SOLTANDO OS BICHOS

carta do amigo do Texas.

Ah, meu caro amigo José partira. Era tarde de sol, mas trovões falavam à noite que viria chuva. Assim foi, a noite, José e um céu sem aviões. José partira para os States. A humanidade vai ora soltando os bichos, ora impondo seu churrasco. E agora , José?

Em Austin sei, hoje está nublado, 26ºC ou 78ºF.  O planeta que gira no cosmo busca algo ou é simplesmente física e seu enredo no espaço? José me escreve, no Texas ainda existem cartas:

“Estou hoje pela primeira vez escrevendo novamente. Há pouco tempo para mim e sinto falta de estar conectado ao meu mundo, como ativista. Daqui, de onde estou, o Brasil parece ser pura rebeldia e teimosia, insistindo em continuar desfazendo sua própria nação. Parece mesmo, quando penso, não reconheço mais a polpa de nossa gente política. Onde está aquela força libertária e progressista? Existe ainda? Estranho ler as notícias e desconhecer nossos representantes do momento político, fundamentalista, me dói. Onde iremos parar ou começar de novo, na igreja misturada no Estado?

Parece que faz um ano que cheguei a Austin, e não faz nem uma quarentena. Tenho tido muito pouco tempo para me comunicar com a família e amigos, estou imerso em uma nova cultura de trabalho e buscando aprender a cada segundo com o incrível tráfego de informações novas no ofício da sede. Busco ser aceito pelo meu grupo e aprender sobre os programas e equipes do setor de marketing.

Estranho. Desde que lhe escrevi a última vez tenho trabalhado muito, me dedicado 100% ao aprendizado. Tem sido difícil. Insisto em colocar minhas questões, dar opiniões, insisto em ser organizado, em participar, mas na verdade não posso ter voz, não posso ter iniciativas, não posso exercer meu treinamento de anos, não existe liderança.

É minha primeira participação no mundo corporativo. Também é estranho estar exercendo funções fora do meu mundo humanista e artístico, me rouba a alma, sinto culpa. Aqui tem sido solitário demais, não há aliados, não há ativismo. Estranho demais.

Há o excesso de tudo. Excesso de tecnologia. Excesso de alimentos locais, orgânicos, alimentos frescos e sem hormônios. Excesso de diversidade. Excesso, excesso, excesso quando o mundo do lado de fora da porta do prédio sente tanta falta de tudo o que há lá dentro. Eu que trabalhava em campo para meus projetos, quando não havia chuveiro nem água. Não havia alimentos, medicamentos, não havia segurança. E agora trabalho em um mundo seguro onde vou na “geladeira eletrônica”,  escolho o meu fone de ouvidos ou meus eletrônicos que preciso para me auxiliar no trabalho, como se estivesse em um parque de diversão, aqueles que você põe a moedinha e tenta tirar o prêmio, lembra? Só que não tem moedinha…

Estranho. Há doces e guloseimas pelos corredores, Helio, isso é uma bolha tecnológica, um laboratório social. Adoro trabalhar lá, fazer parte da equipe, mas é um mundo diferente. Será que sinto culpa por não estar trabalhando na minha esfera social, humanitária?

Eu, às vezes, me desapego com a vida, fico inquieto sem aceitar o jeito que a vida é: te rouba daqui, te leva ali e você fica, às vezes, nessas ciladas. Estou em uma agora, um mundo diferente, tudo diferente. É assim, quando me desespero nesse mundo aqui, saio e vou para o canto da cidade onde tem música e gente, e luzes coloridas, e bares. Vejo soldados, guerreiros sem luzes, solidão, solidários, decadentes, anjos caídos. Vejo gente buscando amor, gente buscando gente e calor e me parece que todos nós estamos muito sozinhos e sem saber como se conectar com o outro, tudo meio que quase indigente. A música preenche todos meus vazios.

Gosto de andar sozinho nas ruas durante a noite.Tudo o que faço é observado pela equipe que integro, não tenho privacidade, tenho que me acostumar com tudo isso. Não consigo mais alcançar as pessoas, estou isolado, não há alcance, somente resistência, medos, anseios, defesas.  

Não tenho medo das pessoas, nem que me machuquem. Ando no escuro, a noite tenho tempo e sei que é perigoso, mas ando mesmo assim, converso com estranhos. Pura ambivalência, me exponho e claro me escondo. “

Ah, meu caro amigo José, a humanidade vai ora soltando os bichos, ora impondo seu churrasco. E agora , José?

Categorias
crônica
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

AfrikaansArabicChinese (Simplified)EnglishFrenchGermanItalianJapaneseKoreanPortugueseRussianSpanish