imagens estão travando e não há praticamente nenhum aproveitamento do conteúdo para os alunos de ensino remoto. Segundo ela, cada dia mais professores dispensam os alunos porque não conseguem ensinar todos de maneira adequada.

Vale destacar que o colégio realiza atividades esportivas presenciais desde o mês de agosto.

Denúncias e família bolsonarista

 Na última quarta feira (11), houve uma visita da fiscalização. A escola foi denunciada em diversos órgãos, entre eles a Secretaria de Saúde, o Sintrae e o Ministério Público, mas ainda não há respostas do poder público sobre os fatos.

“A diretoria alega que eles possuem autorização para realizar um evento com até 300 pessoas. Porém, para quem está lá dentro, fica claro que não se trata de um evento e sim de aulas normais. Além disso, nem todos os alunos estão fazendo o uso da máscara”, conta um colaborador da escola pedindo para não ter o nome divulgado com receio de represálias.

 Apesar de todas as evidências, a coordenação da escola afirma que não é bem isso. Em matéria feita para o site “Play Agora”, como resposta a uma reportagem de denúncia publicada em outro veículo, a diretora, Lenize Moura, afirma que, por conta das palestras e oficinas, o evento poderia ser facilmente confundido com aula normal, mas que não se tratava disso por ser “um evento que não é obrigatório, que tem ficha de inscrição, que tem contrato de normas e que é completamente opcional”.

O colégio é coordenado pela família Moura, à qual inclusive pertence o judoca mato-grossense Davi Moura, e alguns amigos próximos. Todos possuem um forte posicionamento a favor do presidente Jair Bolsonaro e, assim como ele, um repúdio ao uso de máscaras, ao isolamento social e a constante defesa do uso de hidroxicloroquina e azitromicina como tratamento para a Covid-19, apesar de já ter sido dito diversas vezes que não há eficácia comprovada. Em suas redes sociais, tanto a diretora, Lenize Moura, quanto a coordenadora do ensino infantil, Patrícia Sampaio, compartilham posts defendendo esses ideais.

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