APARTHEID SOCIAL: campanhas racistas reeditam Brasil exterminador de indígenas

Dos bugreiros, aos pistoleiros e crimes de ódio, racismo faz do país um lugar cada vez mais perigoso para os povos originários
Assassinato do professor Marcondes Namblá foi um massacre para povo Xokleng, que perdeu um líder adorado, um juiz, um músico-poeta e um formador de educadores (Foto: Clóvis Brighenti)

NOTA DE REPÚDIO DE UM PROFESSOR INDÍGENA

Por Nanblá Gakran*

Protesto no exato local em que o educador Xokleng foi morto a pauladas, em Penha (SC), reúne representantes de diversas etnias contra o crime brutal (Foto: Raquel Wandelli)

Brasil vive um apartheid social, com crescente racismo e campanhas de intolerância contra os povos indígenas. Desde a colonização do Brasil em 1.500, esses povos vivem um “contexto de apartheid”, um ambiente de absoluta intolerância e ódio. Passados 500 anos, crescem visivelmente nos últimos anos o número de lideranças vítimas de assassinatos brutais contra a demarcação das Terras Indígenas. Na madrugada de 20 de abril de 1997, cinco jovens de classe média atearam fogo no cacique Galdino do povo pataxó-hã-hã-hãe, que dormia no banco da parada de ônibus da 704 Sul, em Brasilia DF.

No início do século passado, integrantes do povo Xokleng foram caçados como animais por bugreiros (como eram chamados os assassinos profissionais de índios) contratados pelo governo da província. O ódio dos colonizadores era inflamado por mentiras publicadas na imprensa da época sobre uma difundida “índole violenta, traiçoeira e cruel dos indígenas”, que ajudava a justificar as atrocidades cometidas pelo Estado contra mulheres, crianças e idosos sequestrados de suas aldeias. Em nome dessa “legítima defesa”, era comum cortarem as cabeças de indígenas e pendurarem nos moirões como castigo exemplar.

Vemos que esse ódio ainda está presente quando, na madrugada do dia 1º de janeiro de 2018, um matador profissional assassinou covardemente a pauladas e pelas costas, o professor Marcondes Namblá. O juiz do povo Xokleng foi abatido como um animal depois de um longo dia de trabalho vendendo picolé em uma das praias catarinense para complementar sua renda.

Racismo e intolerância são conceitos necessários para explicar como a violência “gratuita” ocorre no Estado Santa Catarina do sul do Brasil. Um dos agravantes é a campanha intensificada nos últimos anos contra a demarcação das Terra Indígenas, ataques e contrainformações inverídicas veiculadas pelos meios de comunicação (TV, rádio, internet e mídia impressa). Em Santa Catarina, as populações não-indígenas, De modo a criar um ambiente de crescente hostilidade, campanhas racistas contra os povos indígenas cresceram nos últimos anos. Ataques de parlamentares da bancada ruralista provocaram denúncias de racismo na Região Sul do Brasil, que conta com o maior número de parlamentares ruralistas.

Pesquisador Nanblá Gakran, ao lado da nora Isabel Munduruku e do filho Carl aguardando audiência no MPF em Florianópolis para pedir investigação do assassinato. (Foto: Raquel Wandelli)

Como professor, pesquisador e membro do povo indígena Xokleng/Laklãnõ, repudio esse ódio e violência étnica, preconceito, intolerância e xenofobia em relação aos povos indígenas na Região Sul e principalmente no Estado de Santa Catarina. A violência contra nós, indígenas, é estrutural do processo histórico ao qual fomos submetidos.  Sistemática, diária, individual e coletiva, ela deixa profundas marcas físicas e psicológicas.

Nós indígenas não queremos muito, nós queremos viver, ter liberdade de circular como qualquer outro cidadão brasileiro. Queremos ser respeitados e vistos como seres humanos e não como intrusos.

(*) Professor Namblá Gakran é indígena pertencente ao povo Xokleng/Laklãnõ da reserva de José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí em Santa Catarina. Gakran é Doutor em Linguística pela Universidade de Brasília e, com o apoio de seu amigo, o jornalista Ozias Alves Jr, editor do www.jbfoco.com.br, está produzindo o primeiro jornal em idioma xokleng/laklãnõ, cujo objetivo é ser o canal de comunicação deste povo no Brasil.

http//lattes.cnpq.br/5549612741224837

Sociólogo pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI

Mestre em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

Doutor em Linguística pela Universidade de Brasilia – UnB

E-mail: memoria.xokleng@gmail.com

Mais informações sobre o assassinato do líder e educador Marcondes Namblá, juiz da Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng:

ETNOCÍDIO NO ANO NOVO: Professor indígena é brutalmente assassinado em Santa Catarina

REVOLTA XOKLENG: “Prenderam o assassino, mas não chegaram aos mandantes do crime”

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