Celso Amorim: “governo Bolsonaro é um desastre natural e humano”

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 Por Bruno Falci e Luiza Abi Saab para o Jornalistas Livres

Nas últimas semanas têm sido crescentes as transgressões políticas e diplomáticas do governo Bolsonaro, com graves violações da Constituição Brasileira. Em meio a um cenário terrivelmente perturbador da epidemia da coronavírus, que é uma grande crise sanitária internacional, o Brasil já vivia uma crise econômica que veio se agravando com mais uma crise política e social. Acrescenta-se a isso a crise econômica já vivia. Sobre essas dificuldades do país, a nível sanitário, econômico, político e diplomático, conversamos com o embaixador Celso Amorim, que foi ministro das relações exteriores do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da defesa do governo Dilma Rousseff.

Em dezembro de 2019, Celso Amorim afirmou que as políticas neoliberais estavam chegando ao limite em diversos países, principalmente na América Latina e que este momento chegaria no Brasil também. O ex-ministro comenta que a possibilidade de convulsão social ainda é grande, principalmente com a crise econômica que acompanha a pandemia COVID-19. Ele ressalta que é uma ilusão dos governos neoliberais tentar minimizar a pandemia, sacrificando vidas a fim de salvar a economia, afinal, a flexibilização perante a pandemia não traz apenas complicações sanitárias, mas também econômicas. Portanto, os riscos de convulsões sociais devido à s políticas neoliberais, que já existiam, estão potencializadas diante do atual cenário, embora possam sofrer dificuldades organizacionais no primeiro momento.

Comentando a pandemia, Celso Amorim afirma esta situação pegou a todos de surpresa:

“Eu participei há uns cinco anos atrás de uma comissão da ONU sobre epidemia do ebola. Eu estava relendo o relatório o sumário executivo do relatório desta comissão e sua  introdução apresentava uma profecia impressionante. Parece que o mundo vai estar sujeito a epidemias. Se nós não pararmos com a destruição ambiental,o fenômeno vai ser devastador. Ninguém se preparou suficientemente para uma situação como essa. “O Brasil poderia ter se preparado melhor, já que a epidemia chegou um mês depois do surto na Europa. Nós poderíamos ter nos preparado melhor se tivéssemos seguido as orientações da OMS e observado a experiência efetiva de outros países. No Brasil tivemos em cima de um desastre natural, um desastre humano, que foi a condução política desastrosa de Bolsonaro”

veja entrevista abaixo:

Amorim comenta também o papel que o Brasil teve nas relações internacionais, mencionando a sua experiência como ministro das relações exteriores do governo Lula, longe da política desestabilizadora de Bolsonaro:

“A política externa brasileira depois de 1988 se baseava nos princípios; não intervenção, autodeterminação dos povos, solução dos conflitos por via do diálogo por vias pacíficas, cooperação internacional, integração latino-americana e caribenha. Uma das razões sociológicas que elevaram a nossa maior autoestima foi uma leitura do panorama internacional e sua própria evolução. Isso nos permitiu ver que a melhor maneira de defender o interesse brasileiro era só ser firme em nossas questões. Foi o caso da Alca”.

Amorim observa que, naquela ocasião, o mundo se desenhava mais como multipolar.

“Eu como embaixador na ONU e em Genebra, tinha visto aquele mundo unipolar após a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, já não era tão forte a hegemonia americana, que começava a ser contestada. O mundo se organizava de uma maneira mais plural. França e Alemanha foram contra a guerra no Iraque. Sempre buscamos alianças com os países em desenvolvimento, Índia, China, África do Sul e Argentina. Nós percebemos que nosso interesse era buscar mais solidariedade entre os países em desenvolvimento, para reforçar nosso poder de barganha”.

Sobre as dificuldades a nível econômico, político e diplomático que o Brasil irá enfrentar no cenário internacional diante do fracasso na contenção da pandemia, Amorim conta que toda a imprensa mundial – não só a mídia de esquerda – já reconhece o vexame do governo Bolsonaro neste contexto. Ele menciona que o Brasil, durante os governos FHC e Lula, era uma liderança em negociações internacionais, principalmente na inovação do sistema de saúde pública, sendo que no governo Lula houve mais determinação em concretizar e implantar tais políticas. Em suas palavras, o Brasil possuía uma imagem diplomática muito importante e forte internacionalmente, percebido como um país construtor de diálogo e pontes, sem abdicar dos seus interesses e atualmente o que se acontece é uma destruição dessa imagem diplomática positiva brasileira.
Amorim também diz que Bolsonaro insiste em impor sua opinião pessoal em seu cargo de presidente, por interesses políticos, deixando de seguir parâmetros da ciência mundial.

Para esta situação catastrófica politicamente, Amorim sugere a criação de duas frentes: uma frente (muito) ampla pela democracia, que possa unir as mais diversas alas, mesmo que isso incomode alguns grupos; e uma segunda frente, esta progressista pelas nossas ideias e de reforma social e soberania, que coloque o Brasil acima de qualquer outra dificuldade e preconceito, defendendo os direitos dos trabalhadores, aumentar o papel do estado de uma maneira definitiva na economia, preservar a soberania nacional, defender as nossas riquezas, criar políticas climáticas de acordo com nossos interesses e normas internacionais, proteger os nossos indígenas, criar medidas eficazes em relação as questões de raça e gênero, etc. O ministro reforça que a ênfase da esquerda deve ser em criar novas políticas e se planejar com o futuro para resolver os problemas estruturais do Brasil, e não apenas se focar em derrubar Bolsonaro e objetivos imediatos.

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