JOÃO

Texto de Eudes Manoel Oliveira Cardozo, Bacharel em História pela PUC-SP, para os Jornalistas Livres

João Antônio existiu. É o que contam de Copacabana à Presidente Altino. Entre dois dos diversos mundos possíveis dentro deste diverso mundo, João Antônio viveu. O maior antropólogo, historiador e sociólogo que já viveu. Tem que ele não quis ser cientista social. Quis ser jornalista, contista, jogador de sinuca e chutador de tampinhas. O melhor chutador de tampinhas que o mundo já conheceu.

Assim como viveu… João Antônio morreu. Antes de morrer sumiu, desapareceu como sempre desaparecia. Acharam normal. Quando deixou de ser normal o procuraram. Foi então que o acharam. A bem da verdade… Não era mais ele o que acharam após três semanas de buscas. Não, não era mais ele. Era o resto. Tem que o resto do João Antônio é muita coisa. É coisa pra caralho!

João Antônio levou com ele três prêmios Jabuti. Deixou dez livros prontos e dois inéditos. Deixou um jeito de olhar e narrar o vivido que nos esforçamos em esquecer. Segundo contam João Antônio era um narrador benjaminiano . Desenvolveu em suas andanças por salões de sinuca uma arte hoje esquecida, a capacidade de narrar o experienciado. Uma metodologia de pesquisa quase que impossível de reprodução. A academia hoje esboça um movimento de resgate do João Antônio. Tal qual de seu desaparecimento quando morreu, empreendem agora uma busca ao João.

A academia anos após a morte de João o encontrou. Não pode, no entanto, decifrá-lo. Não pode interpretar João Antônio. Muitos tÊm se empenhado. Seguindo à risca as bizantinices escolásticas, muitos têm tentado interpretar João Antônio. São esforços notáveis. Os métodos de investigação, no entanto, não abarcam o investigado. A academia é européia, francesa, frankfurtiana, foucaultiana. A academia é uma extensão do braço colonial. E nisso talvez resida um fim para o fim pretendido. O fim da possibilidade de se interpretar João Antônio. Nosso maior intérprete. Ele não gostava de vinho, nem de charutos. João Antônio gostava de samba, de cerveja e sinuca. Há que se estabelecer aqui que sinuca não é snooker, nem bilhar. Sinuca possibilita o “jogo da vida”. Snooker é fechado, é o que se propõe e nisso se encerra. Só a sinuca permite um prego de bico. Só o Brasil produziu essa variação do jogo, essa adaptação à realidade nacional.
O ataque impossibilitando a saída do adversário, a cilada como possibilidade de sobrevivência e permanência. João entendeu isso. Entendeu também um tanto do andar de cima. João não era de esquerda nem de direita, ele era de baixo.

O Morro da Geada em Presidente Altino, onde o João nasceu, é distante demais das bizantinices escolásticas européias. A modernidade se recusa a subir morros, a pós-modernidade não põe os pés em Osasco. A pós-modernidade, aliás, é o melhor pretexto já inventado para que a academia não coloque os pés em qualquer morro. Pós-modernidade é mais um eufemismo para xenofobia. E que Deus e Fucô a proteja e guarde onde está, que o povo terá sempre seus Joãos e Carnes Fritas para melhor lhes dizer e compreender.

A distância entre a academia e Presidente Altino é proposital, é viração. Trapaça, mutreta. Isso é conluio e o João sacou a armação antes de partir. Vai ver por isso ele sumiu. E deu um jeito de levar consigo também os seus restos corpóreos. Deixou pra trás uma marca, uma evidência. Um estudo completo sobre o abismo social nacional. Nosso apartheid velado. Nossa indiferença mascarada. João está sendo investigado, suas virações chamaram a atenção das autoridades acadêmicas e academicistas. A intimidade de João hoje é indagada por quem nunca lhe deu a devida atenção em vida. Pretendem descobrir seus processos criativos. Suas fontes de inspiração, sua ligação com o submundo, seu estilo. Atribuem a ele a pecha de narrador onisciente, exegeta dos excluídos, João foi tudo isso. Foi mais, foi antes de qualquer outra coisa, gente. Foi gente de sua gente. E gente, ao menos por enquanto ainda não é leitura obrigatória nas ementas das ciências sociais. Quem sabe com João, agora, por fim. Eles se aproximem um tanto mais do seu objeto de pesquisa. Quem sabe, ao compreender das distâncias, ao verificar o abismo, a academia desvende que o laboratório de pesquisas de João foram os bares, as vielas, os salões de sinuca, as quebradas. Talvez a academia passe a se valer de gente, para desvendar o mistério joantoniano.

Em seu trânsito livre entre os muitos mundos existentes dentro do mundo, João, devido à sua picardia, tornou-se um embaixador do submundo alocado nos salões e canapés da elite. Um diplomata com a desenvoltura que só um malandro poderia desempenhar. Seu maior trunfo, anos após sua morte é exatamente esse, ter dominado as muitas linguagens pertinentes a cada um dos mundos.O fim, ao fim, é exatamente esse. João Antônio é povo. Por isso pode ler e dizer do povo com tamanha perspicácia. A academia não entende de João algum. Hoje costumam chamar o João de gênio, saibam que ele dispensaria a “honraria”. Preferiria ser chamado de gente. Quem sabe de cobra? Mas sem dúvida alguma ele deve ser chamado de sobrevivente, de guardador do saber popular, e da ciência das virações dos malandros. Sua obra é um chamado à gente. E gente é coisa que a academia ainda está longe de entender.

Guarulhos, rua Cem, 28 de outubro de 2017.

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