CASO DANDARA TONANTZIN: QUEM PODE USAR TURBANTE NO BRASIL?

Por Hermínio Porto, dos Jornalistas Livres
foto Letícia França | Jornalistas Livres

Quando o assunto é “apropriação cultural”, algumas pessoas perguntam: “Branco pode usar turbante?”. Este texto não pretende se resumir a responder esta pergunta, ou discorrer sobre o que seria ou não apropriação cultural. Antes de formular a questão “se negros e negras podem usar turbante”, que me parece mais adequada, eu preciso perguntar a vocês, leitoras e leitores: Dandara Tonantzin tem direito a usar turbante e, mais importante ainda, buscar justiça?

OS FATOS

Foi no dia 22 de abril, deste ano, que o Brasil foi descoberto, mais uma vez, em sua face racista. Descoberto não no sentido de conhecer algo novo, mas de tirar a manta racista que encobre o nosso país. Se na “descoberta” de 1500 teve início um ataque atroz contra as vidas e ancestralidades indígenas, em 2017, atacou-se uma jovem mulher que reivindica a cultura e indumentária de sua ancestralidade africana. A conexão entre 1500 e 2017 está imbrincada em mais de cinco séculos de supremacia racista.

Dandara Tonantzin foi “descoberta” pelos “homens brancos” no “PALÁCIO DE CRISTAL”, local de festas onde se demonstrou, apesar do nome burlesco do local, que o racismo não é um conto de fadas criado para assustar jovens e crianças negras. Dandara, que estava na festa, naquele dia 22 de abril, não conhece ilusões, mas somente fatos. Infelizmente, trataremos de um fato cruel.

Conforme depoimento à polícia, Dandara, que fazia filmagens na dita festa, fora abordada de forma desrespeitosa e racista por um homem que parecia incomodado pela cor que ela tem e o turbante que ela usava na cabeça (até agora não falei sobre fenótipo, mas é possível auferir quem é a pessoa negra e a pessoa racista). Diante da rejeição inicial à provocação que praticava, este mesmo sujeito, desconhecido por Dandara, teria chegado com outro rapaz. Os homens começaram um festim racista que logo atraiu outras pessoas. Dandara não mais vista como mulher que é, se tornou para eles o “objeto” de sádica algazarra. Quando se viu, Dandara estava no meio de cerca de cinco homens, que teriam lhe insultado, jogado cerveja e arrancado seu turbante.

Em tempos de exaltação da “zoeira”, leitores e leitoras, poderia Dandara ter se sentido ofendida? Teria ela o direito de reclamar de jovens que estavam naquela festa para “comemoração” e “diversão”? Sigamos com os fatos.

Incapaz de fazer justiça com as próprias mãos, por superioridade moral e inferioridade numérica, buscou o auxílio dos seguranças do “Palácio” que, após identificarem alguns dos agressores, os retiraram da festa. Um deles teria tentado argumentar, mas a quantidade álcool era grande demais para sequer formular alguma frase coerente (o que é paradoxal, pois não há nada de coerente na própria ideologia racista).

Era para ser o fim…

Dandara foi ao banheiro, provavelmente para se limpar da cerveja que secara em seu corpo deixando aquela sensação desconfortável. Lavaria o rosto e voltaria de cara limpa, um pouco mais calma, talvez. Não há mal em fazer isto e, mais uma vez pergunto, ela tinha o direito de fazer isto, certo?!

Chegando lá, sem que mal tivesse feito a ninguém, foi assediada moralmente pelas namoradas dos rapazes que foram expulsos do Palácio. Um novo cortejo se formou, em que Dandara ouvia insultos e ameaças de espancamento, além de mais cerveja jogada em seu corpo. (Este negócio da cerveja, não sei pra vocês, me parece mais uma forma de comemorar a vitória do racismo sobre a razão, tal qual paródia grotesca do champanhe na Fórmula 1).

Eis que no máximo possível de sua razão, um homem teria gritado que não se deveria jogar cerveja, quando deveriam jogar fezes (merda/cocô). Não sabia ele, que as palavras dirigidas contra Dandara teriam igual função? “Joga pedra” na Dandara; “Joga bosta” na Dandara; Dandara é “feita pra apanhar” e “é boa de cuspir”. A realidade não tem poesia, e a música parece mais assustadora quando Dandara foi posta como Geni.

Não vá embora, vai começar o julgamento.

A JUSTIÇA?

