Candidatos negros unem-se em quilombo, para dar fim ao cativeiro

Quilombo nos Parlamentos quer ocupar o Congresso Nacional e legislativos nos estados para representar a população negra nos espaços de poder
Arte da paulista Rosana Paulino. Compõe Atlântico Vermelho, exposição de obras que suturam corpos nus, ossos, órgãos vitais e pele negra para denunciar a violência da exploração humana
Arte da paulista Rosana Paulino. Compõe Atlântico Vermelho, exposição de obras que suturam corpos nus, ossos, órgãos vitais e pele negra para denunciar a violência da exploração humana

Só agora leio “Perder a Mãe – uma jornada pela rota atlântica da escravidão” lançado no Brasil no ano passado pela Bazar do Tempo. Poderia dizer que é um rasgo fundo que Saidiya Hartman abre no próprio peito para escrever sobre sua ida à África Ocidental.

Nascida nos Estados Unidos, professora da Universidade de Columbia, ela tenta entender, sangrando, os séculos de tráfico de escravos, gênese do que ainda hoje põe em perigo os negros do seu país e das Américas. Em 1997, Saidiya foi viver em Gana não para ver uma vila ancestral mas buscar um entreposto de escravos. Queria investigar o “ranking de vida e valor” estabelecido pela escravidão e que segue subjugando gente desvalorizada pela “aritmética política” – segundo a qual nada ou quase nada sobra de direitos. Lembra o livro que, com baixo aceso à saúde e educação, restam a pretos e pardos a vida incerta, a possibilidade de prisão, morrer cedo ou acabar assassinado. O povo negro do Brasil se reconhece nesta foto ocupando no ranking lugar mais miserável que o dos patrícios de Saidiya.

Até chegar à universidade, a autora se chamava Valerie, nome de elite, escolhido pela mãe para romper a vergonha de ter sido uma preta impedida, pelas leis de segregação racial, de ir às escolas e sorveterias de crianças brancas. Na troca de nome, Saidiya afirmou a herança africana distanciou-se das expectativas familiares, anulou as evidências de “negra respeitável” para, então, irmanar-se com meninas pretas e pobres chamadas Tamika ou Roquesha.

Como a maioria, ela não sabia de que nação seus antepassados saíram feito bicho. Escolheu morar em Gana porque havia sido cortada por nove rotas de escravos. Escreveu: “Ao seguir o rastro dos cativos, do interior para a costa atlântica, eu desejava retraçar o processo pelo qual vidas eram destruídas e escravos nasciam”. Saidiya estava falando de 700 mil pessoas transformadas em mercadorias, mantidas em armazéns e transportadas em navios negreiros.

Há cerca de 15 dias, o símbolo dessa embarcação negra voltou a navegar entre brasileiros que a compararam ao camburão da Polícia Rodoviária Federal, na qual agentes mataram por sufocamento o sergipano Genivaldo de Jesus. “Do tumbeiro à câmara de gás da PRF”, lembraram muitos. É a mesma PRF que em maio, na carioca Vila Cruzeiro, apoiando a Polícia Militar, atualizou o massacre ocorrido um ano antes em Jacarezinho. Nas duas operações milimetricamente calculadas, 51 pessoas foram abatidas para ninguém esquecer que a escravidão triunfa.

Gana colecionou mais calabouços, prisões, celas de escravos do que qualquer outro país da África Ocidental. Em 1957, foi o primeiro do continente a romper com a colônia inglesa. De lá para cá, seu trôpego presidencialismo sofreu vários golpes, e presidentes caíram. Sua economia lastreia-se na exportação de minérios, abacaxi e cacau. Quem não se lembra, recentemente correu notícia de que crianças ganesas, de 10 a 16 anos, feito escravas, colhem cacau para fábricas dos chocolates mais caros do mundo.

Na disputa por ouro e escravos iniciada no fim do século XV – escreveu Saidiya –, portugueses, ingleses, franceses, dinamarqueses, suecos e alemães edificaram 50 postos avançados, fortes e castelos para garantir sua posição no tráfico de africanos. Mas não só os europeus trancaram as correntes. Os homens das classes dominantes, os abastados de África se juntaram a eles para caçar e explorar as massas. “O tráfico exigiu que uma classe de pessoas descartáveis fosse criada”, disse. “Senhores com poder, dos dois continentes, mostraram-se adequados para a tarefa.”

