Anitta chega ao topo da música latina e ofusca noite de misoginia

Anitta é a primeira artista solo brasileira a vencer no VMA; cantora recebeu prêmio por Melhor Clipe de Música Latina
Anitta é a primeira artista solo brasileira a vencer no VMA; cantora recebeu prêmio por Melhor Clipe de Música Latina

Enquanto o azul metálico dos estúdios da TV Bandeirantes fazia moldura para o show de misoginia e machismo que marcou o primeiro debate entre os presidenciáveis no domingo à noite, Anitta, 29 anos, de vestido vermelho colado, salto agulha, recebia o primeiro VMA de uma brasileira pelo hit “Envolver”.

Anitta chega ao VMA toda de vermelho e publica foto com número de Lula
Anitta publica foto com número de Lula

Minutos antes de receber o prêmio, ela jogou nos stories do Instagram detalhes da roupa com a qual subiria ao palco em Prudential Center, Nova Jersey. Na foto, além do decote espetacular, vazado e bordado, ela adicionou o desenho de um coração com o número 13, número do Partido dos Trabalhadores e de Lula nas urnas. Anitta, glamurosa e em roupa de gala – afinal, o VMA é uma das maiores premiações da música para os mercados norte-americano e latino-americano, é como se fosse o Oscar dos clipes nas Américas – provocou o moralismo norte-americano anunciando que ia “balançar a bunda” (“VMA, did you think I wasn’t going to shake my ass tonight?”) e, mais uma vez, subiu ao palco para fazer a coreografia de “Envolver” para a platéia no teatro. Disputando com nomes consagrados do nicho latino, como Daddy Yankee e J Balvin & Skrillex, a composição de Anitta e Justin Quiles deu, pela primeira vez ao Brasil, o prêmio de melhor música.
No momento em que recebeu o prêmio, a cantora pegou o microfone e falou sério: “Meu Deus! Eu não estava esperando, acho que vou chorar. Eu apenas quero dizer para quem não sabe, que essa é a primeira vez que o Brasil está aqui. É a primeira vez que meu Brasil está recebendo um prêmio como esse. Quero receber por minha família e amigos. Eu apresentei [no show] um ritmo [o funk] que por muitos anos foi considerado um crime. Eu fui criada na favela e por muitos anos não imaginamos que isso seria possível.”

É só mais uma das conquistas de Anitta deste ano –e ainda tem 3 meses ´para acabar 2022. Em março deste ano, ela chegou ao primeiro lugar da parada global do Spotify quando lançou “Envolver”. Isso levou a cantora a entrar no Guinness World Records. Além da estátua em cera do Museu Madame Tussaud e de participar do Met Gala, ela foi a primeira brasileira a se apresentar no festival Coachella nos Estados Unidos, em abril. E nas redes sociais, a plataforma Google Trends, que compila estatísticas de buscas globais, o nome de Anitta foi um dos dez mais buscados nos Estados Unidos no final de semana do show. Ao que Anitta, no seu costumeiro humor, comentou nas suas redes: “Oi, mundo, bem-vindo ao Brasil”.

Anitta é de Honório Gurgel

Os mecanismos que fazem uma artista como Anitta no mundo pop “estourar” dessa maneira são diversos e complexos –e coletivos. Anitta briga por isso desde que apareceu em Honório Gurgel (bairro da zona Oeste do Rio de Janeiro) e, mais do que briga, se qualifica para “dominar o mundo”: aprende línguas, se instrui sobre os mecanismos de marketing, acha parceiros de composição, de coreografias, de direção de clipes que ajudam sua música a circular e trabalha incessamente. Como toda menina do subúrbio, ela cuidou do conforto da família e tornou-se uma mulher-empresa, com todas as contradições que essa duplicidade traz.

No entanto, o recado que ela vem dando ao mundo –e que, na noite fria de ontem conseguiu aquecer corações, mentes e quadris não empedernidos– é que o Brasil jovem, vigoroso e muito feminino dos subúrbios não aceita a caretice extrema, não aceita mais que digam como as mulheres tem de se comportar e que, uai, balançar a bunda é só balançar a bunda. Numa noite gelada em que o tom do debate político foi um espetáculo tão retrógrado de misoginia & de machismo como aquele apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro, e que as candidatas de centro-direita Simone Tebet e Soraya Thronick brilharam no confronto com o obcurantismo, não é pouco. Não mesmo.
E que vestido vermelho lindo da porra, Anitta. Pô.

Assista AQUI à apresentação de Anitta no VMA:

Leia mais textos de Bia Abramo AQUI

COMENTÁRIOS

POSTS RELACIONADOS

“Brasil está de volta”: Lula na COP27

Discurso do futuro presidente foi ovacionado diversas vezes pela plateia. Governo em exercício foi esquecido O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva discursou hoje (16)