500 dias de isolamento: meus 5 pedaços de entretenimento da quarentena, por Sâmela Silva

500 dias de isolamento
Da esquerda para a direita: Fallout: New Vegas, Ice Planet Barbarians, Irene & Seulgi, Taskmaster, O Fantasma da Ópera no Royal Albert Hall

Estamos completando 500 dias de quarentena – ou quase isso.

No próximo dia 24 de julho, a primeira medida de distanciamento social motivada pela pandemia da covid-19 no Brasil (implementada no Distrito Federal, em 11 de março de 2020) faz aniversário de 500 dias. Foi um período marcado, literalmente, por centenas de milhares de tragédias – o luto pelas vidas que perdemos e, por baixo dele, o luto pela vida (no singular, a nossa) que deixamos de viver.

Na reclusão, e em meio às mil preocupações, o entretenimento se tornou mais fundamental do que nunca. Como escape, como espelho, como ferramenta de construir e destruir barreiras, como forma de seguir tendo contato com a humanidade. Ver, ler, ouvir ou jogar o que outras pessoas fizeram é absorver um pouco de quem elas são e integrar esse pedacinho a nós, afinal.

Por isso, o Jornalistas Livres reuniu um time de cinco colaboradores que trarão, a cada dez dias até o fatídico aniversário de “quinhentão” da quarentena, uma lista de cinco pedaços de entretenimento que os ajudaram a encarar esse período de alguma forma, da mais simples à mais profunda. Pode ser que essas escolhas sejam as suas também, ou pode ser que elas sejam as dicas que te carregarão pelos próximos dias até a almejada vacinação.

Hoje, enquanto completamos 480 dias de isolamento, seguimos o projeto com a terceira lista, elaborada e escrita pela Sâmela Silva (Twitter: @akaoperaghost), funcionária pública e podcaster no K-Pop Top.

Veja o primeiro e o segundo post dessa série.

Fallout: New Vegas (2010)

Jogue no Steam.

O gênero RPG se baseia em interpretar um papel, dando ao jogador a chance de ser algo ou alguém diferente da vida real. Então o que fazer em uma sociedade pós-pós-apocalíptica que mal consegue se manter de pé, onde conflitos políticos e territoriais ditam as regras e muitos lutam para simplesmente sobreviver em meio a um deserto que parece querer destruí-los a todo instante? Em Fallout: New Vegas, a resposta é: o que você quiser. Você pode ser o fominha de quests, correndo para realizar toda e qualquer tarefa que o jogo oferece, ou assistir ao mundo pegar fogo, escolhendo o lado dos vilões; é possível também sair matando todo e qualquer personagem que aparecer na sua frente, escolher as piores respostas disponíveis nas interações ou ser previsível como eu e encarnar o posto de herói, tentando melhorar a situação daquele lugar. É sensacional, para dizer o mínimo.

É verdade que me descobri gamer na quarentena, e uma atividade antes casual se tornou algo que eu ativamente queria fazer o tempo inteiro, porque videogames são divertidos demais. Nenhum jogo chegou perto da imersão e impacto de New Vegas, no entanto. Eu genuinamente queria o melhor para aquele mundo, aqueles indivíduos, mesmo sabendo que estava interagindo com códigos em uma tela. O poder do jogador e o fato de ser possível resolver problemas enormes e ativamente participar da moldagem da história são as melhores partes – se no mundo real somos meros espectadores assistindo aos poderosos decidirem por nós, em New Vegas fazemos a diferença, e nossos sentimentos e pensamentos impactam os personagens à nossa volta de forma direta. Ter esse controle, essa relevância, essa importância, foi um oásis em meio ao deserto para mim; aqui fora o mundo está acabando sem que eu possa fazer muito para ajudar, mas quando ligo o computador a impotência dá lugar a uma realidade em que minhas ações são a chave para um futuro melhor (ou pior, dependendo do objetivo). E não é isso o que todos nós queremos? Fazer a diferença de alguma forma? Em New Vegas, você pode.

Os romances sci-fi de Ruby Dixon

Leia na Amazon.

O isolamento foi um momento de descobertas, isso é fato. No entanto, me descobri fã de uma série de romances safados com alienígenas azuis, e não sei bem o que fazer com essa informação.

O que aconteceria caso várias mulheres humanas fossem sequestradas por alienígenas e acabassem presas em um planeta inóspito, sem possibilidade de voltar para a Terra? Segundo Ruby Dixon essas moças vão viver romances quentes com os aliens locais enquanto aprendem a viver em uma nova realidade. Sim, o atual hit do nicho de livros do TikTok, Ice Planet Barbarians, foi uma série que me divertiu – e muito – desde o começo da pandemia.

Ler um romance com alienígenas pode parecer bizarro, mas pense bem: os romances contemporâneos já possuem situações e interesses amorosos que jamais existiriam na realidade, então qual o problema de um herói azul, chifrudo e com a zona sul do corpo extremamente interessante para mulheres humanas? É abuso da suspensão de descrença, abraçando o escapismo com todas as forças, o que torna a experiência muito legal. É muito interessante ver aqueles indivíduos interagindo e tentando entender como agir na situação em que se encontram, e os livros lidam com temas como trauma, esperança, expectativa, medo e incerteza – seu grande rol de personagens possibilita a exploração de diversos tipos de personalidades e passados, tentando trazer variedade para a fórmula “humana + alien = cenas para maiores de 18 anos”. A narrativa é fácil de seguir, a escrita viciante, e quando percebi já tinha lido seis volumes e começado a explorar as outras séries da autora, tanto as de aliens quanto as de dragões (!). É entretenimento puro. Tem seus problemas, é claro, porém como mulher adulta que sabe o que consome, posso afirmar que às vezes eu só quero ler sobre um cara fictício que faria de tudo para proteger sua amada e vê-la bem e satisfeita (de todas as formas). E isso eu encontrei de sobra nas obras da Ruby Dixon.

