A arte em luto

Denilson Baniwa coloca sua arte em luto. Nos encaminha carta, acolhe nosso lamento e espanto.

Denilson Baniwa coloca sua arte em luto. Nos encaminha carta, acolhe nosso lamento e espanto.

Olá

Espero que esteja firme mesmo nestes tempos difíceis que passamos.

Como deve saber, esta semana fomos surpreendidos pelo encantamento de Jaider Esbell.

Desde que eu e ele nos encontramos neste mundo, vivemos e construímos juntos caminhos que penso que foram importantes para a cena que se nota hoje.

a arte em luto

Ele foi um amigo a quem eu chamava de maninho, modo carinhoso de chamar irmão na região onde nasci. Como irmão, nos amamos, brigamos, discutimos, brincamos, viajamos juntos pelo calor e frio do mundo, rimos, choramos, “bagunçamos o coreto” como dizem por aqui, ficamos sem nos falar, voltamos a nos falar, trabalhamos, pulamos em muitos rios e mares, concordamos com muita coisa, discordamos de outras muitas coisas, mas em uma coisa erámos incorruptíveis: no desejo de construir uma arte onde pessoas indígenas pudessem ter voz ativa e chances de quem sabe chegar ao topo, lugar onde nunca estivemos antes. Jaider chegou a esse lugar e o que para os brancos é considerado sucesso (ou a melhor fase de sua carreira, como li em matérias de jornais), para nós dois esse fake-sucesso-branco, foi dia a dia tornando-se um peso. Infelizmente ficou pesado demais para ele, mas poderia ter sido para qualquer um de nós artistas indígenas. A cobrança de respostas para salvar a arte, a pressão por não falhar em nossa caminhada ou com nossos parentes indígenas, a ininterrupta fome de quem nos vê como uma novidade devorável no mercado, tudo isso que é considerável sucesso e o auge da carreira é um muro que nos cerca e nos tira do que é mais importante: uma vida saudável.

No momento em que sentimos as mãos do mundo ocidental nos puxar, eu me retirei para desacelerar e pensar sobre o que estava acontecendo. Primeiro foram as redes sociais, que voltei e revoltei, pois, me ligavam, mandavam mensagens como uma exigência de que era preciso estar online o tempo todo, e pior, disponível o tempo todo. Depois deletei meu número e comprei um número novo de celular só para amigos ou para quem eu quisesse dar atenção. Poucas semanas atrás deletei de novo minhas redes sociais a fim de sair dessa pressão em estar sempre disponível e sendo obrigado a responder como “descolonizar o mundo”. Como se isso fosse nossa responsabilidade, salvar o mundo sozinhos. Como se não fosse uma responsabilidade de todos. Ah, não! Nós somos obrigados a salvar um mundo que nunca nos quis, mas no momento que precisam nos recorrem e exigem que estejamos à disposição. Demorou trinta e dois anos para o mundo me dar atenção, eu sei que muitos dos abraços e beijos hoje, só fazem parte da etiqueta social dos brancos. Antes disso só recebíamos desprezo desse mundo. Mas, esse sangue indígena que guarda rancor, mas ao mesmo tempo quer amar o mundo, nos faz aceitar essa etiqueta branca.

Estive com Jaider a semana passada, conversamos pouco pois nossos e-mails estavam lotados, nossa caixa de mensagem estava lotada, nossos horários estavam lotados. Mesmo todo dia juntos, do café da manhã à hora de dormir, por uma semana inteira conversamos pouco. E nas poucas conversas nossas reclamações eram as mesmas, a vontade de socar a cara da próxima pessoa que nos pedisse uma webreunião. Jaider estava cansado. Eu estou cansado. Nós estamos cansados.

arte em luto

O que é postado nas redes sociais não representam o quanto de dor estamos passando diariamente. O Jaider Esbell fora do online não era o postado. O Denilson Baniwa fora do online não é de longe o que vocês veem em lives. Quantas lives eu fiz forçando estar bem para não deixar ninguém preocupado. Quantas lives literalmente eu fiz doente, com febre, com dor. Mas isto não era postado. E eu, e com certeza Jaider não fazemos isso pra agradar branco ou pra ficar famoso, o motivo principalmente era pra construir um caminho para outros indígenas, construir possibilidades para os nossos. Éramos o espelho para quem é indígena ainda sonha em ser artista ou ser qualquer coisa diferente da realidade horrorosa que jovens e crianças indígenas vivem hoje. Nos forçamos a estar disponíveis para um mundo que enquanto baniwa eu acredito: para aqueles que ainda irão nascer.

