Universidade George Washington cede palanque eleitoral a Bolsonaro

Você convidaria a Ku Klux Klan para jantar em sua casa ou para uma palestra em sua sala de aula?
Jair Bolsonaro discute com Maria do Rosário - por Marcelo Camargo/Agência Brasil)

colaborou Nadia Comani, do Defend Democracy in Brazil/ NY

A Universidade George Washington (GWU – na sigla em inglês) convidou Jair Bolsonaro para um debate em seu campus, em 13 de outubro próximo. O convite gerou revolta em muitos acadêmicos e ativistas brasileiros e estrangeiros que julgam que o convite ajuda a candidatura de “um extremista de direita racista, sexista e homofóbico a alcançar o reconhecimento internacional e solidificar a viabilidade política de sua candidatura”.

Mais de 400 acadêmicos, ativistas e movimentos de peso da comunidade internacional assinaram a carta aberta. Alguns nomes foram publicados sob a carta original no site https://stopbolsonaro.wordpress.com e centenas foram, e continuam sendo, coletados através de assinatura online.

Mark Langevin, Diretor da Iniciativa Brasil da GWU, reconheceu a validade da preocupação daqueles que assinaram a carta aberta, mas não cancelou o convite. Ele afirmou que tal discussão é vital para “melhor entendimento do Brasil” e não mencionou a transferência de apoio político a um extremista de direita, pelo simples fato de recebê-lo.

O professor de História e Cultura Brasileira da Brown Universitiy, James Green, é mais enfático ao questionar se: “Nós convidamos os membros do Ku Klux Klan para o campus de nossa universidade como uma forma de indicar que somos a favor da liberdade de expressão, de um debate saudável e de uma troca de ideias?” O Professor Green complementa: “A liberdade acadêmica não nos obriga a oferecer o palco às pessoas que constantemente vomitam o ódio.”

Reproduzimos abaixo (i) a Carta Aberta “Pare Bolsonaro”,(ii) partes da resposta de Langevin, (iii) a tréplica do grupo de acadêmicos e ativistas contrários ao palanque eleitoral cedido a Bolsonaro por Mark Langevin, da Universidade George Washington e (iv) os comentários do professor James Green.

Pare Bolsonaro

Um esforço internacional para impedir o populismo de extrema-direita no Brasil

Carta aberta à Universidade George Washington em oposição à decisão da universidade de conceder uma plataforma a Jair Bolsonaro

A quem possa interessar,

Chegou, recentemente, ao nosso conhecimento que o congressista brasileiro e aspirante a presidente Jair Bolsonaro falará na Universidade George Washington na sexta-feira, 13 de outubro de 2017, como parte da Iniciativa Brasil na Escola Elliot. De acordo com uma reportagem, publicada em 30 de setembro pelo jornal Folha de São Paulo, essa conversa faz parte de uma turnê nos EUA que visa suavizar a imagem de Bolsonaro antes das eleições presidenciais brasileiras em 2018.

Bolsonaro é um populista de extrema direita que foi chamado de “Donald Trump do Brasil” e está em segundo lugar nas pesquisas atuais sobre as próximas eleições. O evento com Bolsonaro é parte de uma turnê que busca validá-lo como candidato viável para a presidência brasileira e suavizar sua intolerância para agradar eleitores mais liberais. Estamos escrevendo esta carta para protestar contra a oportunidade que sua instituição dá a ele de fazer isso.

Ao recebê-lo na sua universidade e permitir que ele fale, sua instituição ajudaria um extremista de direita racista, sexista e homofóbico a alcançar o reconhecimento internacional e solidificar a viabilidade política de sua candidatura, colocando efetivamente as comunidades vulneráveis ​no Brasil em grande perigo de aumento da discriminação e da violência. Esta carta foi escrita por acadêmicos e ativistas políticos brasileiros baseados em todo o mundo e assinada por acadêmicos de outras nacionalidades que se comprometem com a política antifascista e se opõem à disseminação do fascismo de extrema-direita em todo o mundo.