No dia seguinte, 23 de abril de 2017, Dandara buscou a polícia, como cidadãos “de bem tementes à lei” fazem, para que fosse lavrado Boletim de Ocorrência, primeiro passo para abertura de processo criminal.

Em 28 de abril, foi feito termo de declaração, onde mais uma vez, sem apresentar contradição, narrou mais uma vez os fatos. O segurança Silvano Tomaz da Silva também compareceu e, diante dos “homens da lei”, teria confirmado os acontecimentos relatados por Dandara.

No dia 03 de maio, um dos agressores compareceu, colocando seus comparsas e a si mesmo como vítima das maquinações de Dandara. O que fora descoberto no dia 22, tentou velar no dia 3. Outros depoimentos se seguiram. Substituiu-se os fatos pela fantasia. Eis aí o conto de fadas: o rei está nu, e até as vísceras de seu racismo poderiam ser vistas por quem quisesse ver.

Mas de fato quase ninguém quis…

Aos 14 de junho, Frederico e Thiago foram indiciados por incorrerem no crime previsto no artigo 140, § 3º, do Código Penal, a tão conhecida “injúria racial”. Nenhuma outra pessoa foi indiciada, restando no máximo a condição de testemunha (de defesa… dos racistas!).

Já no dia 14 de agosto, o Ministério Público de Minas Gerais, “representante do interesse público”, “fiscal da lei”, opinou pelo arquivamento do caso, que no dia 13 de setembro foi acolhido pelo juiz Dimas Borges de Paula.

Eis os nomes do impunes:
Frederico, Thiago, Bárbara, Bruna e Gustavo ficaram livres e, de fato, não apresentam nenhum perigo para você*.

O TURBANTE

Foto Letícia França | Jornalistas Livres

Que a turba daqueles que me perguntam saiba:
Branco pode usar turbante por um simples fato: numa sociedade racista, brancos podem tudo. Podem ser pessoas incríveis que refletem sobre sua própria condição numa sociedade racista ou podem cometer crimes e ficarem impunes, tais quais as pessoas no caso relatado.

Mas eu te pergunto:
Uma pessoa negra tem direito a usar turbante ou qualquer outra indumentária sem ser vilipendiada em sua dignidade?

E a jovem Dandara Tonantzin, pode usar turbante, ser livre, respeitada e ter acesso à Justiça quando algum direito lhe for negado?

*Se você for branco, claro!

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3 comentários:
  • Uma brasileira branca combatendo seus próprios racismos incorporados
    19 dezembro 2017 at 1:18
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    A reflexão do texto com a reversão da pergunta ficou muito interessante. Me deixou com lágrimas nos olhos ao final. Sou uma jovem adulta branca latina e não consigo entender como outras pessoas com a minha cor de pele conseguem se sentir superiores por isso e aptas a agir dessa maneira, só para começar, covarde; além de grotesca e atentatória à dignidade alheia. Sequer posso dizer que é inacreditável que isso ainda ocorra em pleno 2017, porque, infelizmente, vemos atitudes racistas cruéis todos os dias, ainda assim, é totalmente lamentável que jovens se comportem assim, e ainda fiquem impunes.
    Espero poder ajudar, desde o meu espaço de mulher branca nesta sociedade, a transformar a forma como lidamos com as diferenças étnico-raciais, começando por mim mesma, a derrubar a cada dia os racismos incorporados que eu com certeza ainda tenho, e a aprender, mais que ser não-racista, a ser antirracista. Perdão, Dandara. Você é uma guerreira no nome e na vida!

  • Ana Maria Matos de Sá
    20 dezembro 2017 at 21:36
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    Eu sou branca, de olhos verdes,cabelos claros e não me sinto bem assim há muito tempo, pelo contrário, tenho até muita angústia. Nosso país sempre foi racista, “coronelista” e de uns tempos para cá, parece que regredimos muito nas questões humanitárias. A estupidez prevalece: nas ruas, nos transportes públicos, na falta de cuidado com idosos em espaços públicos e por aí vai…, com a questão do racismo então, está cada vez pior, quem é contra tem que se envergonhar de não tomar atitude, reclamar,denunciar, VOTAR EM QUEM PRESTA, ainda temos algumas possibilidades viáveis…e você Dandara, me representa, sendo forte, lutando por um lugar melhor para se viver…

  • Vinicius Souza
    21 dezembro 2017 at 10:59
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    Apenas um detalhe importante: a linda foto de abertura da matéria é da fotógrafa Letícia França

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