Mas isso pesa. Deste modo, peço com muito respeito ao Jaider e aos artistas indígenas passados-presentes-futuros que cuidemos que esse caminho aberto por nós nunca seja interditado, nunca deixe o mato cerrar. Que nós, eu e você limpemos o caminho sempre e que num futuro próximo seja mais fácil de caminhar nele. Cuidemos da memória de Jaider Esbell. E principalmente, cuidemos para que seja mais leve o caminhar, o nosso e de outras pessoas.

Pois entendendo que se o sucesso e topo a que tanto lutamos, tem como resultado a tragédia, sinto que preciso pensar ainda mais sobre que tipo de arte indígena eu tenho que construir. E se a recepção que o mundo da arte ocidental nos deu, levou um de nós ao grave fim, preciso pensar ainda mais em que tipo de relação quero manter com a arte ocidental.

arte em luto

Eu vou desacerelar ainda mais, até o ponto que seja um cooper e não um triathlon. Meu trabalho continuará em honra de Jaider Esbell, assim como era em memória de tantos outros parentes indígenas antes de mim. Se é pela arte que resistiremos, vai ser pela arte. Mas da minha parte ela não será para satisfazer a fome de nenhum glutão da arte.

Com carinho e admiração.

Denilson Baniwa

COMENTÁRIOS

38 respostas

  1. Gratidão Denilson Baniwa ..maninho do coração…sigamos sonhando e semeando sempre….

  2. Parabéns Denilson, eu como amigo e observador dessa maratona que exauriu todas as reservas energéticas de Jaider, faço minha suas palavras no que diz respeito ao peso devastador do mundo que jaider tomou pra si e que infelizmente o esmagou. Mas fez seu na história, embora tenha deixado em todos nós esse imenso vazio.

  3. Irretocável. Todos realmente estamos cansados. Ah! quem fosse apenas uma fadiga do corpo. Estamos cansados do assédio , da des-individuação, da falta de nós mesmos e dos mais chegados.
    Mas esse cansaço é uma forma de percepção do existir humano, do Sísifo que nos habita e carrega pedras todos os dias. Tais pedras entulham a alma, o espírito, o caminhar, e nos roubam a leveza de ser, enquanto gente, enquanto promotores da vida e do exemplo.
    Fiz uma live em homenagem a Jaider, com base em Apocalipse 5:29. Se puder, ouça …

    Com carinho,
    Walber aguiar- historiador , filósofo e membro do Conselho de Cultura de Roraima

  4. Um texto que denuncia o quão este sistema mundo no qual nos situamos ainda não é possível, oxalá digno, para tantos e tantas artistas e artevistas como Jaider Esbell. E, ai da assim, Denilson firma seu compromisso com a mudança pela Arte. Um exemplo a ser seguido por tantos e tantas artistas de todas as artes do seu, e de todos os povos indígenas.

  5. Aí meu Deus, que Karma, que nessa vida possamos ter o direito de ser leve, como nossa natureza é.
    Respeito, respeito, respeito

  6. Denilson Baniwa, lamento muito por tudo isso. Por essa dor, fadiga, desamparo. E lamento em última análise por todos nós, frágeis sob o fardo por vezes insuportável da imbecivilização, fazendo pose mesmo à beira da inviabilidade. Somos responsáveis por isso, na medida em que retroalimentamos os cacoetes, insistimos nos macetes. Alivia saber que você é ainda capaz de calibrar as demandas, dar-se um tempo, reprogramar-se. Isso me parece claro, apesar dos pesares. Abraço.

  7. acredito que jaider esbell,era uma pessoa muito querida no meio indígena,mas que pelo que pude perceber, não foi aceito numa sociedade desumana e cruel.que onde ele estiver,com certeza bem melhor que nós,nesse mundo devasto de incerteza, dúvidas e falta de amor.

  8. Li o comentario sensivel ,sincero de Denilson Baniwa;Ele tem razao,respeito pela obra,pelos ideis de luta e trabalho.O mercado de arte pode ser como o capitalismo selvagem….derepente a obra vale uma fortuna,da mesma forma como pode ser esquecida.Cabe a nos,cuidar desta obra,respeitar os anseios dos artistas.Abrir caminhos.Abrir os olhos.

  9. A voracidade do capitalismo sem rumo tem engolido todos seres sensíveis. E a Arte que tanto amo tem sido um instrumento de só ganhar dinheiro nas mãos de indecentes contemporâneos. Desacelere mesmo, querido artista. Os glutões não merecem vcs.

  10. De uma beleza que rasga o peito e a alma de quem acredita que pode ser diferente, que precisa ser diferente. Força, Denilson Baniwa, há muitos que te querem bem e ao Jaider e a todos os parentes desse país que precisa mudar e dar lugar a todes es viventes!

