Assédio eleitoral: dono da Schaefer Yachts pressiona seus funcionários a votarem em Bolsonaro

Em 30/09, o empresário Márcio Schaefer reuniu os funcionários nas unidades de Florianópolis e Palhoça falando em crise caso Lula se eleja
Empresário Márcio Schaefer, que cometeu assédio eleitoral - Foto: Reprodução
Empresário Márcio Schaefer, que cometeu assédio eleitoral - Foto: Reprodução

Casos de patrões que cometeram assédio eleitoral estão cada vez mais ganhando visibilidade, o Ministério Público do Trabalho (MPT) já registra 173 denúncias. Márcio Schaefer, fundador da empresa de lanchas Schaefer Yachts, é um dos que foram aos seus funcionários pedir que votassem em seus candidatos. Na sexta-feira 30 de setembro, dois dias para o primeiro turno das eleições, o empresário reuniu todos os trabalhadores nas unidades da fábrica de Florianópolis e Palhoça para pedir votos em Bolsonaro e no senador do PL em Santa Catarina, Jorge Seif. Em sua fala, Schaefer ressaltou o receio que tinha do país entrar em crise caso Lula seja eleito e lembrou de momentos de crise em que teve que demitir funcionários, instaurando um clima de medo na empresa. No fim da reunião, distribuiu santinhos com todos os candidatos alinhados ao partido de Bolsonaro (PL), sublinhando a importância de eleger essas pessoas. Os Jornalistas Livres tiveram acesso ao áudio dessa reunião, que durou 18 minutos.

A denúncia foi feita por um ex-funcionário da empresa, que encaminhou para os Jornalistas Livres o áudio da reunião e um vídeo que mostra cartazes do Bolsonaro e de Jorge Seif espalhados pela empresa. O ex-funcionário da fábrica recebeu reclamações dos seus colegas que ainda trabalham para Schaefer e relataram o assédio eleitoral que vêm sofrendo. As regras da justiça eleitoral, que estão publicadas no site do MPT, são simples: “quem fizer propaganda eleitoral nas dependências da empresa pode ser punido com aplicação de multa no valor entre R$5 mil e R$25 mil”.

Assédio eleitoral

 Na sexta, Márcio Schaefer começou a reunião dizendo que nunca na história da empresa sentou todo mundo para pedir voto, mas que estaria pedindo naquele dia por ter medo de como o Brasil irá ficar caso Lula ganhe. “Eu tenho medo de como o Brasil vai ficar e não ter mais volta e é isso que eu estou tentando explicar para vocês. A gente já sentiu outros momentos difíceis, como em 2014, 2018, muitos que estão aqui lembram, tive que despedir gente, tirar gente, foi muito doloroso. (…) Cada um vai votar para si, não posso obrigar, cada um vai com a sua consciência, mas no PT eu não voto mais”. Embora Schaefer diga que não obriga funcionários a votarem em seus candidatos, ele lembra que demissões ocorreram em momentos de crise, podendo ocorrer novamente por causa da eleição de Lula. Assim, o empresário coloca os trabalhadores em situação de ameaça e coerção para votarem em quem manterá seus empregos, o que se enquadra como assédio eleitoral. “(…) Quando o gasto começa a ficar alto tem que mandar embora e eu não quero”.

Então o empresário segue explicando aos seus funcionários porque não devem votar no PT nessas eleições. “Me dei conta que todos esses partidos, PMDB, PT, roubavam a vida inteira. (…) E aÍ vem um cara (Bolsonaro) para tentar acabar com esse sistema, todos os políticos do Brasil estão contra ele, porque estão acostumados a roubar, a mamar (…). Mas ele está do nosso lado, as pessoas que pagam impostos como eu, que geram emprego, que têm que acordar todo dia para trabalhar, (…) estão cansadas de estarem sendo roubadas há anos (…) os políticos tradicionais estão todos contra o Bolsonaro, claro, porque ele acabou com o sistema. “

Pedro e Márcio Schaefer, empresário da Schaefer Yachts, que cometeu assédio eleitoral – Foto: Reprodução

Márcio Schaefer também defendeu gestão do presidente durante a pandemia: “Os caras (no governo trabalharam muito”. O empresário colocou o Auxílio Brasil, resultado de muita pressão política e social, como um feito do governo e também lembrou que graças ao Bolsonaro, que lutou para as fábricas não fecharem, Schaefer conseguiu continuar contratando gente durante a a pandemia. Com a eleição de Lula, tudo poderia mudar: “Agora estamos em insegurança, com medo de um ladrão roubar o país, já roubou para caralho, já demos dinheiro para Cuba, para Nicarágua, para Venezuela”.

