Letramento racial – pílula 2 – 2018

O vídeo de duas mulheres brancas e seu imaginário sexual sobre o homem negro
ilustração Joana Brasileiro

Na minha terra, criamos a expressão absurdada para as coisas indecifráveis, que não conseguimos compreender sob ângulo algum e que achamos impossíveis de acontecer, embora aconteçam.

Assim me senti enquanto assisti um vídeo de duas artistas brancas brasileiras que por meio de muitas caras e bocas exóticas, daquelas feitas por  youtubers para prender a atenção de quem as assiste, descreviam estereótipos de homens negros e sua relação sexual-afetiva com eles.

Tive dificuldades profundas de entender o que estava acontecendo, pois a coisa era muito mal feita. Talvez tivessem desejado ser irônicas, mas chafurdaram na lama. Foram esdrúxulas  do ponto vista estético,  e racistas,  na perspectiva ética. De maneira totalmente indefensável. Indesculpável, pois racismo é crime e não cabe pedido de desculpas, nem a simples retirada do vídeo do ar, como se ao fazê-lo, eliminassem o problema.

Em síntese, numa tentativa, talvez, de chocar suas iguais, de escancarar um imaginário das mulheres brancas sobre os homens negros, a dupla construiu  uma narrativa que oscila entre as imagens introjetadas do negro-ladrão, portanto perigoso, que pode lhes furtar a carteira, e a imagem do negro-garanhão, hipersexualizado. Para este, elas, mulheres aparentemente liberadas, cogitaram a possibilidade de “tirar a calcinha”, por livre e espontânea vontade.

Nesse imaginário, o guapo negro é algo irresistível, tanto pelo vigor físico, quanto pelo temor a alguma prática violenta, engendrada por esse mesmo vigor. O medo da violência também faz parte do fetiche, parece acrescentar um friozinho na barriga, um calor em outras partes do corpo, é o que elas no dizem no vídeo. Insistem que estas características (a violência e o ardor do corpo) estão, paradoxalmente, estampadas no rosto do homem negro. E elas têm dúvida se serão roubadas ou “comidas” por ele e parecem não saber se querem uma coisa ou outra, mas o certo é que querem (alguma ou as duas coisas) pois isso é tudo que uma mulher branca pode querer de um homem negro.

A coisa é tão ruim, tão filme pornô, que me ocorreu que elas possam ter pretendido alcançar o estágio superior da ironia, mas, como são péssimas atrizes e o roteiro e direção eram igualmente péssimos, não conseguiram, contudo, lograram reiterar a possibilidade de subjugar o homem negro que as torna poderosa. Isso merecia ser mais explorado e vou ajudá-las aqui.

Lembrei-me de uma conversa mantida com uma mulher branca, certa vez. Ela afirmava, de maneira muito relaxada, que preferia se relacionar com homens negros aos homens brancos. Curiosa, perguntei o porquê e ela me disse que além de terem “mais cheiro de homem”, a relação era mais leve, sem cobranças e tensões. Com os homens brancos a relação era mais competitiva e ela precisava se impor para não desaparecer. Com os negros, não, a coisa era “mais natural”.

Natural, coisa nenhuma. Era nítido que ela se sentia superior a homens negros que também a entendiam nessa posição e isso gerava conforto para ela. Disso decorre a relação mais relaxada. Os homens negros, por sua vez, acessavam “o filé”, e não importa que tenha sido o que o branco não quis comer. E, em retribuição ao fato de essa mulher tirá-los da condição de “negro qualquer”, de inflar um pouco sua masculinidade subalternizada, empenham-se em gentilezas e alto desempenho sexual para merecer (e manter) essa mulher-presente.

Dessas coisas as artistas do vídeo não falaram de maneira explícita, mas, seria interessante e inovador que tivessem dado esse mergulho.

Lembro-me também da história de Bianca, uma estadunidense que conheci nos anos 1990. Tínhamos uma amiga querida em comum. Bianca era loira, de olhos azuis, mas, sem características de peso e formas padronizados pelos ditames de beleza e apelo sexual vigentes. Pois bem, Bianca gostava de homens bonitos, com medidas determinadas de bíceps, peitoral, coxas, etc.

Ganhava salário de professora em dólares e nas férias ia a Cuba, para namorar os negros no perfil desejado. Nos Estados Unidos, seu país de origem, fisgava latinos ao longo dos meses de trabalho. Exibia as fotos dos moços e nos dizia: “eu nunca conseguiria um homem branco que chegasse aos pés desses deuses. Faço com eles uma troca justa, pego o corpo deles e ofereço minha brancura, que é o que eles querem de mim”.  No Brasil, seu novo roteiro turístico, como em Cuba, Bianca fisgou negros lindos. Lá como aqui, eles queriam se casar com ela para viver nos EUA. Ela ria e subvertia o uso que queriam fazer dela.

A transparência e objetividade de Bianca para estabelecer e explicitar relações de uso de corpos e manejo de códigos sexo-afetivos de poder e subalternização, a partir de seu lugar social de mulher branca, me impressionavam muito. Esse tipo de “descaração” faltou às moças do vídeo.

Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016). Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.
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Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016). Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.
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