Tatiana Khabarova

Uma voz em defesa do legado soviético
14/12/2017- Rio de Janeiro - A exposição A União Soviética através da câmera - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Luciano Morais, com colaboração de Cesar Locatelli

A guerra fria foi a terceira guerra mundial. Essa tese, de uma das maiores pensadoras e ativistas da política no pós-segunda guerra, aparece em um artigo, de 1971, em que ela resgata o legado dos avanços sociais da URSS, ocultados de forma agressiva por uma contrapropaganda que já vem dos tempos de Hearst, nos primórdios da comunicação de massa. O golpe em que vivemos hoje no Brasil é uma miniatura fiel dessa mesma história.

Tatiana Khabarova nasceu em 1935, na Rússia. Formada em engenharia termoelétrica, mestra em Ciências Filosóficas e professora do Instituto de Tecnologia de Leningrado, é uma figura da economia política que teria seu nome tatuado na memória das pessoas, se estivesse do lado de cá da cortina de ferro. Infelizmente os nomes que temos tatuados na memória pela mídia dominante – a mídia daquelas cinco famílias que escolhem de quem não parar de falar conforme seu projeto político e social – são Delfim Neto, cuja maior contribuição à economia política foi reconhecer que Lula é o único político que fala da fome sem cinismo. Ou Henrique Meirelles, um cartomante que acredita em preces para melhorar a economia – sendo ele o ministro da fazenda do governo golpista!

Khabarova trabalhou como diretora do Comitê Executivo do Congresso dos Cidadãos da URSS. Crítica da guinada para a abertura econômica que devastou o projeto comunista na União Soviética, ela se posicionou contra a campanha anti-stalinista dos anos da Perestroika, ficando famosa por um artigo de 1988 intitulado “Não posso renunciar aos princípios”. Fundou, justamente em 1989, a Associação Unidade pelo Leninismo e pelos Ideais Bolcheviques. A razão de tamanho engajamento, no protesto ao abandono do método econômico soviético, é a compreensão de que o suposto fracasso da economia socialista é resultado de uma falácia que se tornou hegemônica no mundo todo (“uma mentira, repetida mil vezes…”), quando a direita precisou se unir para eliminar o único concorrente ao modelo econômico capitalista. Através de atribuições errôneas de responsabilidade e de uma campanha unificada que coalhava o noticiário internacional com denúncias de corrupção, enriquecimento ilícito de membros do governo e factoides sobre a bebedeira de Boris Yeltsin.

Se o leitor se lembrar da fazenda do filho do Lula, da Caninha 51 do Lula e, mais recentemente, da Ferrari dourada do filho do Lula, que também é do filho do Maduro e do Morales, nos grupos de whatsapp da Venezuela e da Bolívia, não se preocupe. Não somos conspiracionistas, pode ser que Yeltsin fosse meio bebum mesmo. Mas isso não interessa. O fato é que os exageros e focos direcionados foram ferramentas através das quais a direita expansionista convenceu os incautos de que a adesão ao capitalismo seria o único remédio para o dano econômico provocado pelo socialismo na União Soviética. A direita conseguiu mais do que isso. Além de submeter o conjunto das repúblicas socialistas aos acordos comerciais da OTAN, ela conseguiu uma carta coringa para pintar o socialismo como sinônimo de fome, atraso, desemprego e miséria junto ao cidadão comum do ocidente, que não escolhe um modelo macroeconômico para chamar de seu, mas paga imposto sobre o gás.

Exposição A União Soviética através da câmera – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Contradições no discurso hegemônico sobre o socialismo soviético

Em um artigo de 1997, Khabarova explica, de modo direto e agressivo, como a suposta falência da economia soviética foi forjada por sabotagens decorrentes disto que o Comitê Executivo do Congresso dos Cidadãos da URSS, que ela presidiu, exigiu que a ONU reconhecesse: uma guerra psicológica, política e informacional que caracterizava a verdadeira Terceira Guerra Mundial que, ainda em 1997, estaria longe de acabar. Após a sequência de boicotes amparados por anticomunistas dentro e fora da URSS, afirma Khabarova:

(…) qualquer outra economia, a começar pela norte-americana, colapsaria em poucos meses, enquanto o nosso complexo econômico nacional (…) demonstrou ter uma vitalidade fenomenal. Sangrando de uma ferida tão terrível, constantemente remexida para que não sarasse, mesmo assim ela dava-nos de comer e beber, vestia-nos e calçava-nos, mantinha a paridade com o adversário geopolítico, lançava para o espaço máquinas excepcionais, organizava olimpíadas e os concursos Tchaikóvski… e ainda hoje vive. Isto não é uma economia, mas a oitava maravilha não só do século XX, mas de todo o segundo milênio da nossa era. E se não salvarmos esta maravilha, se não a defendermos do inimigo, então perderemos o direito de nos chamarmos Povo no palco da história.

