O MTST É GENTE ARRANCANDO A VIDA COM AS MÃOS

Marcha do MTST faz história
MTST em Luta

Em pleno 2017, período que deveria ser democrático no país, os sem-teto enfrentaram a censura que proibiu Caetano Veloso de realizar um show no acampamento do MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, na última segunda (30), mas isso não tirou a coragem dessa gente que já na madrugada da terça (31), enfrentou 23 km de caminhada, quase 10 horas de asfalto, calçadas, buracos, sol, chuva, frio e calor pra reivindicar moradia ao governador Geraldo Alckmin.

Alckmin não deve dar a menor importância para isso. E conversando com amigos sobre a admiração que tenho pelo MTST, me veio à mente a canção Linha de Montagem, de Chico Buarque, que diz:

“Eu não sei bem o que seja/Mas sei que seja o que será/O que será que será que se veja/Vai passar por lá”

estrofes que descrevem a importância dos mais de 100 mil trabalhadores sem-teto terem ido pressionar o Estado, por um direito fundamental: a moradia. Eles passaram bonito por diversas avenidas e ruas de São Paulo. De chão em chão, de casa em casa, de prédio em prédio, dos mais simples aos mais luxuosos, muita gente aplaudiu, filmou, fotografou e gritou junto em apoio ao movimento. Coisa rara de se ver em tempos de golpe. Eu senti até alguma empatia dos ricos com os mais pobres, de novo, coisa rara de se ver.

Cada rosto mostrava uma história de vida sofrida. Eu me orgulho de ter aprendido mais um pouco sobre o que é vida com aquela gente. E quero lembrar que quando Caetano Veloso deixou o acampamento do MTST, depois de proibido de cantar, ele declarou que sua canção “Gente” seria dedicada aquele povo. Acho que essa é uma verdade absoluta, pois na caminhada, vi aquela gente “arrancando a vida com a mão”, a vontade daquele povo de chegar ao QG de Alckmin era tanta, que era como se estivessem arrancando, com as mãos, dos poderosos, a vida que tem direito. A vida é o teto e o teto é a vida.

Mais uma vez, em anos de experiência no Jornalismo, as desigualdades sociais apareceram nuas e cruas para mim. Diferenças injustas, pra refletir sobre o que a classe média e as elites burguesas pensam que estão fazendo nesse Brasil. E a canção de Caetano voltou pra cabeça, e percebi que há um ponto dela que naquele momento não tem nada a ver com a realidade: “Gente quer comer/Gente que ser feliz” e eu me perguntava: como eles vão conseguir isso? Eu ficava tomada de revolta e tristeza, pois no que depender de “gente” como Alckmin, esses irmãos estão perdidos.

Minhas penas não aguentaram fazer a caminhada toda a pé. Não aguentei porque não sou de “couro grosso” igual ao Povo Sem Medo, admito. Tenho muito para aprender e viver ainda com eles. Por isso, num dado momento, pedi carona num daqueles caminhões de som e dali tive uma visão privilegiada, afetiva e extremamente emocionante.

A visão de uma massa vermelha fez meus olhos derrubarem lágrimas que eu nem percebi que estavam caído. Um jornalista da Telesur, olhou para mim e sorriu. Na minha cabeça, a massa se tornou um grande coração pulsante, vibrante. De cima, muitos olhavam para a câmera que eu carregava, eles sorriam, brincavam, cantavam como se 23 km de cansaço não fossem nada perto da história de luta de cada um deles.

Alckmin tem um Palácio para morar, trabalhar, os sem-teto tem lona levantada com madeira, em chão rústico, de mato, de rua, então, na triunfal chegada ao QG do governador, chamado ironicamente de ‘Palácio dos Bandeirantes’, eu desabei de emoção. O coração vermelho de gente, que eu avistava no trajeto da caminhada, levou vida aquela imponente construção.

Alckmin não recebeu o MTST

Embora Alckmin não tenha recebido os sem-teto, ele mandou representantes: Rodrigo Garcia, secretário de habitação e Samuel Moreira, Chefe da Casa Civil. A conversa foi dura e teve quase 3 horas de duração.

Depois de quase 10 horas de caminhada, os sem-teto mereciam mais sensibilidade. Mas porque esperar isso de alguém que vive em Palácio? Não faz sentido. Uma reunião ficou agendada para o próximo 10 de novembro. Jogaram a responsabilidade da discussão por política de moradia pra frente. Empurraram com a barriga? Não sabemos.

No dia 10 de novembro, o MTST quer respostas. Eles querem que um cadastro das pessoas que estão na Ocupação em São Bernardo do Campo seja realizado. Desejam também uma solução que busque encontrar terrenos que estão sem função social, para as pessoas serem contemplados com moradia digna e o compromisso para evitar uma reintegração de posse violenta no terreno no ABC paulista.

Linha de Montagem, de Chico Buarque, foi lançada num show 1º de Maio (álbum) em 1980.

“Gente”, canção de Caetano Veloso, foi lançada em 1977

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