  11. Nossa… que soco no estômago ! Emocionei ainda mais aqui… Que declaração forte, pura e verdadeira, séria. Receba meu apoio humilde de mulher preta e urbana que os respeita , admira e assina com você as suas impressões e sentimentos e chora junto em fraterna dor a perda de tantos e especialmente de Jaider Esbell que disse basta à tanta pressão e sofrimento, mas que resistirá e nos aponta, como
    legado, caminhos possíveis, apesar de tanto peso. Gratidão por sua percepção , desabafo e lucidez compartilhados. Minha solidariedade e respeito, sempre! Salve os povos originários! Vivaaaa Jaider Esbell! Vivaaaa Denilson Beniwa! Vivaaaa cada um que com tanto Amor e sensibilidade insistem e resistem diante de tanta loucura e hipocrisia! Na tristeza de tão grande perda e da certeza de nossa enorme e tola ignorância eu me silencio e humildemente me faço grata à Arte de Jaider Esbell e à existência fundamental de todos os povos originários…. ??????☮️❤️

  12. Obrigada Denilson pelo esclarecimento. Meu inconformismo à perda de Jaider Esbell.

  13. Denilson Baniwa, eu era amiga do Jaider. Fui surpreendida com a triste notícia. Não nos encontramos nos últimos tempos, mas eu o acompanhava de longe. Conversávamos, às vezes.
    As múltiplas demandas não lhe permitiam descansar como precisava. Ele se dava por inteiro. Não temos conhecimento do que vai na alma de cada um. E, sim, haveria um peso e uma pressão grandes demais para lhe darem espaço, minando suas forças.
    O legado de Jaider Esbell permanece.
    Gratidão ao Cosmos por tê-lo conhecido e gratidão a você, Denilson, por suas palavras e pelo seu alerta.
    Eu também me sinto esgotada.
    A ordem é desacelerar.
    Abraços

  14. Me solidarizo com sua solidão existencial, com sua indignação.
    Fique bem. Um abraço em você e em todos que lutam por tempos melhores.

  15. Desacelerar é preciso. A vida celerada na cidade engole muita gente. O silêncio é fundamental.

  16. A carta de Denilson Baniwa é um potente alerta para nós não-indígenas que construímos este mundo asfixiante e ainda não nos demos conta disso.

  17. Como estou envergonhada! Porque faço parte dessa gente que explora a todos, indígenas, ribeirinhos, sertanejos, e todos aqueles que se expressam pelo seu povo e são usados para uma prática mercantilista. Siga encantado Jaider e obrigada Denilson pelas palavras lúcidas.

  18. Palavras vindas se um coração cansado das lutas diárias e que representa a voz de tantos sem sossego e paz, diante da mídia da aparência e do ” on-line”. E quando se considera a voz de uma cultura indígena tão negligenciada, aí sim a voz solta seu grito mais poderoso: ” Nos deixem em paz”.

  19. A dor de vcs dói em muitos não-indígenas também. Essa “pressão para dar certo” e a necessidade de estar sempre on-line foram coisas que eu tive que abrir mão pela minha sanidade mental.
    Entendo que a pressão sobre os indígenas é brutal, e que a sociedade não-indígena sempre tentou dominar os povos que não se submeteram.
    Acredito que juntos poderemos encontrar um caminho melhor para um futuro melhor.
    Como podemos nos ajudar?

  20. Essa carta foi encaminhada a vocês? Porque o site do Museu de Arte do Rio postou um texto de Denilson Baniwa, pedindo que cobrissem suas obras, muito semelhante a esse, mas com afirmações menos “contundentes”. Seria importante checar o que ele de fato escreveu.

  21. Obrigado Denilson. un camino para comprender este momento, de Jaider, del arte indígena contemporáneo. (Podrían darme un contacto de Jornalistaslivres? mail o celular o whastapp). Obrigado.

  22. Estamos todos cansados, há uma pressão muito grande e não estamos dando conta. Belíssima carta que reflete o que estamos passando.

  23. Obrigada, Denilson Baniwa, por ter compartilhado seu texto…Faz escuro e meu pranto inunda a floresta em silêncio.

  24. Em que momento nos separamos e deixamos de nos chamar a todos de maninhos e maninhas? Não deveria ser povos, esse plural não combina. Porque sei tão pouco de vocês e mesmo de mim? Apesar da exposição exacerbada não nos vemos, não nos conhecemos. Queria poder te dar um abraço.

  25. Te escuto e leio com atenção, Denilson. Seguimos nos remos, tá difícil, tá triste, vamos nos cuidar uns/umas das outras. Fez muito bem para mim ler tua carta, com grande carinho admiração por ti, para relembrar tuas palavras acima

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