A seletividade no caso da Ministra Luislinda Valois, por Gabriel Nascimento

Quantos brancos com acúmulo de salários vocês já criticaram hoje?...

Luslinda Valois é uma juíza negra brasileira, filiada ao PSDB.

Em alguma medida ela deve saber o que é integrar os menos de 18% de juízes negros que existem no país. Se botar chocalho, tirar os que se dizem pardos e/ou são pardos de pele clara, ela talvez reconheça mais de perto a solidão.

Quando ela embarcou nessa aventura, que é o governo Temer, eu acho que eu estava com a ex-ministra Nilma Lino, em Dourados-MS. Todos dizíamos, à época, que ela estava indo sozinha e que nenhuma entidade do movimento negro iria apoiá-la.

Prova disso é que, hoje, mais do que apoiá-la ou não, o maior dilema do movimento negro é a construção de uma Conferência Nacional da Igualdade Racial no meio de do regime de exceção em que estamos.

Nossas pautas devem ser e são maiores do que legitimar ou não negros que estão abraçados à direita escravocrata de sempre. A maioria dos negros brasileiros, como confirmam as pesquisas de intenção de voto, e as próprias eleições, votam em governos mais populares para o país no âmbito presidencial. Por isso é bom que fique claro que não batemos palma e nem demos biscoito para Luslinda e quem quer que seja.

Ela foi só, por sua conta e risco.

Quando, ainda nesse governo empedernido, dos homens brancos e ricos, ela disse que Temer era o padrinho das mulheres negras, as mulheres negras se levantaram. Ninguém se calou às suas idiotices.

Agora, comparando a impossibilidade de concentrar os salários de ministra com o de magistrada à escravidão, não vejo o motivo do incômodo que, nas últimas 3 horas, desponta das redes sociais nas bolhas algorítmicas da esquerda e da grande imprensa. Talvez pela nossa compreensão que temos dos meios de comunicação, deveríamos entender rápido quando a grande imprensa propositalmente divulga essas matérias quando se trata de grupos minoritários, como mulheres e negros, ainda muito mais quando estão em espaços de poder.

Muitíssimos homens brancos (e nem vou colocar mulheres brancas porque, de fato, elas nem existem na maioria desses lugares também) sempre fizeram esse tipo de trapézio e malabarismo e nos acostumamos a rir e ridicularizar, mas com uma dada naturalidade e bom folclore.

Falamos, mas não movemos nenhuma peça crucial quando, ainda no governo Dilma, convidamos um ex-CEO do Bradesco para cuidar da Fazenda, ou insistentemente colocamos o mesmo Meirelles (a chamada Tia Meirelles do Bank of Boston) para cuidar da economia, coadunando todos eles de tarefas bastante orgânicas para o mercado. O fato infeliz de Luslinda merece toda a reflexão de como a trajetória de uma pessoa brilhante pode ir para o lixo em segundos, mas a nossa seletividade também pode estar indo junto.

Texto de: Gabriel Nascimento – Professor, pesquisador e autor de dois livros “O Maníaco das onze e meia” e “Este fingimento e outros poemas”. É mestre em Linguística Aplicada pela UnB e doutorando pela USP.

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