A mídia também é responsável pelas vítimas da Guerra da Síria

O jornalismo internacional propositalmente ignora partes da história e a infinidade de interesses em jogo na região. A Síria é, nesse contexto, o país que decidiu resistir.

Com o marco dos dez anos da Guerra da Síria, jornais e canais de TV de todo o mundo, nos bombardeiam com suas reportagens “humanitárias”, com imagens de vítimas fatais ou de cidades e vilas flageladas pelo conflito. A narrativa única – também presente na maioria dos documentários – é a de que: “um grupo de sírios iniciou protestos pela democracia e foi brutalmente impedido pela ditadura de Bashar Al Assad”. Sério? É inacreditável que 10 anos depois esta continue a ser a narrativa.

Na noite deste domingo (28), no programa Fantástico, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro – integrante da comissão independente da ONU que investiga violações de direitos humanos na Síria – afirmou que, na Guerra da Síria, as forças com “maior poder aéreo” são aquelas da Rússia e da Síria, e que esses países, portanto, “têm a maior responsabilidade” pelas violações dos direitos humanos no conflito. A reportagem não questionou, mas reafirmou essa leitura equivocada, enganosa e superficial do conflito. Sem entrar muito no mérito do papel da Rússia no conflito sírio, direi apenas que a Rússia certamente desempenhou um papel mais construtivo do que a OTAN na Líbia em sua operação de 2011, que deixou aquele país destruído e em meio ao completo caos. Além disso, eu perguntaria:

Por que os EUA e Israel, que continuam a bombardear a Síria, receberam e seguem recebendo passe livre da grande mídia por seu papel no conflito sírio?

Uma coisa que precisa ser considerada na questão síria é o imenso contingente de cidadãos, tanto civis quanto militares, que continuam na guerra lutando contra terroristas que avançam em suas fronteiras. Tais grupos terroristas, fortemente armados, contam com o apoio de países inimigos, como EUA, Israel, Turquia, Reino Unido, Arábia Saudita, dentre muitos outros. Tratar essa guerra como mera insistência de Bashar al Assad em manter o poder, 10 ANOS DEPOIS, também significa tratar milhões de sírios como meros partidários de uma “ditadura”, que agiram e continuam agindo simplesmente para assassinar seus próprios compatriotas. Esta narrativa é desonesta e cruel.

A mídia, como fez a Rede Globo nesta reportagem, propositalmente ignora esse lado da história e nem mesmo menciona a responsabilidade desses países invasores e seus interesses. E há uma infinidade de interesses em jogo na região.

Não por acaso é mais correto dizer que a guerra na Síria é na verdade uma constante tentativa de invasão estrangeira e que a Síria é, neste contexto, o país que decidiu resistir a um projeto secular de destruição.

Existem, por exemplo, dois portos extremamente importantes na Síria, Latakia e Tartous, que ficam de frente para a Europa e, devido à sua posição estratégica, tudo precisa passar por lá, inclusive oleodutos e gasodutos. Por que isso nunca é mencionado nessas reportagens?

A tragédia dos refugiados e da migração também tem sido explorada pela grande mídia a fim de demonizar Al Assad e a Rússia e exonerar o Ocidente. Mas poucos jornalistas perguntam, por exemplo, sobre a visão média dos sírios em relação a situação política em seu país, para que não recebam respostas que são inconvenientes para a narrativa prevalecente, opiniões que certamente não iriam publicar. A verdade é que a maioria dos sírios que partiram não o fizeram por causa de sua oposição ao governo sírio, mas como resultado de uma guerra cruel que continua a ser alimentada pelo Ocidente e que expulsou milhões de suas casas e cidades.

Se o objetivo do jornalismo é reunir fatos para contar uma história, não é isso o que tem sido feito pela mídia hegemônica em relação aos conflitos recentes. Reunir imagens aleatórias de crianças chorando ou mutiladas pela guerra e intercalá-las com a imagem de Bashar Al Assad, casualmente referido como um “ditador”, não é uma forma honesta de se fazer jornalismo. Em 2011, durante o bombardeio e invasão da Líbia, o mesmo foi feito pela grande mídia. Horas de notícias em que imagens de explosões eram apresentadas com uma narrativa de que tudo era “culpa de Kadafi” levaram o público a aceitar passivamente a justificativa que se seguiria quando os países da OTAN atacaram incessantemente o território líbio e destruíram o maior IDH da África.