Aqui, lemos uma rara referência à cultura como algo essencial para a vida de um país em um artigo sobre economia.

O que falta para o discurso dominante explicar é como um bloco de países funcionando sob um sistema falido pôde ganhar a corrida espacial. Porque o problema mais grave no projeto de enviar o homem à lua era vencer a gravidade da terra, coisa em que os russos foram pioneiros, repetindo o feito algumas vezes, poupando os estadunidenses até de pesquisas sobre as consequências da exposição de organismos vivos ao espaço. Falta lembrar que um projeto espacial levado a cabo com tal êxito implica um poderio tecnológico e industrial de proporções extraordinárias, poderio cantado em prosa e verso por Carlos Drummond de Andrade e recentemente lembrado pelos irmãos Cohen que, no filme “Ave, César!”, de 2015, escarneceram o medo americano da tecnologia soviética nos anos 1950.

Falta também explicar como a produção cultural avançou tanto em um bloco de países onde – de acordo com o discurso hegemônico – não haveria sequer comida. Por que o país onde há o maior número de Grandes Mestres no xadrez ainda hoje é a Rússia, com 240 enxadristas com o título máximo? Os Estados Unidos, que precisavam provar a eficiência de seu modelo econômico, entraram também nesta corrida e seguem em segundo lugar com 94 jogadores no topo da categoria, duas vezes e meia a menos2. O terceiro (Alemanha, com 92), quarto (Ucrânia, com 89) e quinto colocados (Sérvia, 57) todos são países do antigo bloco soviético, com exceção da Alemanha, que tiramos da conta por generosidade, não sem observar que em metade de seu território vigorava o regime socialista. Isso quer dizer que a diferença de grandes mestres enxadristas herdados de toda URSS (386) e dos EUA do tempo da Guerra Fria (94) é de 292 jogadores… Como um sistema que gera miséria pode ocupar seus cidadãos com uma atividade intelectual de elite como o xadrez, em um nível tão alto?

Falta explicar, ainda no plano da cultura, como um sistema que gera miséria pôde concentrar os pianistas mais consagrados da história? Um Sviatoslav Richter, um Emil Gilels, um Evgeny Kissin, um Boris Berezovsky, um Arcadi Volodos, um Grygory Sokolov não são só os melhores e mais prolíficos pianistas dos séculos XX e XXI, como também são só a ponta de um iceberg que funciona à base de um nível altíssimo na escala mediana, uma difusão artística de alto nível também entre os amadores. Sem conservatórios equipados com condições para que os professores possam exercer adequadamente sua profissão, tanto em termos de condições de trabalho como pessoais, concertos de e para estudantes e compra de material para se estudar música em casa, sem um bom aparato de trabalho, enfim, não se chega a isso. Não se faz um músico sem uma ampla cultura musical. E não se faz uma ampla cultura musical sem garantir acesso a todas as formas de cultura. E acesso à cultura é investimento estatal.

Os pianistas símbolo da grande tradição soviética são, de novo, só um capítulo. Violinistas, orquestras, bailarinos, museus, a influência de Eisenstein sobre o cinema mundial, são rastros históricos que nos fazem perguntar sobre o fundamento do projeto soviético – e sobre a verdade de sua queda. A URSS era o único país do mundo em que havia trabalho para compositores – compositores que produziam música contemporânea para a contemporaneidade, e não animadores de trilhas de cinema. Nada disso prosperou em economias capitalistas sem pesado investimento estatal direto ou indireto, pois educação e cultura são áreas onde o investimento é, sempre, a fundo perdido. E isso não é prioridade numa economia capitalista, a menos que haja pressão política e protestos populares – que como nossa jornada pós-golpe revela, não são sempre ouvidos pelos dirigentes. O que seria então tão temido na “ditadura” soviética, cubana ou de qualquer país socialista, que não temos que t(T)emer em nossa economia liberal?