Saidiya se sentia órfã, estranha, estrangeira, pouco aceita entre os que entrevistava. Eles a consideram intrusa, uma turista americana que se deu bem, tinha dinheiro para gastar em Gana, onde havia muita pobreza e a alma penada escravista pairava nos costumes e na desigualdade. “O Éden de Gana havia desaparecido muito antes de eu chegar.” A independência do povo dali durou só uma década. Em 1966, a polícia e as Forças Armadas depuseram o governo de Nkruma, líder político que ajudou a criar o pan-africanismo com fé na solidariedade entre os povos do continente. Nkruma havia irritado o mundo capitalista com um discurso feito na libertação. Ele declarou: “A nossa independência é sem sentido a menos que seja ligada à libertação total de África”.

Os afro-americanos alimentam a fantasia de reencontrar lá o lugar para se protegerem do racismo estadunidense. Mas são considerados desleais, acusados de traição à Nkrumah e de estarem alinhados à CIA, a eterna mentora de golpes incluindo o que liquidou o ideal de justiça em Gana. Nas ruas olham feio e com desprezo para os turistas negros que voltam à África atrás da Mãe. Ela esqueceu também os filhos de Gana, do Sudão, do Congo, da Nigéria… Muitos deles, relatou a escritora, se pudessem pegariam o navio negreiro para fugir da fome e perseguir o desejo de prosperidade nos Estados Unidos.

Os detalhes do tráfico ferviam na cabeça da pesquisadora. Quem eram os escolhidos? Na verdade, quase todos os negros pobres. Traficantes também comercializavam as esposas desobedientes, consideradas feiticeira; os jovens briguentos e agitadores; os plebeus que cometiam pequenos delitos.

As guerras de captura no interior do país se firmaram bárbaras e sangrentas. Velhos e enfermos eram assassinados pelos exércitos: não serviam para nada. Crianças tinham a cabeça esmagada contra as árvores. Atravessadas por lanças, grávidas purgavam pelas vísceras à mostra. Sob estupros, dominavam as meninas. Homens intrépidos acabavam em formigueiros ou fogueiras. Para cada um que chegava às Américas, até cinco morriam naquelas batalhas, na jornada a pé até a costa atlântica, nos entrepostos nojentos ou nos navios que nada faziam contra frio e doenças.

“Quando aterrissei no aeroporto de Acra (a capital) vim em busca desse subterrâneo, não da utopia”, escreveu Saidiya. “Mesmo assim, os sonhos dos imigrantes faziam parte da minha herança, da qual eu não podia me libertar.” A utopia, lembrou, nunca se transforma numa sociedade perfeita. Na utopia, há também trabalhadores braçais aprisionados, vencedores e perdedores, realezas e escravos, homens grandes e meninos.

Os montes de sujeira que ela encontrou são o testamento do que chamou de “pilhagem e permuta”. Marco de negócios pautados na troca de ouro por corpos destinados ao trabalho imundo. “A utopia não pode ser separada dessa podridão pois o sonho de um país negro nasceu em calabouços e mercados de escravos.” Na dualidade de propósitos e sentimentos, mantinha a ânsia pela terra prometida negra e por valorizar os que foram forçados a esquecer a África. “Uma escrava sem passado não tinha uma vida para vingar”, escreveu Saidiya – muitas vezes, para falar sobre o coletivo, ela usou o feminino. O abandono das raízes jamais fora uma opção ou um ato voluntário da cativa. Os mercadores se encarregavam de erradicar memórias, crenças, línguas, o nome de origem, qualquer outra evidência da existência anterior à escravidão.

À medida que Saidiya viajava, descobria os métodos: “A cativa era induzida, enganada, enfeitiçada para, então, apagar a identidade.” Antes da venda, os pretos recebiam um banho cerimonial. Curandeiros, feiticeiros e traficantes cantavam para evocar o desapego da visão do lar. Ofereciam a planta Mata Uwa para perder a proteção espiritual, deixar de pensar em liberdade e fugir, esquecer a Mãe. Uma escravizada nessas condições, indefesa, era a filha de ninguém. Sobrava resignar-se e aceitar a identidade na casa de seu novo dono.

