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Ciclo de diálogos na PUC-SP procura encontrar o lugar do Povo Soberano no Brasil de 2017

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O primeiro encontro do Ciclo de Diálogos: O Lugar do Povo Soberano, realizado na última segunda (09) no TUCA, reuniu Fábio Konder Comparato, Daniel Munduruku e Crislei Custódio para falar de Ética. 

Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. (Art. 1º, parágrafo único, Constituição Federal de 1988).

O Povo Soberano é, ou deveria ser, a principal instância de Poder de um Estado-Nação. Será que hoje, no Brasil de 2017, esse poder está sendo exercido? E de que maneira? Mais: será que algum dia, desde 22 de abril de 1500, quando os povos originários desta porção da América do Sul encontraram pela primeira vez os colonizadores portugueses, o Povo Soberano do Brasil conseguiu exercer seu poder natural?

Essas perguntas são algumas das premissas do Ciclo de Diálogos: O Lugar do Povo Soberano https://www.facebook.com/events/352896398488991/, evento realizado pela Escola de Governo de São Paulo, entidade da sociedade civil criada em 1991 por Fábio Konder Comparato e outros juristas, intelectuais e gestores públicos com o objetivo de formar os cidadãos brasileiros para exercerem seu poder e sua participação na democracia. Serão cinco encontros, realizados na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que co-organiza o Ciclo, patrocinado pelo IREE (Instituto para Reforma da Relação entre Estado e Empresa).

O primeiro encontro aconteceu na noite desta segunda-feira, 09 de outubro, no TUCA – Teatro da PUC-SP, no bairro paulistano de Perdizes. Os debatedores, ou “dialogadores”, convidados para falar sobre a Ética — um dos pilares da Escola de Governo, junto a República, Direitos Humanos, Democracia e Desenvolvimento, outros temas do Ciclo de Debates — foram o fundador da Escola de Governo, Fábio Konder Comparato, referência da luta pelos Direitos Humanos no Brasil e professor emérito da Faculdade de Direito da USP; o antropólogo, educador e escritor Daniel Munduruku, um dos mais destacados intelectuais indígenas do Brasil, e a educadora e professora da Faculdade de Educação da USP Crislei de Oliveira Custódio, especialista na obra da filósofa alemã Hannah Arendt. A mediação ficou a cargo do desembargador do TJ-SP e pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias da PUC-SP Antônio Carlos Malheiros.

Ética: Substantivo Feminino

Uma boa novidade que o Ciclo de Diálogos trouxe para o às vezes enfadonho modelo de mesa de debates para discutir os “problemas do Brasil” é a figura dos provocadores, que introduzem a discussão trazendo elementos de sua realidade e a linguagem artística sobre o tema da noite. Para falar de ética, as atrizes do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos Luaa Gabanini e Nilcéia Vicente fizeram um interessante jogo de palavras lembrando que ética é substantivo feminino e tem relação estreita com sua “prima”, a estética.

Antes, os diretores da Escola de Governo, Maurício Piragino, o Xixo, e Pedro Aguerre, deram as boas-vindas aos presentes e coube a reitora da PUC-SP, Maria Amália Andery, abrir o evento. A reitora destacou que o Ciclo de Diálogos era uma “Oportunidade única de trazer pra dentro da universidade uma discussão que é vital: o que é o povo brasileiro?” Maria Amália finalizou dizendo esperar que aquele fosse o primeiro de muitos frutos de uma parceria efetiva da PUC-SP com a Escola de Governo.

O mediador Antônio Carlos Malheiros, pró-reitor da PUC, outra figura importante nessa aproximação entre a universidade e uma entidade da sociedade civil como a Escola de Governo, chamou então ao palco as provocadoras Luaa Gabanini e Nilcéia Vicente. Ambas fazem parte do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que há 16 anos centra todo seu trabalho na formulação “teatro hip-hop”, nome dado à linguagem por desenvolvida e pesquisada por eles desde o ano 2000, com ponto de partida no diálogo entre o teatro épico – mais precisamente o difundido pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht – e a cultura hip-hop. Vale a pena ver a intervenção das duas no vídeo que traz a íntegra do evento, ao final do texto.

Comparato: “Ética é a procura da felicidade”

Um dia após completar 81 anos, o professor Fábio Konder Comparato exibiu um corpo um pouco mais frágil, mas muita vitalidade nas ideia e disposição para lutar por um Brasil mais justo para seus habitantes. O jurista começou lembrando algumas noções de antigos filósofos sobre a Ética, descrevendo-a como “a procura da felicidade”, mas não só a felicidade individual, e sim a coletiva, compartilhada por todos os seres humanos.

“Todos os seres humanos nascem iguais em direitos, e eu acrescento, deveres. O ilustre Presidente da República é igual em dignidade e direitos a um meliante qualquer. Não que ele seja um meliante, é claro”, brincou, arrancando risos da plateia. Em sua exposição, Comparato reafirmou que o Brasil foi fundado em preceitos desprovidos de ética, como a escravidão. “”Nós fomos o último país a abolir a escravidão legal. Ela continua, ilegal, para os trabalhadores do sertão. Isso é a negação da ética”, afirmou.