O que este tipo de reportagem faz é reforçar a narrativa imperialista para continuar a colocar bilhões de dólares em uma guerra – mais precisamente, uma invasão estrangeira – que eles justificam como “intervenção humanitária”. Eles destruíram a infraestrutura do país, a economia, as vidas de milhares de pessoas sob a cobertura da narrativa ocidental predominante de um conto de fadas do bem contra o mal.

Cito aqui artigo de 2012 da Professora Claude Fahd Hajjar sobre o relatório desta comissão na época:

“Chama a atenção quando lemos trechos publicados do relatório, em que o conflito na Síria é classificado de “conflito armado não internacional”, o que significa “ guerra civil”. Como o conflito é não internacional mas foi constatada a presença de combatentes jihadistas, salafistas e estrangeiros na Síria, conforme consta no mesmo Relatório ?”

Ao longo dos anos, foram feitas alegações de que as forças do governo sírio estariam usando armas químicas contra seu próprio povo. Os relatos foram apoiados por imagens, por exemplo, de crianças tossindo e pessoas gritando por socorro e assistência médica. Cada vez que tais imagens apareciam, lideranças políticas de todo o mundo, principalmente de países belicistas do Ocidente, se levantavam com a intenção de gerar matrizes de opinião para alguma ação militar baseada na justificativa de “salvar os sírios” do terrível ditador. E essa mesma narrativa é reproduzida no Brasil, sem qualquer verificação; a mídia brasileira simplesmente reproduz a linha editorial das agências internacionais, até porque não costuma ter correspondentes nas frentes de guerra. Pelo contrário, ironicamente, os poucos correspondentes que temos vivem em Tel Aviv (capital de Israel) e é de lá que narram confortavelmente, por exemplo, a guerra na Síria. Não por acaso, Israel é um dos países que bombardeiam o território sírio dia sim, dia não, mesmo agora durante a pandemia.

O próprio conceito construído pela mídia de uma oposição “moderada” a Assad é uma ferramenta fantasiosa quando se observa que essa mesma oposição sempre esteve ligada e em dívida com terroristas – do Estado Islâmico à Al-Qaeda – em um conflito que, se não for vencido pelo governo sírio, certamente resultará na chegada ao poder de um regime fundamentalista islâmico, deixando a Síria à beira de uma anarquia sangrenta, como já ocorreu no Iraque e na Líbia.

Ainda citando artigo da professora Claude, no qual ela desmonta um dos argumentos usados pela mídia e pela “comissão independente de investigação” na Síria:

“Não é o veto de China e Rússia no Conselho de Segurança da ONU que dificultam o diálogo e busca de uma solução civilizada para o conflito na Síria, mas sim a ingerência descarada da OTAN, EUA e CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) que desde o início arquitetam a derrubada do governo Sírio apoiando criminosamente o ELS, infiltrando grupos salafistas e instigando desertores com somas pagas pelo Qatar”

Jornalistas que se levantaram contra essa narrativa hegemônica não faltam, como o grande (falecido no ano passado) Robert Fisk, a canadense Eva Karene Bartlett, o australiano John Pilger, a cineasta britânica Vanessa Beeley e a repórter britânica Lizzie Phelan, que tantas vezes cobriram frentes de guerra na Líbia e no Iraque, Gaza e Síria. O que normalmente acontece com esses jornalistas independentes que assumem tal posição é serem ridicularizados e tratados como lunáticos pelos colegas dessa mesma mídia tradicional hegemônica.

O jornalismo internacional, especialmente os profissionais comprometidos com suas biografias, precisam decidir se desejam, mais uma vez, ser cúmplices dessas milhares de mortes, feridos e refugiados. Porque, no final das contas, é isso que eles são: cúmplices das tragédias na Síria, Líbia, Gaza que fizeram milhares de vítimas e que agora eles insistem em resgatar como apanhado histórico da guerra, como se nada tivessem a ver com isso.

A insistência nessa narrativa hegemônica sobre o que acontece na Síria, com jornalistas se prestando ao papel de mensageiros dos barões da mídia, é uma das razões pelas quais o conflito não tem perspectiva de um fim a médio prazo e, ao invés disso, amplia o risco de escalar ainda mais em um confronto direto entre os EUA e a Rússia na região.

To read the English version of this article visit: https://jornalistaslivres.org/the-media-is-also-responsible-for-the-victims-of-the-syrian-war/

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