Manifestações na Argentina e “isto aqui não é Brasil”: Qual a síntese possível?

Por que a insistência em dizer que o Brasil não faz manifestações com a força demonstrada pelos argentinos?

Por Rosane Borges*, especial para os Jornalistas Livres

Nas últimas semanas, um amigo argentino, que mora em Buenos Aires, Rodrigo Alvarez, me “achou” no Instagram. Imediatamente reiniciamos interlocução sobre literatura, política e cinema, temas que partilhamos mutuamente há pelo menos uma década. A intensificação dos colóquios coincidiu com a eclosão das manifestações contra as reformas trabalhista, fiscal e da Previdência, o chamado “pacote de ajustes”, proposto pelo governo de Mauricio Macri. O episódio, como era de se esperar, foi o tema principal das nossas conversas.

Entre vídeos curtos e comentários enviados por Rodrigo, eu fiz menção à frase que teria sido enunciada pelos insurgentes: “Isto aqui não é o Brasil!” (expressão que me levou, machadianamente, a pensar com meus botões – a mim e à torcida do Flamengo, vide a enxurrada de posts e comentários nas redes sociais). Como é sempre fácil ser sábio no dia seguinte, comecei a desfiar um rosário de justificativas para o paralelo estabelecido: “é preciso lembrar que uma das tradições argentinas mais fundas é a máxima de que a rua manda na política”, falei entusiasmada. Continuei: “estamos examinando a expressão aqui no Brasil criticando grupos e pessoas que a reproduzem para atestar uma certa apatia nossa, o que não é verdade”, disparei mais à frente.

Em meio ao rosário, Rodrigo, entre atônito e descrente, me interrompeu: “Mas, Rosa [como costuma me chamar], eu estava nas manifestações e em nenhum momento eu escutei frase desse gênero”. No que retruquei: mas a manifestação teve dimensão alargada, será que você não deixou escapar frações do levante pela sua incapacidade física de testemunhar todas as ações in loco”? Ele ponderou: “É possível, mas acho muito improvável. Acompanhei a cobertura da manifestação no Twitter e todas as palavras de ordem lá, no Twitter, tiveram reverberação” Provocativo, continuou: “acho estranho uma frase dessa chegar no Brasil e não ser captada por nenhum instrumento de comunicação local que deu visibilidade aos gestos e palavras das pessoas na rua”.

A essa altura, a ponderação de Rodrigo me fez pensar (de novo, machadianamente!) mais do que a frase que aqui ressoou como palavra de ordem. Enquanto conversava com ele, abri diversas abas na Internet, até aonde o computador permitiu sem travar, à procura da ocorrência e nada encontrei como prova testemunhal.

Um site, reconhecido por detectar fakenews, comentou: “Não encontramos nenhuma referência a essa frase nos jornais argentinos e tampouco nos jornais de outros países. Nem mesmo no Twitter essa frase aparece nas buscas em espanhol e, curiosamente, só aparece nas buscas em português!”

“Isto aqui não é o Brasil”

De fato, algo me inquietou na frase reputada aos manifestantes. Espalhando-se rapidamente nas redes sociais, tais como os incêndios florestais, ninguém parece saber de onde a informação adveio originalmente. Pareceu que a força das ruas em Buenos Aires tinha que ser traduzida livremente por parte da nossa imprensa como um recado para o Brasil. A pergunta que insiste, aparentemente ingênua, é: mas por que, do ponto de vista jornalístico, não perseguimos o poder das manifestações na Argentina (repito, que já se tornou uma tradição) ao invés de atribuir-lhes enunciado que serviriam de exemplo/lição para o nosso país?

Ao invés de insistirmos na síntese “Isto aqui não é Brasil”, ganharíamos muito em perseguir o acontecimento na forma como se mostrou. O acontecimento é a própria lição. Carrega sentido próprio. A potência do acontecimento, bem ao modo do filósofo Gilles Deleuze, é a matéria-prima para a exploração jornalística. Insisto novamente: temos a História e os fatos cotidianos para estabelecer comparações, parâmetros, análises pontuais…

Entender como a “rua manda na política” na Argentina poderia ser um portal de entrada para possíveis comparações com o estado da arte da política no Brasil. Fazer isso por meio de atalhos, carimbando uma manifestação com uma expressão que, pelo visto, não foi pronunciada, resulta em prejuízo informativo. Buscar compreender parcial e provisoriamente o fenômeno também não significa desconsiderar o poder das transformações sociais e políticas aqui no Brasil por meio das manifestações populares (exemplos temos vários), mas nos leva a pensar, por exemplo, como o clamor das ruas aqui nem sempre é ouvido pelos governantes com a rapidez que deveria.

Reatualizar essa tradição (de que a rua manda na política) não corresponde afirmar que no país vizinho está tudo tranquilo e favorável: Macri tinha os votos para levar a reforma adiante. Ainda possui amplo apoio dos congressistas, o que o faz persistir no avanço das reformas. A distância que o separa da crise de 2001, que aconteceu também em dezembro, é telescópica. Lembremos: naquele ano o grito “fora todos” provocou uma cascata em que cinco presidentes diferentes governaram o país em duas semanas e a morte de 38 pessoas nas ruas. Sem falar no chamado corralito (retenção dos depósitos bancários). Nenhum desses elementos compõe o cenário atual.

Mesmo com a repressão crescente aos manifestantes, a força das ruas na Argentina maculou em definitivo um pacote de medidas que se anunciava como o remédio para melhorar a vida de todos. As imagens violentas tiveram o papel pedagógico de mostrar ao mundo que medidas impopulares estão sendo rechaçadas pela população que faz da insurreição uma via inescapável para correção de rota.

Sem sombra de dúvidas, as manifestações solicitam: ouçamos o que as ruas dizem e como se movimentam. Tentemos captar os germes desta insurreição que poderá, em muito, lançar luz no terreno arenoso da política brasileira.

*Rosane Borges, 42 anos, é jornalista, professora universitária e autora de diversos livros, entre eles “Esboços de um tempo presente” (2016), “Mídia e racismo” (2012) e “Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro” (2004).

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