Ele explicou que há um ordenamento jurídico “oficial” perfeitamente adequado aos princípios éticos de um Estado Democrático de Direito no Brasil, mas há outro, “ditado pela oligarquia, que não é o oficial, mas é o que vale”.

Daniel Munduruku: “Não existe cultura parada no tempo”

Em seguida, Daniel Munduruku trouxe a perspectiva ameríndia, em especial de seu povo, os mundurucu do sudoeste do Pará, sobre a ética. Ele afirmou que, em sua visão, a identidade brasileira ainda está se construindo. “O brasileiro é um adolescente que está em crise de identidade, ainda não sabe o que é”.

Daniel afirmou que deve-se entender a identidade indígena hoje como algo em constante fluxo, afinal identidades cristalizadas só são encontradas em museus, mostrando culturas mortas. “Não existe cultura parada no tempo, isso é coisa de museu. A cultura precisa ser dinâmica para que sobreviva. Meu povo teve que adaptar muito da sua própria cultura para poder sobreviver num estado que queria os destruir. Na nossa visão estereotipada queremos crer que o índio de verdade é o índio puro, que tá lá na floresta”, lembrou.

O escritor e educador falou um pouco de sua experiência de divulgação da cultura mundurucu e enumerou os diversos ataques que os povos indígenas tem sofrido com o avanço das pautas da bancada ruralista no governo Temer. “Esse golpe que aconteceu vai minar todas as conquistas que as populações indígenas tiveram após a Constituição de 1988”, afirmou, concluindo que se queremos construir um Brasil ético, só será possível levando em conta a “diversidade de humanidade” representada por mais de 300 povos indígenas reconhecidos.

Crislei Custódio: “A crise é a perda de um sentido comum”

Crislei Custódio, educadora da Faculdade de Educação da USP, ativista pelos direitos da população negra e especialista na obra da filósofa Hannah Arendt, grande pensadora das causas do totalitarismo no século 20 e ainda tremendamente atual, começou lembrando que aquele espaço não era o da Verdade absoluta, mas da opinião, e expôs suas opiniões sobre os escritos de Arendt que tratam da ética.

“A crise em Arendt nada mais é que a perda de um sentido comum, como um conjunto de sentidos compartilhados”, começou. Ela explicou como a filósofa alemã via a ascensão dos regimes totalitários como um “duplo desmoronamento dos sentidos éticos”.

Crislei lembrou ainda que, pensando em educação, “todos nós somos seres singulares e o lugar que cada um ocupa no mundo também”, e que embora seja impossível ver o mundo no lugar do outro, “A educação pode ser um lugar de suspensão da lógica produtiva para a escuta de outras vozes, dos vivos e dos mortos”. Em sua fala foi impossível ela não lembrar os ataques sofridos pela educação nestes tempos de avanço conservador, como o projeto Escola sem Partido. “Num mundo em que nos faltam sentidos compartilhados, a relação entre ética e educação não pode se limitar ao fomento de determinadas condutas”, concluiu.

Outros aspectos da atual crise de ética que proporciona o crescimento das posições mais reacionárias foram lembrados na abertura para as perguntas do público, tanto presente no TUCA quanto quem assistia pela internet. Ao responder uma pergunta dirigida a ele sobre o papel do Poder Judiciário na atual crise, o desembargador Antônio Carlos Malheiros respondeu. “Temos um Poder Judiciário conservador, pra não dizer reacionário, e assustado constato que o mundo está caminhando pra direita”.

Já ao falar sobre a recente polêmica criada pela performance com um artista nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Malheiros afirmou que absolutamente não haveria incentivo à pedofilia ou nenhuma conotação sexual na performance duramente atacada por movimentos de direita, mas que, em sua opinião, talvez a mostra não fosse adequada para crianças, no que afirmou que colegas juristas discordam deste ponto. Mais uma mostra de que, embora haja uma ética particular de cada pessoa, com sua bagagem de mundo, é importante a sociedade dialogar e conversar para chegar num consenso mínimo de ética pública, e infelizmente este diálogo está muito difícil atualmente.

Algo que o Ciclo de Diálogos: o lugar do povo soberano pretende ajudar a mudar neste e em mais quatro encontros, sempre às segundas feiras, nos dias 16/10, 23/10, 30/10 e 06/11, na PUC-SP. Confira quem estará presente em cada encontro.

República
Dia: 16/10/2017
Local: Auditório 239 PUC-SP
Mediador: Luís Nassif
Provocador: Sônia Barbosa (Guarani)
Debatedores: Cláudia Costin, Aldo Fornazieri e Pedro Serrano

Direitos Humanos
Dia: 23/10/2017
Local: Auditório 239 PUC-SP
Mediador: Walfrido Jorge Warde
Provocador: Luiza Coppieters
Debatedores: Luciana Zafallon, Cristiano Maronna e Edna Rolland

Democracia
Dia: 30/10/2017
Local: TUCA
Provocador: Douglas Belchior
Debatedores: Esther Solano e Silvio de Almeida

Desenvolvimento

Dia: 6/11/2017
Local: Auditório 333 PUC-SP
Mediador: Ladislau Dowbor
Debatedores: Ermínia Maricato, João Pedro Stédile e Antonio Corrêa de Lacerda

 

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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