A construção de imaginários geopolíticos e o conflito Rússia Ucrânia

Nos últimos dias, as representações sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, na imprensa e nas redes sociais, nos forneceram exemplos emblemáticos a respeito de como determinados imaginários geopolíticos são construídos; ou seja, como formulamos nossas imagens mentais sobre outros países, povos, continentes, chefes de Estado e organizações supranacionais, distantes de nosso convívio.

Por: Francisco Fernandes Ladeira*

Nos últimos dias, as representações sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, na imprensa e nas redes sociais, nos forneceram exemplos emblemáticos a respeito de como determinados imaginários geopolíticos são construídos; ou seja, como formulamos nossas imagens mentais sobre outros países, povos, continentes, chefes de Estado e organizações supranacionais, distantes de nosso convívio.

É fato que a maioria das pessoas não demonstra interesse ou não acompanha com maior atenção os acontecimentos que envolvem questões geopolíticas, seja pela complexidade da temática ou pela (aparente) falta de relação imediata com o cotidiano do cidadão comum.

Assim, acontecimentos como os que estão ocorrendo no Leste Europeu, só vão estar na agenda pública nacional quando noticiados na grande mídia. Isso não significa, necessariamente, que os principais grupos de comunicação do país tenham o poder de determinar “como” as pessoas vão pensar a geopolítica, mas, ao selecionar quais assuntos estarão em evidência, eles definem “o que” as pessoas vão debater.

Também é importante frisar que a maioria das notícias que lemos/assistimos/ouvimos sobre outros países (não apenas os textos, mas também imagens, gravações de som e vídeo) não são produzidas pelos veículos da imprensa nacional, mas a partir de materiais distribuídos por agências de notícias estrangeiras, como Associated Press (AP), United Press International (UPI), Agence France Press (AFP) e Reuters. Estas empresas de comunicação estão atreladas, sem exceção, às agendas geopolíticas das nações desenvolvidas.

Logo, seus discursos serão pautados por visões favoráveis às políticas externas das principais potências globais e também por representações negativas a respeito de nações ou organizações não-estatais consideradas hostis pela cultura ocidental.

Desse modo, determinadas intervenções militares, ações estatais, mobilizações populares ou violações aos direitos humanos podem ser interpretadas de maneiras diferentes, dependendo de quem as pratica.

Diante disso, não é difícil concluir que, no caso da cobertura midiática sobre o atual conflito no Leste Europeu, somente a versão dos fatos alinhada às potências imperialistas (ou seja, o lado ucraniano) será noticiada. Não há espaço para divergências.

Trata-se, portanto, de uma linha editorial incoerente para veículos que se vendem como plurais, abertos e democráticos. Nesse sentido, não é por acaso que a presença de professores/especialistas na grande mídia, por exemplo, seja para ratificar os discursos tendenciosos e enviesadas dos noticiários, e não para esclarecer a audiência sobre um determinado acontecimento (como muitos pressupõem).

Para facilitar a compreensão do público sobre questões geopolíticas (não familiarizado com essa temática, como dito) e tornar inteligível a complexa configuração das relações internacionais, os principais veículos de comunicação recorrem ao que poderemos chamar de “atalhos cognitivos”, que nada mais são do que simplificações para gerar uma espécie de segurança hermenêutica para o receptor de uma mensagem. Entre esses “atalhos cognitivos” estão os maniqueísmos, as personalizações, as tipificações e os lugares-comuns.

Já para quem tem preguiça mental, mas pretende participar de todas as rodas de conversa e debates nas redes sociais, a mídia oferece “opiniões prontas” sobre a geopolítica global. Basta concordar com todos os conteúdos presentes em programas como GloboNews Internacional, Sem Fronteiras e Manhattan Connection ou repetir fielmente (sem questionar) o que dizem articulistas “isentos” como Demétrio Magnoli ou Guga Chacra.

Este tipo de interpretação, reducionista e simplória, tende a ser replicada tanto por quem concorda, quanto por quem discorda dos direcionamentos ideológicos dos noticiários internacionais. Em outros termos: quem não é especialista em geopolítica, tem forte propensão para interpretar as relações internacionais a partir de estereótipos, lugares-comuns e personalizações.

Os noticiários recorrem aos maniqueísmos para transformar a geopolítica em uma espécie de épico, telenovela ou jogo de futebol. Assim, utilizam linguagens às quais o público já está acostumado. E as relações internacionais também passam a ter seus heróis e bandidos, seus mocinhos e vilões. Podemos escolher para quem “torcer” nos diferentes conflitos e externar nossa posição nas redes sociais.