“Cada voto de vocês vai ser importante, nunca pedi votos de vocês, mas hoje me sinto na obrigação. Me sinto na obrigação porque eu sei o momento complicado que está, os empregados estão com medo (…) Então o que eu peço para vocês é que vocês pensam bem quando votar, vocês, a sua esposa, todo mundo, pelo bem desse país. Cada um vai votar na pessoas que quiser, mas eu gostaria muito que vocês votassem para Bolsonaro, eu tenho mais um amigo meu, que é o Jorge Seifer (…) para o senado que trabalhou como ministro da pesca para Bolsonaro. (…) Eu acompanho a dificuldade que os pescadores têm por causa dos órgãos ambientais da esquerda, que dificultam tudo, porque eles querem a pobreza”, disse o empresário.

Schaefer também defendeu como o PT quer acabar com a família. Justificou a afirmação dizendo que o Partido dos Trabalhadores quer a pobreza do povo e odeia quem tem emprego, sendo assim Lula não quer que as pessoas “façam família”, pois para ter filho é necessário “trabalhar e acordar cedo”. Já Bolsonaro, segundo o empresário, quer o contrário: defende a família. Então seguiu discursando contra a corrupção. “Pensem no futuro o Brasil, pense no que a gente tem que eliminar, nós estamos sendo roubados nos últimos 5 anos, (…) então eu preciso que todo mundo vote com consciência, não vote em ladrão. (…) Para que você vai trabalhar, para ser assaltado? Para ser roubado? O sindicato vai levar tudo, o sindicato não pensa em vocês, é uma máfia, então senhores é uma decisão muito importante. (…) Votem certo (…). Isso é uma guerra de quem trabalha para quem não trabalha, o Lula nunca trabalhou na vida, teve a moa cortada e nunca trabalhou na vida”.

No fim, o empresário diz que preparou um santinho com uma cola dos candidatos, pedindo para que todos votem corretamente. Sugeriu para que os trabalhadores levassem a “colinha” para suas esposas e familiares. Schaefer também conta que fez os panfletos manualmente e que teve ajuda da secretária Ciana Souto.

Sobre a empresa

A Schaefer Yachts é o maior estaleiro de iates e lanchas de luxo do Brasil e é 100% nacional. A empresa atua no setor de construção naval há mais de 30 anos, com mais de 3,5 mil barcos construídos. Márcio Schaefer é fundador do estaleiro e projetista dos modelos produzidos pela Schaefer Yachts.

Em 2008, a Schaefer Yachts foi acusada de corromper servidores da Fundação do Meio Ambiente (Fatma) e políticos de Biguaçu para conseguir aprovar obras. A juíza substituta da Vara Federal Ambiental Marjôrie Cristina da Silva cuidou desse caso, conhecido como Operação Dríade, que envolvia outras duas empresas e resultou em prisões. A juíza relatou suspeitas de descumprimento da lei para construção de loteamentos, de redução de Áreas de Preservação Permanente e ocupação desordenada.

O outro lado

Os Jornalistas Livres entraram em contato com a assessoria de imprensa da Schaefer Yachts, que nos encaminhou para a secretária de Márcio Schaefer, Ciana Souto, citada no áudio da reunião. Em nossa conversa, Ciana manifestou sua opinião pessoal, que não representa a visão do seu chefe. Para ela, não existe nenhum tipo de coação apenas por ter cartazes na empresa e por haver um posicionamento do empresário. “A empresa se posicionar politicamente não obriga os funcionários a votarem no mesmo candidato, mas creio que se eu quiser conversar com alguém e defender os motivos de minha opção politica sou livre para isso, correto?”. Ciana nos disse que ainda aguardava o posicionamento de Schaefer, entretanto até essa reportagem sair o empresário não nos contatou. Estamos abertos para publicar seu lado.

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