Há algo de muito errado no relato histórico sobre o fracasso econômico da União Soviética. O artigo de Khabarova apresenta uma tabela de preços de ingressos, produtos e serviços, que indicam que a economia socialista funcionava também com base em mercado, comércio e produção. Além dos preços aos consumidores serem bem inferiores aos praticados nos países capitalistas, a principal diferença era o trabalho, na União Soviética, não ser tratado como um produto, como uma mercadoria e não ser remunerado conforme a lógica de mercado. A remuneração do trabalho não era regulada pelo mercado, segundo a lei da oferta e da procura. E nem poderia, pois o provimento das necessidades básicas em educação, saúde e moradia era tão abrangente que forçava o bloco europeu capitalista a manter o Estado de Bem Estar Social, devolvendo aos trabalhadores parte do rendimento do seu trabalho – e dos impostos – na forma de escola, saúde, cultura e lazer públicos. Com a URSS ganhando a corrida armamentista e espacial ao mesmo tempo em que oferecia o dobro em recursos de vida ao cidadão, essa concorrência do ocidente ocorria por absoluto prurido moralista ou por pressão da esquerda nos países do bloco capitalista. Mas a campanha de demonização do modelo soviético – e, adiante, do modelo cubano – seguia firme, com um forte componente de conversão ideológica ao modelo de vida consumista da classe média estadunidense.

Em Berlim, por exemplo, um museu tenta mostrar o quanto era dura a vida no lado socialista, expondo réplicas dos apartamentos que eram cruelmente doados aos cidadãos desse lado da Alemanha. Eram moradias de 70 metros quadrados, oferecidos ou super subsidiados, como direito da população pela mera razão de existirem, de terem nascido num país socialista. Era possível morar melhor do que isso, mas não pior, já que o Estado definia o piso. Aqui, o “bem-sucedido” sistema imobiliário capitalista oferece apartamentos de 18 m2, por 300 mil reais, agora com as restrições ao financiamento do programa Meu Caixote, Minha Vida. Essa retirada de direitos básicos do mercado da oferta e da procura é o que diferencia a economia socialista da capitalista.

Com a redução da exploração privada sobre o lucro líquido obtido a partir do trabalho, o que Marx chama de Mais Valia – o lucro, ou o valor de venda acima do custo da produção – é redistribuída socialmente, realizando a definição do professor José Paulo Netto de socialismo: controle social do lucro do trabalho pelos trabalhadores. Khabarova explica:

Os cidadãos soviéticos na sua grande maioria não compreendiam, e também ninguém se preocupou em explicar-lhes, que a baixa dos preços de retalho (ou pelo menos a sua estabilização durável) mais o desenvolvimento dos fundos de consumo gratuito representam a realização do seu direito ao rendimento, constituem a única forma possível sob a qual os trabalhadores no socialismo recebem, adicionalmente ao salário e aos diferentes prêmios que auferem no local de trabalho, a sua parte do rendimento enquanto coproprietários dos meios de produção socializados – ou, o que é o mesmo, estatizados.

Alguma semelhança com a dificuldade de explicar aos trabalhadores que os benefícios obtidos pela população entre 2003 e 2015, ano do recorde de pleno emprego, se devem a um programa de governo…?

O piso fornecido pelo Estado é um princípio que vigora mesmo em economias capitalistas, assim como nas economias socialistas atua também o princípio do mercado e da lei da oferta e da procura. Aqui, essa relação é apenas reorientada por um princípio diferente, que prioriza menos o lucro do que as decisões sobre distribuição. Em um país com o Bolsa Família, por exemplo, um salário tem que ser, por qualquer tipo de trabalho, no mínimo maior do que aquele que o governo garante. Não falo do Brasil, falo da Finlândia, Suíça e Alemanha, países sem os níveis de miséria brasileira, onde projetos de renda mínima estão à beira de implementação. Enquanto isso, o nosso programa de renda mínima está em processo de eliminação.

