Desastre de Mariana: resistência e sede de justiça

Por Josué Gomes, para Jornalistas Livres

Poeira, injustiça, dor, e resistência. Esta é a realidade deixada pela a avalanche de lama provocada pelo rompimento da barragem de Fundão,  no dia 04/11/15, localizada em Bento Rodrigues, subdistrito do Município de Mariana.  Após dois anos do ocorrido empresas e pessoas responsáveis pelo crime permanecem impunes. No último domingo o Movimento de Atingidos por Barragens relembrou a injustiça que envolve o maior desastre ambiental do Brasil começando as atividades do “Dois anos de lama e luta”, evento que contou com uma programação variada nos dias 05 e 06 de novembro.

Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

“Acabou-se a casa dos meus avós, em Bento Rodrigues, onde durante toda minha vida nós nos reunimos para rezar”. – Disse dona Efigênia Caribina aos que estavam presentes na porta do Centro de Convenções de Mariana,antes entoar, apenas com sua voz, o Canto das Três Raças de Clara Nunes, simbolizando a dor que a impunidade a relembra diariamente. Assim se deu o início da concentração para o ato nas ruas da cidade de Mariana, que junto a uma série de missas nas ruínas deixadas pela enxurrada de rejeitos da mineradora Samarco integraram o primeiro dia da articulação do MAB. Efigênia foi a pioneira de muitos que dividiram uns com os outros sua revolta contra o esquecimento do crime. Em uma conversa ela me disse que se sente indignada com o jeito que os rios estão sendo tratados. “A maioria das pessoas hoje em dia pensam em viver com os bolsos cheios de dinheiro.” E relatou mais uma vez parte de sua crença em um mundo com respeito à natureza cantando os versos de uma música de sua autoria:

Amanheço, eu abrindo a janela, ouço um canto tão triste, que fala de amor

Um sabiá com suave melodia pedindo piedade, piedade senhor

É preciso que os homens entendam que a natureza precisa de amor

É preciso que os homens acordem e que não destruam florestas em flor.

Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

Após o momento de fala de entidades e atingidos a marcha seguiu pelas ruas da cidade de Mariana. Mulheres, crianças e homens que carregam consigo a dor de terem tido  suas vidas abaladas pelo desastre caminharam pelas ruas da cidade proferindo palavras de ordem e de denúncia contra os verdadeiros culpados pelo ocorrido. Em seguida uma missa foi rezada para os atingidos na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, localizada no centro histórico. No dia seguinte uma audiência pública foi realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais para discutir a situação das pessoas que vivem no entorno da bacia do Rio Doce e a Política Estadual dos Atingidos por Barragens e outros Empreendimentos. 

A impunidade

Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

O rompimento da barragem de Fundão, pertencente à mineradora Samarco, controlada pelas empresas BHP Billiton e Vale S.A provocou 19 mortes e poluiu intensamente a Bacia do Rio Doce , que banha ao longo de sua extensão 228 municípios habitados por mais de 3 milhões de pessoas. Em 18/11/2016 a Justiça Federal aceitou a denúncia proposta pelo Ministério Público onde 21 pessoas e as três empresas eram acusadas de cometer  o crime de homicídio qualificado com dolo eventual (quando se assume o risco de matar), além de uma série de crimes ambientais. Entretanto, atualmente o processo segue sem nenhuma prisão ter sido efetuada devido a um pedido de anulação de escutas telefônicas feito pelos advogados de Ricardo Vescovi e Kleber Terra, contudo os processos civis como reparação ambiental e indenizações não sofrem interferência.

Enquanto os mecanismos da justiça brasileira funcionam de maneira lenta e que não visualiza o problema de modo geral, a vida dos atingidos permanece em um estágio de incertezas e revolta. “Para nós do MAB é importante não deixar que o crime entre em um processo de esquecimento, porque hoje nós vivemos um momento que o crime já aconteceu há 2 anos e até então a empresa não teve nenhum tipo de responsabilidade e respeito com os atingidos como um todo. Cada dia que passa os direitos violados vão se multiplicando, pois quando você não tem um projeto de vida para dar continuidade na construção da sua família e comunidade, você entra num processo de perda de estímulo, de consciência, de sonhos, o que nos causa um desânimo, enquanto a Samarco está retomando seus diques. Também estamos denunciando o processo de demissão de 40% dos funcionários que viviam da mineração, em nossa opinião esses trabalhadores deveriam estar recebendo o seguro desemprego e colhendo os frutos de seu trabalho.” Disse a integrante Sôniamara Maranhão.

A irmandade traz esperança  

Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

O Dois Anos de Lama e Luta trouxe consigo uma parte da tragédia que nos une enquanto sociedade e enquanto seres vivos que compartilham de um mesmo espaço de harmonia e desordem. Em meio a um cenário em que a força do capital se mostra tão devastadora ainda é possível enxergar a força que a bondade e o respeito à natureza podem gerar os frutos da salvação.

No domingo diversos parceiros do MAB se uniram em Mariana para demonstrar resistência, entre eles a ONG Associação Pachamama que foi feita de instrumento para que o tão sofrido Rio Doce pudesse falar em defesa de si em uma ação judicial na Justiça de Bleo Horizonte. O fato ocorreu em conjunto a mobilização nacional  1ª. Pororoca da Nación das Águas, que reuniu pessoas em mais de 30 cidades brasileiras em defesa das águas e da natureza.   

Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

Nós enquanto associação estamos ingressando com uma ação judicial  tenta fazer com que a Bacia do Rio Doce seja reconhecida como sujeito de direitos. Se acompanharmos os movimentos que vem acontecendo alguns anos na América Latina é possível ver que renasce um novo direito de dar voz à própria natureza, à Pachamama, à Madre Tiera.  Esse nome vem surgindo dentro de espaços da constituição do Equador e da Bolívia, como um jeito de ser, uma forma de acreditar no mundo. Esse viés se espalhou depois que o equador reconheceu o Rio Cabamba como sujeito de direitos, alguns outros países assumiram dentro do poder judiciário essa mesma linha de trabalho, como Nova Zelândia, Índia e mais atualmente a Colômbia com o Rio Atrato.

O rio então se torna uma pessoa, como se fosse uma pessoa jurídica e que tem voz e força para manter relações civis e judiciais. Estamos então quebrando um paradigma, tirando o homem e capital dos centro das relações e fazendo a própria vida retornar a esse lugar, para assim recuperar um vínculo perdido.”  Afirma a presidente da associação, Graziela Astreia. Astreia ainda completa dizendo que a inovação desse tipo de ação é a aparição do rio falando em primeira pessoa, “a própria Pachamama falando, fazer com que a vida assuma seu lugar de poder”

Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

O advogado da associação, Lafayette Novaes, explica que o que a ação pretende fazer é forçar o estado a tomar providências. “Pedimos para a Justiça que obrigue o estado a elaborar um plano de proteção e prevenção, para que tragédias como a de Mariana não possam se repetir, junto a isso pedimos que os municípios no entorno da Bacia do Rio Doce também elaborem um planos de preservação, protegendo então todas as pessoas que vivem em comunhão com o rio.”

A união de boas intenções e a força dos atingidos têm a capacidade de fazer com que a vida seja novamente restabelecida para todos aqueles que experienciaram esse crime. É necessário que a justiça possa ser feita e que ela atue do lado dos trabalhadores da mineração e do campo, dos pescadores, dos ribeirinhos, dos indígenas e quilombolas, devolvendo assim ao povo aquilo que lhe pertence, a  paz e o direito à moradia e segurança.

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