Acovardada, Seleção Brasileira fará manifesto de pulhas

Apavorados diante do contra-ataque das milícias digitais, técnico e jogadores recuam para a defesa e, depois de levarem uma virada, colocarão a culpa na arbitragem

Por Homero Gottardello, jornalista*

Os brasileiros verão, hoje, um novo capítulo da apropriação da Seleção Brasileira pela elite golpista, seus lacaios e os esbirros do bolsonarismo. A epopeia às avessas, que começou com o movimento “Não Vai Ter Copa” e se consolidou com a adoção da amarelinha como verdadeiro uniforme do conservadorismo distópico tupiniquim, terá nesta noite seu canto medricas, seus versos anti-heroicos, seu poema de pulhas quando jogadores e comissão técnica farão um manifesto contra a Copa América.

Ninguém deve se animar, se avivar com o anúncio, até porque já foi adiantado que o elenco irá participar da competição meio que a contragosto. O manifesto tem uma razão: formalizar a desaprovação de toda a equipe em face da realização improvisada do torneio, no Brasil, em meio à pandemia e a crise sanitária. Os mais crédulos e aqueles que têm no futebol uma verdadeira razão de viver aplaudirão a declaração do grupo, mas quem tem a mínima noção do que se opera nos bastidores do esporte mais sórdido e corrompido do mundo sabe que o tal manifesto não passa de uma encenação.

Tratar-se-á da prosápia vergonhosa de um bando de indoutos que, bastou ameaçar o boicote ao campeonato, foi posto em seu devido lugar por seus arrendadores, por seus possuidores, por aqueles que, contratualmente, lhe ditam não só as palavras como os modos. O manifesto da Seleção Brasileira terá o mesmo valor do pedido de desculpas do médico gaúcho que insultou a atendente egípcia e todas as mulheres islâmicas; a mesma credibilidade da alegação de inocência da deputada Flordelis, o mesmo peso da palavra do general Pazuello, a mesma valia de uma sentença do ex-juiz Sérgio Moro. O arquivo de PowerPoint elaborado pela equipe de Deltan Dallagnol, para o processo do tríplex na Lava Jato, é dotado de mais sentido do que o manifesto desta noite terá.

A história do futebol brasileiro passa muito longe da responsabilidade social e da luta de classes, quanto mais da questão da saúde pública. Desde que a pandemia teve início, foram inúmeros os casos de flagrante deste e daquele jogador desrespeitando as regras de proteção no meio de aglomerações, em festas clandestinas e até mesmo em cassinos – proibidos no país, há 75 anos. Basta ver que o atacante Gabigol, estrela do Flamengo e da própria Seleção Brasileira, fez um acordo com a Justiça do Estado de São Paulo se comprometendo a pagar multa de 100 salários mínimos para ficar livre de um processo criminal – a pena prevista para quem infringe o art. 268, do Código Penal, chega a um ano de detenção. Alguém, realmente, acha que ele está ligando para os mortos da pandemia?

“Menino Ney”

Esperar que esses caras, com todo o respeito, peitem a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no momento em que o Governo Federal atendeu a um apelo da própria CBF para sediar a Copa América, é desconsiderar tudo o que se sabe sobre jogadores de futebol. É inacreditável que alguém, em sã consciência, espere que uma figura da estirpe de Neymar Jr. tenha qualquer tipo de empatia pelos quase 500 mil mortos pela Covid-19, no país. O “menino Ney”, como este marmanjo de quase 30 anos é chamado pelos lambe-botas dos jornalões e da TV, é o mais hedonista dos seres. Todas as suas atitudes revelam uma busca incessante pelo prazer em detrimento de qualquer questão moral, um individualismo, um egocentrismo, um narcisismo capaz de impressionar o próprio Ovídio.

Se essa gente pensou, mesmo, em se opor à realização do torneio o fez em observância única e exclusiva a seus próprios interesses e aos dispositivos contratuais que os obrigam. Todo mundo sabe que a simples convocação de um jogador brasileiro para compor a Seleção é motivo de valorização, na hora da repactuação contratual, na Europa – existe um tipo de “rachadinha” no futebol, muito mais antigo do que a parlamentar, que se caracteriza pela convocação de pernas-de-pau como figurantes, que só ficam no banco, para valorização de seus passes e futura divisão dos lucros. Trata-se de uma maioria de infradotados, que são manipulados de todas as formas por agentes, que habitam um mundo machista, que estão acostumados e tratar as mulheres como prostitutas, como é o caso do ex-atacante Robinho, quando não as agridem e até matam, como o goleiro Bruno.

Portanto, é incrível que jornalistas especializados, profissionais que orbitam este astro rei chamado futebol e que têm voz em grandes veículos de comunicação, tenham vendido de forma ilusória, enganosa e dissimulada a ideia de que estaríamos diante da Queda da Bastilha, da Revolução de Fevereiro ou da Conferência Consultiva do Povo, que jogadores e comissão técnica iriam se insurgir contra a CBF. Bastaram menos de três dias para a máscara cair, para todos, do roupeiro ao camisa 10, passando pelo treinador, colocarem os rabinhos entre as pernas e baixarem a cabeça. Se acovardaram, foram todos tomados pelo pavor quando viram o então presidente, Rogério Cabloco (afastado em face do escândalo de assédio sexual), sair de cena para o retorno do Coronel Nunes, que serviu à ditadura e tem amplo apoio da rede bolsonarista.

Tite e seus comandados ficaram terrificados, apavorados diante de um iminente contra-ataque do gabinete do ódio, das milícias digitais, do diabo que o valha. Colocaram a violinha no saco e recuaram para a defesa. Estão retrancados e o tal manifesto não passará do meio de campo. Ficarão todos dentro da pequena área, resguardando a própria meta, e passarão um vexame tão grande quanto o do 7 a 1 para a Alemanha, em pleno Mineirão. Farão aquilo que lhe é próprio, pois entraram em campo de salto alto, aproveitaram um lance de oportunismo, deram a vitória como certa, sofreram o empate e a virada no finalzinho. Agora, da forma mais vil que se pode conceber, colocarão a culpa pela derrota na arbitragem. Esperar que o levante popular seja capitaneado pelos jogadores da Seleção Brasileira, é o mesmo que esperar pelo fim da tortura, pelo pulso firme da Justiça Militar.

Tem que ser muito otário, mas tomara que eu esteja errado…

(*) Com charges de Cláudio Duarte, Edu e Lafa

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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