Cadê a água limpa e livre que tinha lá?

Há muitos anos, amanheci de pesadelo, onde alguém faria Kararaô, hoje chamada hidrelétrica Belo Monte, sonho ruim. Tenotã-mõ*.

Sonhara com a presidenta Dilma, à época ministra, de nossas minas e minha energia, acordei querendo dormir novamente. Era um sonho grave, pois  bloqueava-se o Rio Xingu, fluxo encantado das águas, líquido que limpava, há milênios, as diferenças de guerreiros e chefias.

Dilma Rousseff, em 9 de dezembro de 2016, São Paulo

Soube naquele momento que algo não ia bem, e nem luz havia no fim do túnel. Desse período em que tanta coisa aconteceu, poucas restaram, tantos tiveram sua cabeça cortada e outras alforrias foram concedidas. Tudo encabulou desde então, até que um insano foi eleito, tornou-se presidente, que nomeou ministros que passaram a boiada e liberaram a madeira ilegal do mato.

Agora, águas passadas, sei que meu sonho foi visão do fim do mundo, miragem, anúncio. Errar não é questão de gênero, mas da espécie humana mesmo. Basta ter mando, comando, andar solto para meter o pé na jaca, sujar as águas. Ao fim de 2021 temos mercúrio nas águas limpas de outrora, fala-se até em uma Minamata Amazônica. Será o caos, me sinto um cidadão envergonhado pela barbárie em curso.

o pesadelo de Belo Monte
Tuíra Kayapó encosta um facão no rosto do então presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz, em 1989.
por Paulo Jares.

Belo Monte foi um erro. Mortale Peccatum seria o nome mais adequado ao gigante de concreto que barra o rio.

Tornou-se um abismo a Amazônia?

Irão embora as árvores, fugirão da terra também o ouro, as abelhas e passarinhos. O sereno de agrotóxicos que cai dos aviões e uma horda de políticos retumbam que o progresso chegou. A grilagem das terras públicas corre solta e o garimpeiro atira ao léu para espantar qualquer ideia de lei no vasto território devoluto, o purgatório moral de nós mesmos.

A matriz energética concretada no rio Xingu é um triste legado em nosso coração, uma ponte safena no pulsar humanitário no lado esquerdo da poesia possível, há mercúrio no cérebro. Como diz Ailton Krenak, os grandes centros urbanos são buracos negros no modo de estar na Terra, que consomem o que há no entorno. 

Há um abismo e a ponte para o futuro é a farsa que nos condena.

*  “Tenotã – Mõ significa “o que segue à frente, o que começa”

 Essa palavra designa o termo inicial de uma série: o primogênito de um grupo de irmãos, o pai em relação ao filho, o homem que encabeça uma fila indiana na mata, a família que primeiro sai da aldeia para uma excursão na estação chuvosa. O líder araweté é assim o que começa, não o que comanda; é o que segue na frente, não o que fica no meio.

Toda e qualquer empresa coletiva supõe um Tenotã-mõ. Nada começa se não houver alguém em particular que comece. Mas entre o começar do Tenotã-mõ, já em si algo relutante, e o prosseguir dos demais, sempre é posto um intervalo, vago mas essencial: a ação inauguradora é respondida como se fosse um pólo de contágio, não uma autorização”

(trecho extraído de seu livro “Araweté o povo do Ipixuna” CEDICentro Ecumênico de Documentação e Informação (ISA), S.P., 1992, pág.67)

Qual é o futuro do planeta e dos seres humanos? O Estúdio CBN recebe o ambientalista Ailton Krenak, a jornalista Eliane Brum e o sociólogo Ricardo Abramovay para falar sobre o tema:

https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/359405/nao-ha-nada-mais-importante-do-que-fazer-uma-alian.htm

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