500 dias de isolamento: meus 5 pedaços de entretenimento da quarentena, por Rodrigo Ramos

500 dias de isolamento, por Rodrigo Ramos
Da esquerda para a direita: "The West Wing", "E.R.: Plantão Médico", Rina Sawayama, "In Treatment" e Charli XCX

Estamos completando 500 dias de isolamento – ou quase isso.

No próximo dia 24 de julho, a primeira medida de distanciamento social motivada pela pandemia da covid-19 no Brasil (implementada no Distrito Federal, em 11 de março de 2020) faz aniversário de 500 dias. Foi um período marcado, literalmente, por centenas de milhares de tragédias – o luto pelas vidas que perdemos e, por baixo dele, o luto pela vida (no singular, a nossa) que deixamos de viver.

Na reclusão, e em meio às mil preocupações, o entretenimento se tornou mais fundamental do que nunca. Como escape, como espelho, como ferramenta de construir e destruir barreiras, como forma de seguir tendo contato com a humanidade. Ver, ler, ouvir ou jogar o que outras pessoas fizeram é absorver um pouco de quem elas são e integrar esse pedacinho a nós, afinal.

Por isso, o Jornalistas Livres reuniu um time de cinco colaboradores que trarão, a cada dez dias até o fatídico aniversário de “quinhentão” da quarentena, uma lista de cinco pedaços de entretenimento que os ajudaram a encarar esse período de alguma forma, da mais simples à mais profunda. Pode ser que essas escolhas sejam as suas também, ou pode ser que elas sejam as dicas que te carregarão pelos próximos dias até a almejada vacinação.

Hoje, enquanto completamos 460 dias de isolamento, iniciamos o projeto com a primeira lista, elaborada e escrita pelo Rodrigo Ramos, jornalista e editor do site Previamente.

In Treatment (2008-2021)

Assista na HBO Go.

Durante a pandemia, a produção das séries foi prejudicada, e por conta disso acabei aproveitando esse período com poucos lançamentos para ir atrás de séries clássicas que nunca tinha visto. Uma delas foi In Treatment, a versão estadunidense da série israelense BeTipul (2005-2008), que também tem uma versão brasileira, chamada Sessão de Terapia (2012-atualidade). Se tem uma coisa que todo mundo precisou nesse período de isolamento, foi terapia. E a minha terapia foi assistir mais de 100 episódios de personagens enfrentando problemas tão ruins quanto os meus ou piores, inclusive o terapeuta tendo que lidar com os desafios da vida. Porque, sim, psicólogos não têm uma vida perfeita (sei bem, pois já namorei uma e minha mãe também se formou em Psicologia – temos um padrão aí, talvez tenha que lidar com isso na terapia).

O curioso é que iniciei a maratona antes mesmo de anunciarem uma nova temporada da série, atualmente no ar, pela HBO, agora com Uzo Aduba como protagonista (assistam, por gentileza). Ou seja, ainda continuo em terapia. E recomendo o mesmo para vocês. Série e terapia de fato. 

Charli XCX – how i’m feeling now

Ouça no Spotify, na Apple Music ou no Deezer.

Lançado em 15 de maio de 2020, how i’m feeling now é um álbum feito quase todo durante a pandemia. Nele, Charli retrata o relacionamento com seu namorado Huck Kwong, que ficou próximo de terminar, mas que a quarentena acabou salvando. O disco é um experimento sonoro na superfície, mas nas profundezas estão as letras mais pessoais dela. Por algum motivo, ouvir as confissões de Charli me trouxe algum conforto ao longo de um ano tão difícil e isolado de todo mundo (dos amigos e até da minha namorada na época, já que morávamos em cidades diferentes) como foi 2020. Era quase como se Charli estivesse conversando comigo e eu fosse seu ombro amigo. No fim, é o álbum que se tornou um apoio para mim.

The West Wing (1999-2006)

Como já disse, fui atrás de séries clássicas durante a pandemia. Assisti aos primeiros episódios de The West Wing ainda em 2017, mas não emplacou – possivelmente, porque os lançamentos naquele ano eram mais urgentes do que esta relíquia. Mas 2020, além de ser um ano pandêmico, também foi o ano em que adentrei a área da campanha política como profissional de jornalismo. Talvez por isso assistir The West Wing fez tanto sentido para mim. 

