Barbárie: foi nisso que deu o nazifascismo bolsonarista

O congolês Moïse Kabamgabe deixou a África para fugir da bestialidade das guerras civis, mas foi trucidado por ser credor de um quiosque

Homero Gottardello, jornalista e advogado

O episódio animalesco, hediondo e desumano, em que o congolês Moïse Kabamgabe, de 24 anos, foi bárbara e covardemente assassinado em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio, ao que tudo indica um “empreendimento praiano” da milícia carioca, não chama atenção só pela monstruosidade das agressões que culminaram na morte do imigrante, mas, principalmente, pelo que estar por vir. A não ser que o Brasil tenha mudado da água para o vinho, nas últimas 72 horas, o mais provável é que não aconteça absolutamente nada e que apenas os três miseráveis envolvidos diretamente neste lamentável incidente sejam responsabilizados.

Inicialmente apontado como dono do “Tropicália”, Luciano Martins de Souza apareceu espontaneamente e depôs, ontem. Disse que estava em casa, que não dá notícia de nada. Hoje, o cabo da Polícia Militar fluminense Alauir Mattos de Faria foi mencionado como verdadeiro proprietário da barraca, mas a blindagem de seu nome pelas autoridades e, principalmente, pela mídia hegemônica, chama muita atenção – todo mundo que já avançou um sinal ou parou por 15 segundos em faixa dupla sabe da eficiência do Poder Público para fazer a multa chegar, direitinho, no seu endereço.

Três facínoras assumiram suas participações naquilo que foi, pelas características da execução, um linchamento. São eles os marginais – por óbvio, já que agem à margem da lei – Aleson Cristiano “Dezenove” de Oliveira Fonseca, Brendon Alexander “Totta” Luz da Silva e Fábio “Belo” Pirineus da Silva. São nomes que o leitor, principalmente o que reside no Rio de Janeiro deve anotar e manter guardados pelo resto da vida, já que são pessoas perigosíssimas, impiedosas, sanguinárias e que devem ser evitadas por quem não quer morrer espancado. Um vende caipirinhas na praia e os outros trabalham em quiosques vizinhos, inclusive com parentes do cabo Alauir – resta claro que a família, inclusive a sua irmã Viviane Faria, gerenciam aquele pedaço.

Mas, de volta ao assassinato de Moïse Kabamgabe, só mesmo os mais ingênuos, os mais inocentes podem crer que, em uma cidade onde o fuzilamento de uma vereadora não dá em nada, o linchamento de um sujeito de quem ninguém consegue nem pronunciar o nome, corretamente, vai criar um novo paradigma no Direito Penal brasileiro. Infelizmente, o congolês vai entrar para a estatística nacional da desumanidade tão logo o Neymar Jr. sofra uma falta e saia rolando pelo gramado. Simples assim: a ignorância virginal vai sintonizar no Big Brother Brasil e não se fala mais nisso. E não se assustem se, dentro de nossas próprias casas, aquele parente bolsonarista que anda acanhado solte algo do tipo: “Também, quem mandou esse crioulo vir se refugiar por aqui?”. Na minha própria família, dou isso como certo.

A verdade é o “bolsonarismo”, o “olavismo”, o terraplanismo e o “frotismo” – corrente imbeciloide do ex-general golpista Sílvio Frota, do final da década de 70, da qual o “generinho” Heleno é defensor, até hoje – transformaram o Brasil numa pocilga, converteram os brasileiros no povo mais vil de que se tem notícia, desde os primeiros assentamentos na Mesopotâmia, transmutaram uma nação que avançava, industrialmente, em um fazendão periférico. E como se isso não fosse o bastante, a desgraça se abateu sobre nós ao abrigo de brados do tipo “Deus no comando” e “em nome de Jesus”. Hoje, qualquer estudante do liceu francês, do primário alemão, dos educandários portugueses aos chineses sabem que o Brasil é um monturo, uma esterqueira, um chiqueiro, uma lixeira.

Há menos de uma semana, a consultoria especializada IDados divulgou o dado estarrecedor de que, só no Rio, 982 mil jovens não estudam e nem trabalham. Ou seja, os “nem-nem” como são chamados já representam uma parcela expressiva, de mais de 10% da juventude brasileira – ao todo, 12,3 milhões de jovens não têm formação e nem ocupação, no país. Estamos na contramão do mundo e a banalização da violência, em todas as suas acepções, é um indicativo claríssimo do abismo em que estamos mergulhando. Não é à toa que até mesmo no que resta da indústria nacional, há preferência por trabalhadores asiáticos, operários chineses. A indigência intelectual do brasileiro é tamanha que não servimos mais nem para o chão de fábrica. A continuarmos nesta toada, em breve, não serviremos nem para limpar latrinas – e isso não é força de expressão.

Desde 2006, guerras civis congolesas protagonizadas por milícias e exércitos regulares, inclusive de países vizinhos, deixaram o triste saldo de seis milhões de mortos e desaparecidos. De acordo com familiares, foi justamente dessa violência que Moïse Kabamgabe fugiu, quando decidiu se refugiar no Brasil. O jovem africano, de 24 anos, não podia imaginar, nem no seu pior pesadelo, que seria morto aqui de forma tão brutal, de uma maneira tão violenta quanto as que os telejornais internacionais cansaram de mostrar, principalmente na República Democrática do Congo. A diferença é que, lá, a selvageria, as atrocidades, a bestialidade se opera em combate, em meio à conflagração. Mas aqui não precisamos disso para massacrar, trucidar – basta o credor tentar cobrar um miliciano.

Por fim, é importantíssimo – mais do que isso, é indeclinável – termos em mente que essa violência gratuita, que culmina com a barbárie, é produto de uma decadência civilizatória, de um esfacelamento moral, de uma perversão social que abraça o nazifascismo bolsonarista e compreende, em “ultima ratio”, o câncer involutório que sua hoste reflete, simboliza e traduz.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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