A “bixa” da vez

Por Fernando Horta, especial para os Jornalistas Livres

Fui criado por uma das maiores pessoas que conheci. Não falo aqui dos meus pais que tem óbvia parte neste processo, mas falo de um negro, homossexual, pai-de-santo e pobre que – na época do meu nascimento – ajudou meus pais e foi ajudado por eles.

Nós morávamos num bairro de classe média (alta, àquela altura) e ele passeava pela vizinhança causando um misto de revolta e indignação na população branca que se achava rica. Várias vezes, enquanto criança, presenciei ofensas e desrespeito à sua pessoa. Coisas que hoje, mais de 30 anos depois, seriam claramente enquadrados em crimes como racismo e homofobia.

Mas eram outros tempos. Tempos que alguns sentem saudade. Tanta que são capazes de jogar o país no limite do caos. Até o falecimento desta pessoa, no início do século XXI eu regularmente ia até a casa dele conversar, ouvir, aprender… E não me conformo até hoje de não ter feito mais por ele e por mim.

Ele me ensinou o conceito de “bixa da vez”. Quando alguma “colega” (como ele chamava) começava a despontar na mídia meus pais ficavam felizes. Aquela felicidade de branco heterossexual envolvido na luta contra o racismo e o preconceito. E diziam: “Olha aí, para dar na cara da sociedade!” E ele sabiamente dizia: “Esta aí é a bixa da vez”.

Um dia perguntei a ele o que era a “bixa da vez”. A resposta foi uma aula de sociologia, antropologia e história. De tempos em tempos a sociedade (branca, capitalista, heterossexual, patriarcal e etc.) escolhe alguém que seja das minorias violentadas para dar um “passeio lá por cima”. Normalmente envolve ganhar dinheiro, ficar famoso e fazer os que tem alguma vontade de uma sociedade mais justa acharem que “agora vai”. É a “bixa da vez”.

A bixa da vez tinha que ter três características, segundo ele: ela tinha que estar num num estrato aceitável para a população branca. Isto significava que não podia carregar as demandas por igualdade, mas apenas – quando muito – um grito, uma nesga de visibilidade para aqueles que são invisíveis. Ela precisava ser o mais “neutra” (apolítica) possível. Sem levantar nenhuma bandeira ou usar seu recém-ganho espaço para reivindicação. E ela tinha que paulatinamente deixar o grupo social de onde veio para continuar a ser aceita no mundo que estava sendo convidada.

O conceito de “bixa da vez” reunia, numa só ideia, a crítica ao “esquerdismo” de Lênin, os processos de culpa e expiação da psicanálise, o conceito de hegemonia de gramsci, e toda a teoria sobre os processos simbólicos de controle da violência social. Tudo, tudo isto numa só expressão: “A bixa da vez”.

Em pouco tempo a “bixa da vez” passava, os grupos sociais que parecia que ela representava continuavam nos mesmos lugares, o sonho das populações brancas com alguma noção de ética social era acalentado, mas ficava nisto. Logo surgia outra “bixa da vez”, e assim sucessivamente.

O conceito de “bixa da vez” no meu entendimento explica Maluf, Anitta, Pablo Vittar e o “empreendedorismo”, por exemplo. A “bixa da vez” não muda nada. Ela só é a bixa da vez, na realidade, se não mudar nada.

Se houver a mínima possibilidade de mudança os estamentos superiores barram e não deixam que ela apareça.

Como eu queria que as “bixas da vez”, todas elas, lutassem por democracia e inclusão em 2018, mas acho que estão, cada uma, mais preocupadas com suas contas bancárias. E é exatamente assim que o sistema se mantém.

Edit 1: É possível que, na sua primeira eleição, as elites brasileiras tivessem tirado Lula para “a bixa da vez”. Mas daí ele fez crescer o PIB como há muito não se via, tirou a população da pobreza e investiu em educação. Acho que ele enganou direitinho as elites e elas não perdoam.

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2 comentários:
  • realista@hotmail.com
    6 janeiro 2018 at 22:27
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    Lula, a bixa da vez ? ? ? ? ? Foi ele quem tirou a esperança dos filhos do Plano Real dos dois governos de FHC. Esperança de enfim sermos um país de primeiro mundo, desenvolvido e sério. Lula e Dilma em 14 anos acabaram com essa esperança. Muito populismo, demagogia, corrupção ( Mensalão, Petrolao, Empreiteiras e Frigoríficos ), incompetência e desgoverno. Um bolsa família desvirtuado, desnormatizado e não fiscalizado. Um projeto de perpetuação no poder do PT. Uma quadrilha de malfeitores a roubar dinheiro público. Sítio, apartamentos, filhos enriquecendo … A bixa da vez deu muito errado ! Quase nos tornamos uma Venezuela, uma ditadura disfarçada de democracia. PT nunca mais ! ! ! Lula nunca mais ! ! ! Esquerda burra, antiquada, antiga, atrasada, demagoga, populista, retrógrada, estúpida, ditadorial ! Nunca mais ! ! ! Vão viver em Cuba, Venezuela ou na Coreia do Norte ! ! ! Deixem o Brasil se desenvolver, progredir, se modernizar, democraticamente e sem corrupção. Fora esquerda caviar !

  • Patrícia de Oliveira Cardoso
    7 janeiro 2018 at 21:07
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    Caríssimo realista@hotmail, vocês já tem tanto espaço no Jornal Nacional, Fantástico, G1, UOL, Estadão e outras mídias manipuladoras pertencentes às oligarquias, por que destilar o seu ódio numa mídia que está tentando ocupar um espaço de democratização da informação?

    Parabéns Fernando Horta, excelente texto! Desde que vi o título fiquei curiosíssima e só agora pude ler, não sei mas acho que ele conversa com este texto que amo de coração http://agenciasportlight.com.br/index.php/2017/10/13/adriano-imperador-eduardo-galeano-e-uma-imprensa-que-nao-olha-o-proprio-rabo/
    É como se o pobre não pudesse ter talento e quando consegue alcançar a fama só pode ir a determinado ponto,jamais alçar às castas que ditam regras, regras estas que nem elas cumprem só mesmo o pobre trabalhador. Também me fez lembrar do apolítico Clodovil. Pela democratização das informações! Justiça sim, Justiçamento não! Lula 2018!

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