Nos maniqueísmos presentes nos discursos midiáticos, Estados Unidos e aliados serão sempre “bons” e “civilizados”; enquanto seus “inimigos” Cuba, Venezuela, Rússia, Irã e Coreia do Norte, a despeito de suas características, serão sempre representados como inerentemente “maus”.

No caso do conflito no Leste Europeu, a Rússia é o “mal”; Ucrânia e membros da Otan são o “bem”. Como um tipo de “David e Golias moderno”, devemos estar do lado da “pequena” Ucrânia contra a “gigante” Rússia (mesmo que, por trás dos ucranianos, esteja a poderosa Otan).

No entanto, para prender a atenção do público e gerar engajamento, não basta transformar a geopolítica em um épico. Tentar direcionar os sentimentos de alteridade negativa do público para a Rússia é algo um tanto quanto abstrato. É preciso personalizar a notícia. Ter um “inimigo” de carne e osso. Assim, surgem manchetes como “Putin atacou a Ucrânia”, “Putin quer guerra” ou “Putin não aceita paz”. Em alguns casos, articulistas da grande mídia já consideraram o presidente russo como um novo Hitler.

Já o anteriormente citado Guga Chacra, em sua coluna no jornal O Globo, foi bastante explícito, definiu o conflito entre Ucrânia e Rússia, como o “heroico comediante [em referência ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky] contra o covarde ex-agente da KGB [Vladimir Putin]”.

Conforme nos ensinaram Perseu Abramo e Michel Foucault, na análise dos discursos midiáticos, não basta compreender o que é dito, é preciso também se atentar ao “não dito”.

Nos padrões de manipulação da grande imprensa, questões fundamentais para compreender o imbróglio entre Kiev e Moscou – como a promessa dos países membros da Otan em não expandir essa organização militar até as fronteiras russas (como é o caso da Ucrânia) – são estrategicamente ocultadas, para que, assim, o público não tenha uma visão contextualizada dos fatos, tornando-o mais vulnerável a aderir a um determinado discurso.

Não obstante, tal como na mídia hegemônica, nas redes sociais também encontramos opiniões rasas sobre a geopolítica do Leste Europeu.

Segundo um meme que viralizou no Facebook, “indivíduos que não prestavam atenção às aulas de Geografia e História, nos tempos de escola, passaram a escrever ‘textões’ sobre o que vai acontecer na Ucrânia”.  

Como bem pontuou, em tom irônico, a professora de Língua Portuguesa da Rede Estadual do Rio de Janeiro, Aline Pilad Lebre, “as redes sociais viraram fórum de EAD em geopolítica”.

E assim, no caos informacional que nos sufoca diariamente, muitos querem expressar suas posições na mesma velocidade que recebem as notícias. Como é humanamente impossível filtrar todo conteúdo que nos chega, só resta recorrer aos atalhos cognitivos, esses oportunos “coringas argumentativos”.

Consequentemente, nas redes sociais, o conflito Rússia e Ucrânia é banalizado, tomando ares de uma rivalidade futebolística, como se fosse um Atlético contra Cruzeiro. Determinadas posições, que deveriam suscitar rigorosas reflexões, passam a ser movidas exclusivamente por paixões ideológicas.

Seguindo a lógica de personalizar a geopolítica, uma militante do Partido da Causa Operária – PCO (teoricamente à esquerda do espectro político), em sua rede social, se referiu a Putin (homem público ligado à direita) como “meu herói”. Haja incoerência ideológica!

Nessa mesma linha, numa live no canal Brasil 247, internautas criticaram veementemente um especialista em relações internacionais, simplesmente pelo fato de ele não fazer uma análise maniqueísta sobre a geopolítica do Leste Europeu, mencionando, além da atuação do governo de Kiev como marionete dos interesses das potências imperialistas, alguns aspectos negativos da Rússia.

Desse modo, diante de questões complexas, como a geopolítica do Leste Europeu, é importante usar o bom senso: na análise de um conflito, discordar de um dos lados não implica, necessariamente, concordar de maneira incondicional com o outro lado. Ser anti-imperialista não requer negligenciar as idiossincrasias do Estado russo; tampouco idolatrar seu controverso presidente. Há vida inteligente além dos dualismos.

***

*Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor de dez livros, entre eles “A ideologia dos noticiários internacionais” (Editora CRV)

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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