A ofensiva doutrinária do empresariado brasileiro

Ofensiva sobre 300 favelas do país tem como foco os valores da extrema-direita
Ilustração de Al Margen

Rudá Ricci, cientista político e presidente do Instituto Cultiva

Na década de 1980 as articulações empresariais focaram na disputa no interior da Constituinte. Destacaram-se nesta tarefa a Câmara de Estudos e Debates Econômicos e Sociais (CEDES), o Grupo de Mobilização Permanente (GMP), Confederação Nacional das Instituições Financeiras (CNF), e a União Democrática Ruralista (UDR). Também tiveram papel relevante no período: a União Brasileira de Empresários (UB), o Movimento Cívico de Recuperação Nacional (MCRN), o Movimento Democrático Urbano (MDU), o Pensamento Nacional das Bases Empresariais (PNBE) e a Frente Nacional pela Livre Iniciativa.

Muitas das ideias até hoje defendidas em programas como Ponte para o Futuro (programa do PMDB orientador do governo Temer) foram esboçadas no final da década de 1980. Havia, ainda, um discurso pelo Estado Mínimo que logo seria superado para uma postura mais agressiva, de captura de fundos públicos federais e definição da agenda estatal. Na passagem da década de 1980 para 1990, surgiram institutos e fundações empresariais voltadas para a responsabilidade social, como o Grupo de Institutos, fundações e empresas (GIFE) e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Uma vertente mais social. Esta vertente logo seria abandonada, em especial, nos anos de gestão lulista, quando o empresariado nacional prioriza o embate ideológico e a ofensiva doutrinária.
Nos anos 1990 surgem as articulações para elaboração de projetos estruturais e mecanismos de reconfiguração da estrutura institucional do Estado brasileiro (inaugurada em 1983, com a criação do Instituto Liberal). Esta é a virada para a atual visão de mundo empresarial. Merecem destaque o papel do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), do Instituto Atlântico, do Grupo de Líderes Empresariais (Lide) e do Movimento Brasil Competitivo (MBC). Lide foi articulada por João Doria, mobilizando a elite empresarial. A partir daí, a ofensiva empresarial para captura do Estado passa a ser constante. Nasce daí uma outra vertente: a de aliciamento de jovens universitários para as ideias ultraliberais e ultraconservadoras.
Ingressamos no século XXI com a proliferação de aparelhos de difusão doutrinária liberal-conservador como o Instituto Liberal (IL), Instituto de Estudos Empresariais (IEE), Instituto Liberdade, Instituto Millenium (Imil). Dentre as entidades (e think tanks) que partem para a ofensiva política, para a doutrinação e financiamento de juventudes universitárias e organização de mobilizações sociais, figuram Instituto Von Mises Brasil (IMB), Estudantes pela Liberdade (EPL), e o MBL.

Ilustrações de Al Margen


Há inúmeras articulações internacionais que financiam e promovem tais organizações políticas de empresários brasileiros e think tanks como as lideradas pela Tinker Foundation e Atlas Network (antes, Atlas Economic Research Foundation). A Fundação Tinker foi criada em 1959 e assessora lideranças políticas, com foco na integração da América Latina com os EUA. Estabeleceu relações íntimas com os Institutos Liberais (do RJ e RS). Já o Atlas Network organiza oficinas, treinamentos, financia entidades ultraliberais da América Latina e promove ações para expandir o conceito de “livre mercado”. Artigo de Kátia Gerab Baggio publicado no livro “Democracia em Crise: o Brasil contemporâneo” organizado pelo Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp) da PUC Minas e Arquidiocese de Belo Horizonte, revela as linhas de financiamento para entidades estudantis brasileiras e MBL vindos do Atlas Network.
Uma das articulações mais profícuas na disseminação de valores liberal-conservadores no Brasil – apoiada pelo alto empresariado de SP, RJ e RS – foi o Fórum da Liberdade, com versões anuais. O evento reúne 5 mil pessoas e possui 150 mil seguidores nas redes sociais.
Jorge Gerdau é uma das figuras-chave de várias dessas articulações. Paulo Rabello de Castro foi um importante formulador de agendas disseminadas por essas articulações. Ambos gravitaram ao redor dos governos lulistas.
Tais articulações parecem não entrar no radar do campo progressista. A difusão das teorias da Escola Austríaca de Economia ocorreu ao longo dessas décadas sem que se adotassem estratégias de enfrentamento teórico ou valores sociais. A formação de lideranças ultraliberais jovens e envolvimento de jornalistas se deu a partir daí e não recebeu atenção das forças progressistas ou de esquerda. Tudo ficou confinado nas disputas setorizadas, nas frentes estudantis. Um erro crasso. Uma ilustração dessa ofensiva foi o “Colóquio Instituto Liberdade 2008/2009”, articulado com a Faculdade de Administração, Contabilidade, Economia, Hotelaria e Turismo da PUC-RS. Bolsas de estudos e publicação de artigos juvenis em revistas ultraliberais se multiplicaram.
A articulação de Hélio Beltrão com a Rede Globo se conformou a partir dessa ofensiva política e doutrinária que citei. Hélio é filho do ex-ministro do governo militar e irmão de Maria Beltrão, da Globonews.
Enfim, neste momento, o bolsonarismo articula uma ofensiva similar ao que descrevi em relação ao pensamento liberal-conservador financiado pelo alto empresariado brasileiro. Agora, com o foco nos valores da extrema-direita. Brasil Paralelo tentou doutrinar nas universidades, à semelhança do que os institutos liberais fizeram nas duas primeiras décadas deste século. A tentativa se frustrou. Não desistiram e, agora, avançam sobre 300 favelas brasileiras.
Hora de abrirmos os olhos.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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