A escravidão persiste

Em 13 de maio deste ano, quando a abolição cravava no Brasil seus 134 anos de incompletude, circulou a informação sobre o resgate de uma senhora negra em uma residência do Rio de Janeiro, onde permanecera 72 anos sob exploração. De 1888 para cá, o dela é o caso mais longo de “situação análoga à escravidão”. Fazia todo o serviço da casa sem salário, dormia em um sofá quebrado, havia alimentado 3 ou 4 gerações da família. Pouco sabe de si ou do direito de viver fora do cativeiro. Possivelmente, sua identidade está atrelada ao que seus donos lhe disseram. Decidiram quem ela é e para o que serve. Que memórias ela tem de sua origem? Que Mãe esta mulher perdeu? É possível, para a idosa de mãos grossas, imaginar algo sobre quem a tornou miserável, onde e quando tudo isto começou? Negros no Brasil ainda são pesados em arroba. Dizem deles que mal servem para procriar.

O fantasma da revanche, porém, ronda os brancos desde os tempos da rota atlântica. Os negros poderosos de África acusavam os brancos de “terem levado o mal” ao continente. Leia-se como mal o enriquecimento da elite vendedora de carne para mão-de-obra grátis. Os africanos ricos diziam que o ódio carregado pelos cativos era culpa do europeu. Tinham medo de que os rebeldes do interior surgissem furiosos, em enorme cruzada, prontos para degolar e cobrar o esmagamento dos pobres nos séculos de cativeiro. E muito mais medo tinham da retaliação dos espíritos dos escravos, da ilegalidade de suas riquezas e da inveja dos inferiores.

A afirmação de Saidiya para explicar isto: “Como os homens no poder em qualquer parte, eles temiam os trabalhadores braçais, a ralé, o povo. Eles se atormentavam com os acontecimentos que poderiam colocar no topo os de baixo”.

Voltei a este trecho do livro no último 6 de junho, enquanto assistia no YouTube à Coalizão Negra por Direitos anunciar o revide. O aviso se deu em São Paulo, na Ocupação 9 de Julho – espécie de quilombo urbano onde 200 famílias de sem-teto fixaram residência e resistem aos que lhes negam moradia e direitos. Ali foram lançadas mais de cem candidaturas negras às Assembleias Legislativas e ao Congresso Nacional. Um dia histórico para proclamar que 54% da população brasileira não suportam mais o navio negreiro. Não tolerarão o poder na mão de neoliberais, militares e milicianos que criam e manejam as políticas. Não admitirão que mulheres percam a vida para o feminicídio nem que a cabeça dos filhos da periferia permaneça na mira da segurança pública. Darão um basta aos que atiraram 33 milhões de brasileiros à fome para que ela os devore devagar. Querem mais que os atuais 4% das cadeiras da Câmara dos Deputados e do Senado da República.

Durante 6 horas, ocuparam o microfone quilombolas, ribeirinhos, ativistas das quebradas, do campo e das florestas, lideranças das religiões de matrizes africanas e dos movimentos feministas e LGBTQIA+. No evento da Coalizão, batizado Quilombo nos Parlamentos, negros nascidos nas cinco regiões do país demonstraram gana em falar por eles mesmos. Certamente, vão tomar Brasília.

Veja o ato de lançamentos das candidaturas negras aqui:

Leia mais notícias sobre o movimento negro nos Jornalistas Livres

COMENTÁRIOS

  • POSTS RELACIONADOS

    Coalizão Negra convoca “13 de maio de lutas”

    Veja onde haverá ato no dia 13 de maio e o manifesto. Coalizão Negra Por Direitos convoca “13 de maio de lutas” em manifestações em todo o Brasil pelo fim do racismo, do genocídio negro, das chacinas e pela construção de mecanismos de controle social da atividade policial

    Conviver com o diferente nos humaniza

    “Que a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 desperte em nós a maravilha que é conviver com o outro, o diferente, irmão ou irmã que nos dignifica!”

    A sina do Brasil

    Nossa saída é pela mudança do traço cultural, que é oriundo da presença cotidiana do mundo escravagista que nos divide em desigualdades cristalizadas

    >