6 Obras para entender (e sentir) os crimes das barragens no Brasil

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Diagramado por Henrique F. Marques / Jornalistas Livres

Jornalistas Livres selecionou 6 produções essenciais para entender as experiências de quem mais sofre e enfrenta a violência da mineração pelo país.

Hoje, 25 de Janeiro, faz dois anos desde que a barragem da mina do Córrego de Feijão se rompeu em Brumadinho, MG. A lama soterrou e matou 270 trabalhadores, sendo que 11 corpos ainda não foram encontrados. Além disso, a destruição causou uma diversidade de problemas ambientais na região, incluindo inviabilizar a vida de animais e vegetais no rio Paraopeba

Desde lá, a crise das barragens continua e não há sinais de que a situação deve melhorar tão cedo. A própria Vale fracassou em garantir a estabilidade de 33 de suas barragens de mineração por todo país, o que indica que prontamente poderão haver novas vítimas de crimes similares.

No entanto, diversos artistas, jornalistas e cinegrafistas se esforçaram para preservar a memória das vítimas da mineração no Brasil. Seja a partir de palavras, de imagens ou por performances, essas obras participam no luto e na luta para que os atingidos pelos rejeitos do minério não sucumbam ao esquecimento. 

Os Jornalistas Livres deixam aqui 6 produções essenciais para entender e também sentir algo da dor e da batalha de quem sofre, mas também enfrenta a voracidade do extrativismo mineral.

1) JORNALISMO BRUMADINHO: A ENGENHARIA DE UM CRIME por Murilo Rocha e Lucas Ragazzi

Abrimos nossa lista com um sensível e crítico livro-reportagem escrito por dois destacados jornalistas belo-horizontinos. Baseado no trabalho de delegados da Polícia Federal que investigaram a responsabilidade criminal da Vale na ruptura do córrego do Feijão e redigido em uma linguagem agradável e objetiva, mas ainda sim seguindo uma apuração rigorosa, Brumadinho: A Engenharia de um Crime demonstra como a mineradora sabia de todos os riscos de ruptura pelo menos desde o segundo semestre de 2017 e nada o fez para impedir a catástrofe. O livro retira qualquer dúvida de que o que ocorreu no fatídico dia de 2019 não foi um acidente e, além do mais, abre importantes debates sobre a insuficiência do poder público brasileiro na fiscalização da mineração

2) FOTOGRAFIA 15:30 por Isis Medeiros

Às 15 horas e 30 minutos do dia 5 de Novembro de 2015 a barragem de Fundão se rompeu, liberando 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos no ambiente. A tragédia matou 19 pessoas, varreu do mapa os povoados de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo e contaminou a bacia hidrográfica do Rio Doce, deixando centenas de milhares sem água potável por meses. O maior desastre ambiental da história do Brasil serviu de prelúdio para um crime ainda o mais violento que ocorreria 3 anos depois em Brumadinho.
Por cinco anos, Isis Medeiros, fotógrafa e colaboradora dos Jornalistas Livres, documentou o desfecho e a vida dos atingidos. No final, produziu um acervo de mais de 8 mil fotos, das quais selecionou 71 para a publicação do fotolivro 15:30. Contando com prefácio de Ailton Krenak, o trabalho de Medeiros carrega solidariedade e cuidado em cada clique e é uma importante obra para para ver e sentir os movimentos que se organizaram na região para enfrentar o barro da Vale.

3) LITERATURA: BRUMADINHO: 25 É TODO DIA, por Dom Vicente Ferreira

Escrito pelo bispo da Arquidiocese de Belo Horizonte, Dom Vicente Ferreira, e lançado pela Editora Expressão Popular, se trata de um livro literário que mescla prosa e poesia no esforço de expressar o pensamento, o sentimento, a dor e a revolta daqueles que perderam seus parentes e amigos com o rompimento da barragem de rejeitos pela mineradora Vale. Deixamos aqui uma pequena amostra:

“A Vale mata! E ela fará de tudo para provar que, mesmo assim, é melhor. Sem mácula, pura de origem e a melhor opção. E ela comprará tudo: territórios, corpos e alma. Enquanto houver minério. Feita de metais, não sente. Robô gigante, treina bem. Especialista em maquiagem. Só engana porque mantém as rédeas. Controla o bolso. Em terras de único dono, o arrocho é sem dó. Mineração sempre destruiu. O que muda? A voz que se levanta, a voz das vítimas. Atingidos, a maioria. O desacordo. Na contramão, outra visão. Brasil só conhece extrativismo que extermina. No agora, o entreguismo. Sem possibilidades de autonomia. Enquanto as multinacionais decidirem, a terra do pau-brasil será colônia. Que insônia! Que a corda não estrangule mais! Acorda, povo de Santa Cruz!”.

O livro está disponível para encomenda a todas as regiões do Brasil aqui.

4) DOCUMENTÁRIO ARPILLERAS, pelo Coletivo de Mulheres do MAB.

Para os fãs do audiovisual, é obrigatório assistir Arpilleras, premiado como melhor documentário no Festival SESC. O filme conta a história de dez mulheres atingidas por barragens das cinco regiões do Brasil que costuraram seus relatos de dor, luta e superação frente às violações sofridas em suas vidas cotidianas. Usando a linha de costura como “fio condutor” da narrativa, ele percorre as cinco regiões do país e em cada local, capta a singularidade, mas também a história coletiva de força e resistência dessas mulheres. A costura, que sempre foi vista como tarefa “do lar”, se transforma em uma ferramenta de empoderamento.

O longa-metragem está disponível no canal do youtube do Movimento de Atingidos por Barragens. Assista ao trailer abaixo:

5) POESIA Invisíveis / Tragédias Brasileiras, por Carlos Nejar

O célebre poeta Carlos Nejar publicou um livro de poemas dedicados aos principais dramas coletivos que assolaram o Brasil recente. Metade do livro é dedicado a Mariana e Brumadinho, mas também dedica capítulos para o crescente desmatamento na Amazônia e do Incêndio do Museu Nacional em 2018 no final do Governo Temer, resultando na destruição de um acervo com mais de 20 milhões de itens de inestimável valor histórico, cultural e científico.


O Canal Curta! fez uma entrevista com o autor, em que ele explica seu trabalho com toda a eloquência e indignação de quem “não pode se calar” ao testemunhar tudo que ocorre no Brasil:

VÍDEO DO YOUTUBE:

O livro foi lançado pelo Editora Bertrand Brasil e está disponível para encomenda aqui.

6) MÚSICA POR UM FIO, por Irene Bertachini e Guarda de Moçambique do Reinado de N.S. do Rosário

Para encerrar com chave de ouro, só ouça, assista e se emocione com o clipe da música Por um fim, da cantora mineira Irene Bertachini com participação de membros da Guarda de Moçambique do Reinado de Nossa Senhora do Rosário do Bairro Santa Efigênia, um dos coletivos atingidos pelo crime da Vale.

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