Perguntas sobre o Brasil

Cientista político analisa crise política no Brasil
Ilustração Joana Brasileiro
O Brasil vem arrastando uma crise política, social e econômica desde 2013. Essa crise trouxe a discussão política para a ordem do dia nos principais meios de comunicação do país. Será que isso tem contribuído para a construção de um projeto político do país? De pronto, parece evidente que é bom para o país ter uma sociedade que discute política; mas, será que essa discussão tem gerado propostas que poderão trazer novo horizonte à sociedade brasileira?
Após o fim da ditadura militar, a discussão política se tornou algo “chato”. O neoliberalismo encontrou um paraíso no Brasil nos anos 1990 e o pensamento individualista entrou de vez na cabeça das pessoas, colocando a capacidade individual como diferencial para a construção da sociedade, desconsiderando os projetos de políticas públicas.
Os anos 2000 foi um paraíso para o mercado e para os pós-modernos. Houve uma espécie de falso pertencimento de minorias e classes historicamente desfavorecidas a um novo patamar na realidade social. A discussão da macropolítica era praticamente encarada como retrógrada.
Até que em 2013 estoura uma grande crise e a população armada com smartphones/iphones e preconceitos começa uma batalha ‘sangrenta’ de ideias políticas. Agora, discutir a macropolítica é necessário e todos se dizem entendedores do assunto.
O problema logo é diagnosticado: tudo é corrupção e os grandes responsáveis por esse problema são: Lula e o PT. Para os que têm esta concepção sobre a realidade brasileira está lançada a grande “luta” por um novo país, livre de bandidos.
São milhares de informações por semana, as pessoas batem panela, saem às ruas com camisa da CBF (que, nesse mesmo período, tem seu presidente preso por se envolver em um enorme esquema de corrupção), outras saem com camisas vermelhas, a polícia reprime, acontece um impeachment, denúncias por todos os lados, delações premiadas, prisões, malas de dinheiro, reformas, ódio e amor à causa justificam quase tudo.
Eis que chega 2018, ano de eleições, e no dia 24 de janeiro a turma do TRF 4 condena em segunda instância o ex-presidente Lula, tendo como possíveis efeitos sua prisão e a impossibilidade de concorrer o pleito de presidente da República. Festa de uma parcela e luta de outra. Mas, de novo, é possível perguntar: e a construção de um novo país? E o novo horizonte?
A história se repetindo como farsa em um país no qual líderes populares já foram condenados por poucos representantes da lei. Dessa vez, três desembargadores, com seus gordos salários alcançados através da meritocracia em um dos países mais desiguais do mundo, servida por uma serviçal negra para julgar um retirante nordestino, impedem novamente o povo brasileiro de escolher em quem votar.

O que mais significa isso tudo?

Significa que perdemos a oportunidade de discutir seriamente um projeto de país. Lula cometeu vários erros, transou com a elite para inserir os pobres no consumismo capitalista ao invés de construir políticas públicas para a efetiva emancipação da classe trabalhadora, deixou os rentistas nadarem de braçada ao invés de criar fóruns de discussões com os trabalhadores sobre as reais necessidades para uma qualidade de vida.

A educação mercadológica continuou a ser a máxima do país, a vida continuou a ser privatizada e contada em cifrões. A lógica continuou sendo a de negociar com um congresso extremamente vinculado aos financiadores de suas companhas e muito menos com as bases populares que os elegeram. As centrais sindicais se tornaram aparatos do PT e as lutas socais quase desapareceram, ao passo que os bancos lucraram como nunca.
Todos esses defeitos aconteceram no governo petista e são muito mais graves para a construção de um país que um tríplex no Guarujá – sobre o qual não há provas. O processo ocorre baseado no “disse e não disse”, matérias de jornais historicamente comprometidos com a classe dominante, e não com a notícia, e em convicções.
A oportunidade que estamos perdendo, mais uma vez, é a de discutir um projeto de país em que seja possível mudar a condição de

6 pessoas deterem a mesma riqueza que 100 milhões de pessoas(!).

Se Lula for preso e não disputar as eleições, o que, de fato, mudará nesse país?
Nossa democracia só vai perder a oportunidade de se fortalecer. A justiça assume uma posição de autoridade máxima e intocável. Para os seis homens brancos mais ricos do país sobrarão milhões de oportunidades para aumentarem seus bilhões.

O que restará para as 100 milhões de pessoas mais pobres? O que será do dia a dia de cada um dos brasileiros que não possuem o privilégio do lar digno e do alimento? O que será que projetos como os que têm predominado e que pedem pela construção de novas prisões, redução da maioridade penal, elevação de impostos e não garantia dos direitos sociais nos trarão?

Raphael Macedo de Oliveira, cientista social pela PUC/SP e Professor de sociologia da rede pública do Estado de São Paulo.

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