K-pop

Eu seria uma pessoa muito triste sem o k-pop. Parece exagero, mas a quantidade de vezes que meu humor foi salvo pelas músicas animadas vindas da Coreia do Sul é infinita. Estou no abismo kpopper há uma década, então era inevitável que eu me jogasse nele durante a quarentena, buscando conforto na animação dos meus artistas preferidos. 

Tem espaço para tudo no k-pop, desde baladas que precisam ser cantadas de olhos fechados e voz falhada até hits eletrônicos cujo ritmo envolvente obriga os quadris a se mexerem. Isso significa que existe uma música para toda e qualquer atividade dentro de casa: lavar louça, limpar a casa, arrumar o guarda-roupa, tudo fica melhor com uma playlist das faixas mais animadas e divertidas que a música pop sul-coreana pode oferecer. Já quando precisei voltar ao trabalho presencial, escutar minhas músicas alto astral no trajeto acalmava minha ansiedade ao utilizar o transporte público. Estava morrendo de medo de me infectar no ônibus, mas se fechasse os olhos eu estava dançando como quem não tem preocupações, só o ritmo e meu corpo e nada mais. Por alguns minutos, é possível emular animação em meio ao terror existencial, e as batidas e melodias presentes no k-pop certamente me ajudaram a chegar lá.

Taskmaster (2015-atualmente)

Veja no YouTube.

Se outros itens desta lista exaltam o escapismo e buscam ordem e calma em meio ao caos, o maior trunfo de Taskmaster é destacar a inutilidade de tudo. Na atração britânica, 5 comediantes devem executar tarefas ridículas para ganharem pontos – no fim de cada episódio, um deles leva para casa itens geralmente inúteis, e a temporada termina com o grande vencedor premiado com uma réplica malfeita da cabeça do apresentador Greg Davies. Soa idiota, é idiota, e ainda assim consegue ser um dos programas mais fascinantes da TV. A competitividade entre os participantes e o quão longe eles estão dispostos a ir para conseguir boas pontuações sempre surpreende. Assistir a indivíduos inteligentes, com carreiras legítimas no entretenimento, abandonarem o senso do ridículo simplesmente porque querem ganhar uma estátua feia é uma experiência e tanto. 

Existe um conforto na simplicidade de Taskmaster. As provas são absurdas e elaboradas em sua maioria, sim, mas no fim do dia os competidores sabem o que precisam completar para conseguir os cobiçados pontos. Tal sentimento foi expresso por Mike Wozniak, um dos mais interessantes (e melhores) participantes do programa, através da máxima: “Você recebe a tarefa, você faz a tarefa”. A vida não seria tão mais fácil caso recebêssemos um envelope explicando o que precisamos fazer para obter sucesso?

A genialidade do criador Alex Horne e as soluções por vezes brilhantes pensadas pelos comediantes para resolver os problemas merecem elogios sem fim, porém o verdadeiro holofote aqui é inutilidade de tudo aquilo. Não tem ponto algum em jogar uma batata em um buraco sem poder tocar no tapete (prova que, inclusive, gerou um dos momentos mais devastadores na história do mundo). É inútil. Estúpido. Frustrante, confuso também, porém é real. A falta de ponto é o ponto, e só é possível vencer ao deixar a vergonha e as inibições na porta, indo até onde for possível para obter a arbitrária aprovação do Mestre. Nem sempre dá certo, mas não tem problema. Após ser zoado por Greg Davies depois de uma prova, Mike Wozniak não titubeou ao retrucar: “O que você não pode tirar de mim é que eu tive um dia encantador”. 

Essa é a maior lição de Taskmaster. Se nada importa, o certo é ser livre e procurar ter bons momentos no processo. É um bom lema para levar na vida pós-pandemia.

O Fantasma da Ópera no Royal Albert Hall (2011)

Alugue no YouTube ou no iTunes.

É comum conhecermos um título, sabermos um pouco sobre a história, ter amigos que gostam demais dele, mas nossas interações diretas não passam da pergunta: “Mas será que é bom assim mesmo?”. Seja isolamento, tédio ou intervenção divina, algo me compeliu a tirar a prova real com o espetáculo O Fantasma da Ópera (o aniversário de 25 anos, por favor). E esse impulso acabou dominando grande parte da minha quarentena.

Em minhas outras escolhas eu tentei racionalizar meus motivos, buscando entender o que me fisgou nessas mídias, mas aqui estou perdida. Fantasma é simplesmente mágico. É arte e beleza e intensidade em forma de peça teatral. É difícil compreender como uma história sobre um homem obcecado por uma jovem bailarina e a jornada destrutiva criada por esse “amor” me impactou desse jeito, e ainda assim cá estamos. Seria pelas músicas que são boas demais, perfeitas para cantar no chuveiro como se os sentimentos de admiração e angústia fossem os seus próprios? Talvez seja porque essa iteração conta com 25 anos de história, e traz a versão aperfeiçoada da narrativa criada por Andrew Lloyd Webber em 1986, uma trama que sabe exatamente o que deve fazer para obter os efeitos desejados do espectador. Ou as verdadeiras culpadas são as fantásticas performances da encantadora Sierra Boggess e do hipnotizante Ramin Karimloo, capazes de arrancar suspiros e lágrimas sem piedade.

É difícil apontar uma razão em especial. No fim das contas, Fantasma no Royal Albert Hall é uma equação em que todos os itens criam algo perto da perfeição, um raio que não vai cair no mesmo lugar outra vez. Estou dominada pela música da noite, e não sou a mesma desde que testemunhei a tragédia do Fantasma e Christine

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