Restaria demonstrar, no longo prazo, qual dos modelos manteria mais robustez. Uma forma de ganhar essa guerra é fazer o melhor dentro de cada modelo. Outra é sabotar o adversário. Com uma boa dose de inimigos internos, como o golpe de 2016 no Brasil provou haver em qualquer país, a conta da sabotagem nem seria assim tão alta. No artigo de Tatiana Khabarova, um tema tratado de passagem nos causa surpresa. Para ela, a crença no fracasso soviético se deve ao fato de terem, os comunistas, perdido “a guerra”. Mas que guerra? A guerra fria? Mais ou menos. Um lado da guerra fria era a ameaça de um desastre nuclear. Outro era a guerra de informação, que impedia o conhecimento de que o “genocídio” de 1932 da Ucrânia se devia à epidemia de tifo, e não a um assassinato em massa perpetrado por Stálin. Divulgado por Hearst, um célebre plutocrata anti-comunista e o primeiro grande magnata da comunicação de massa, as contra-provas a essa Fake News publicada em 1932, nunca foram admitidas e o número de seis milhões de assassinatos tem sido requentado até ontem, em publicações absolutamente espúrias, desde o Livro Negro do Comunismo até sua sucursal anã, o ridículo Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo.

O outro lado da Terceira Guerra foram as sabotagens feitas através de embargos econômicos combinados entre países do bloco capitalista –  que concordaram, por exemplo, em atrelar o preço do ouro no comércio mundial ao dólar (proposta aceita nos encontros de Bretton Woods somente depois do – este sim – genocídio em Hiroshima e Nagasaki, de 1945, feito para indicar quem estava negociando com o mundo), ou derrubar o valor pago pelo barril de petróleo, ação que se tornou o pivô da quebra da economia soviética dos anos 1980. Esse processo através do qual se ataca a formação econômica de um país, atribuindo o seu desmantelamento ao sistema de organização interna, é consequência da guerra de informação onde a ameaça militar não utilizada – mas disponível – é combinada com um discurso ideológico e de manipulação de mensagens. Tatiana não usa de meias palavras: a Terceira Grande Guerra Mundial não era um perigo. Estivemos nela já desde o fim da Segunda.

A devastação que esta guerra causou é ideológica. Ela faz pobres desacreditarem do conflito de interesses de classe, a aceitarem a substituição de suas denominações de “funcionários” para “colaboradores”, como se uma empresa capitalista funcionasse com patrões e empregados no mesmo lado, lutando pelo mesmo interesse – como se assumir conflitos de interesse fosse algo negativo. A devastação de que fala Tatiana é o enterro em vida da força da economia soviética, baseada em outra lógica, humanista, com um piso de direitos colocados fora da flutuação do jogo do mercado. Essa história, que ela tentou resgatar, foi substituída pela crença generalizada no livre comércio, na livre iniciativa, na livre concorrência, na meritocracia que qualifica as pessoas em ricas ou pobres, renomeando-as em esforçados ou vagabundos. Para esse discurso, o Estado é um inimigo que deve ser simplesmente reduzido ao invés de ocupado, fiscalizado e controlado, para espelhar as necessidades e aspirações de um povo.

Aliás, no tempo da globalização, a própria palavra “povo” soa embolorada. O capital não tem pátria, e para fazer a sua lógica de reprodução triunfar, o ser humano também não pode ter. A derrota da União Soviética foi a derrota de um contra-modelo, de uma contra-hegemonia, de um outro olhar para o papel do Estado, que equilibrou a sanha predatória capitalista. Não é coincidência, que o desmonte do Bem-Estar Social europeu ocorreu na mesma época do desmonte do bloco Soviético. Hoje, até mesmo um mero reflexo tosco e provisório do contra-modelo soviético, que é o que foram os governos petistas, já é demonizado e enxotado, à revelia do processo eleitoral e – como vimos no caso Lula – da própria noção de Estado de direito.

Nesse cenário, o diálogo com as vozes perdedoras é essencial. Pois a vitória nesse tabuleiro de contra-informação (hoje, pós-verdade) não é nunca obtida num ambiente de liberdade e isso vale para a história de longo alcance, para o ambiente macroeconômico e para os problemas locais. Estaríamos todos muito felizes se o golpe de estado no Brasil fosse um evento isolado no mundo. O artigo de Tatiana Khabarova mostra, a este leitor do Brasil pós-golpe, um cenário dolorosamente familiar.

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2 comentários:
  • Patrícia de Oliveira Cardoso
    9 fevereiro 2018 at 21:02
    Comente

    Excelente texto! É o tipo de conhecimento que quero aprender mais! Eleição sem Lula é fraude!

  • realista@hotmail.com
    10 fevereiro 2018 at 14:43
    Comente

    SE ELA ERA COMUNISTA, BOA GENTE NÃO ERA ! O MOLUSCO NA PRISÃO JÁ ! ! !

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