Claro, há aqueles momentos patrióticos que somente produções estadunidenses poderiam propiciar, e há alguns discursos problemáticos – mas, num geral, The West Wing é uma série de boas intenções e com discussões interessantes sobre os bastidores da política. Até mesmo as últimas temporadas, em especial a sétima, que não é tão querida, fizeram total sentido para a minha realidade, já que sua trama envolvia uma campanha eleitoral – exatamente onde eu estava no ano passado, trabalhando em uma assessoria política durante o pleito a prefeito da minha cidade. O que começou como curiosidade por se tratar da série dramática com mais vitórias na história do Emmy (ao lado de Mad Men e Game of Thrones, com quatro estatuetas de drama do ano cada), acabou servindo de inspiração, reflexão e conforto para a minha vida profissional e também pessoal.

ER: Plantão Médico (1994-2009)

Esta é outra série clássica que resolvi retomar a maratona durante a pandemia. Recordo de tê-la visto durante a infância nas noites e madrugadas da Rede Globo, mas eram apenas vestígios, nenhuma lembrança de qualquer coisa da trama, além do rosto de George Clooney novinho. O motivo de ter decidido começar ER em primeiro lugar foi Julianna Margulies. The Good Wife, estrelada pela própria, é uma das minhas séries favoritas da vida, e saber que Juju também estava em ER acabou me instigando a buscá-la. 

Em 2015, achei no Mercado Livre uma caixa com as cinco primeiras temporadas e dei início à maratona, junto com minha companheira da época (que também era fã de The Good Wife e de Juju). Acontece que a namorada me enrolava – a gente acabou vendo uns 10 episódios ao longo de um ano, e eventualmente terminamos o relacionamento. Mesmo sem ter ciência, isto me fez não querer revisitar ER tão cedo, já que estava atrelado a uma época bem específica da minha vida. 

Em 2020, no entanto, entrei no modo de querer visitar os clássicos, como bem pontuei nos outros textos. Isto, juntamente com a escassez de coisas novas interessantes e alguns amigos seriáticos revisitando-a, me fez querer entrar nessa jornada. E fico feliz pela minha decisão.

ER é uma delícia de série. Tudo o que Grey’s Anatomy e outros dramas médicos fizeram nas duas últimas décadas, já havia sido feito – e melhor – em Plantão Médico, que revolucionou a TV de várias formas, seja em condução narrativa ou em termos técnicos (o episódio “Love’s Labor Lost”, da primeira temporada, está facilmente entre os melhores já feitos na tevê – obrigado por tudo, Mimi Leder). Além disso, tem atores carismáticos e talentosos, como é o caso da própria Juju. É uma novelinha gostosa de acompanhar, que em 96 episódios (estacionei no início da quinta temporada) me fez desligar completamente do mundo aqui fora. Sem contar que é reconfortante ver causos médicos não envolvendo pandemia – embora confesse ter demorado para desapegar do fato de que eles não usam máscara 100% do tempo. Males da pandemia.

Enfim, ER é entretenimento em sua melhor forma.

Rina Sawayama – “SAWAYAMA”

Ouça no Spotify, na Apple Music ou no Deezer.

Não me recordo como foi o meu primeiro contato com Rina Sawayama, mas consigo me lembrar da sensação de estar diante de uma estrela pop em ascensão, estivesse o público de acordo com isso ou não. Um dos primeiros álbuns lançados durante a pandemia, SAWAYAMA tirou o gênero pop da zona de conforto e me jogou para uma experiência de vários altos, com uma energia caótica, mas muito consciente. Ela foi perspicaz aqui, amigos. 

É um disco que vai para várias direções, mesclando glam rock, nu metal, R&B, pop e dance – e tudo isso soa preciso dentro desse universo apresentado pela cantora e compositora. Entre essas transições, Rina passa por temas como o desejo pela fama, ao mesmo tempo em que a satiriza, pede para calarem a boca porque não aguenta mais tanta bobagem dita (dá pra se relacionar, né?), injeta autoconfiança em suas ouvintes mulheres, reflete sobre relações afetivas (amigos, amores, família e suas raízes) e o fato de não se sentir pertencente a lugar nenhum. É hino atrás de hino, e nenhum dos temas é tratado de maneira juvenil – não que não possa ser interessante, mas no auge dos meus 30 anos, sendo apenas um mês mais novo do que a própria Rina, consigo me relacionar mais com o que ela diz aqui do que com o dito por Olivia Rodrigo em sua estreia, por exemplo. 

A música de Rina é relacionável, talvez, justamente por ser alguém da minha faixa etária. Ela encontra-se no nível de maturidade, experiências e reflexões compatíveis com o seu tempo de vida, e SAWAYAMA é uma experiência única pelas propostas apresentadas e pela execução impecável. Rina tem tudo sob o controle em termos criativos, mas talvez não tenha absolutamente nenhum controle sobre todo o resto em sua vida – e esta é uma representação cirúrgica da minha. Por isso o álbum é um grande abraço nesses tempos sombrios, e me ajudou a sobreviver em quase 500 dias de isolamento.

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