Abaixo, está uma lista do que Bolsonaro fez para obter uma condenação tão forte:

  • Ele elogiou abertamente a ditadura militar violenta do Brasil, que matou milhares de pessoas ao longo de seus 21 anos de curso e negou aos cidadãos brasileiros o direito de votar. Bolsonaro efetivamente endossa o fascismo e as práticas antidemocráticas.

  • Ele elogiou abertamente Carlos Alberto Brilhante Ustra, o coronel do exército responsável por torturar prisioneiros políticos, incluindo a ex-presidente Dilma Rousseff, durante a ditadura.

  • Bolsonaro, na tentativa de interromper a visita da “Comissão da Verdade” (que investiga os crimes perpetrados pelos militares durante a ditadura) à sede da agência de inteligência da ditadura (DOI / CODI), empurrou e socou o congressista Randolfe Rodrigues e mais tarde se gabou do fato na mídia.

  • Ele tem atacado repetidamente pessoas LGBT com comentários virulentos e odiosos, tem apoiado abertamente terapia de conversão – uma prática psicológica amplamente desacreditada e desumana – e proclamou que ter um filho gay significa que os pais “deveriam ter espancado a criança com mais frequência”
    .

  • No mês passado, ele pediu que os curadores de uma exposição de arte LGBT fossem “executados por um esquadrão de tiro”. Em 1999, ele pediu que o presidente em exercício do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, fosse executado da mesma forma.

  • Ele se opõe abertamente aos direitos indígenas, dizendo que os povos indígenas não contribuem para a economia e, portanto, suas terras ancestrais não deveriam ser cedidas a eles.

  • Ele foi condenado por caluniar as comunidades afro-brasileiras, tendo dito em uma palestra que “eles não servem nem para procriar”.

  • Bolsonaro referiu-se a refugiados e imigrantes como “a escória do mundo”.

  • Ele é um apologista de estupro e disse duas vezes à congressista Maria do Rosário: “Eu não vou estuprar você porque você não merece. “

  • Ele é abertamente antifeminista e disse que as mulheres deveriam ganhar menos do que os homens porque podem engravidar.

Trechos da Resposta de Langevin

“O Deputado Bolsonaro é controverso por suas declarações a respeito da democracia e foi declarado culpado por atingir uma Deputada Federal e uma comunidade tradicional afro-brasileira (quilombo) com afirmações moralmente prejudiciais. Durante a votação para o impedimento da presidente Dilma Rousseff, o Deputado Bolsonaro dedicou seu voto a um antigo oficial militar responsável por torturas de centenas de cidadãos brasileiros, incluindo Dilma Rousseff, durante a ditadura militar.

A Iniciativa Brasileira não perdoa as provocações de Bolsonaro, mas o convidamos para aclarar e debater suas posições e seu entendimento sobre o governo para melhor entender o desenvolvimento corrente do Brasil e os cenários eleitorais possíveis para 2018. Assim, marcamos “Uma conversa com o Deputado Federal Jair Bolsonaro” para o dia 13 de outubro na Escola Elliott de Relações Internacionais, em Washington, DC.”

“Aqueles que assinaram a carta aberta ‘‘pare Bolsonaro’’, para impedi-lo de falar na Escola Elliott de Relações Internacionais, na Universidade George Washington, estão corretos em questionar e denunciar as declarações danosas feitas pelo Deputado Federal. O uso de metáforas violentas e mídias sociais para confrontar aqueles que ele desgosta é perturbador.”

“Em vez de evitar a discussão com o Deputado Bolsonaro, escolhemos conversar com ele sobre sua história, seus valores e seus princípios, e sua visão de governança no Brasil.”

Resposta à Iniciativa Brasil da GWU

Esta publicação é uma resposta ao artigo de Mark S. Langevin, que explica o convite da Iniciativa Brasil da Universidade George Washington a Jair Bolsonaro.

O principal argumento de Langevin para oferecer uma oportunidade para Bolsonaro expressar publicamente suas opiniões é que o debate é essencial para a democracia e que questioná-lo é “vital para a compreensão do Brasil”. Isso é preocupante por várias razões, a primeira é que priorizar a formação educacional dos americanos diante das consequências reais que uma presidência de Bolsonaro poderia ter para comunidades marginalizadas no Brasil é irresponsável e imperialista.

Langevin parece pensar que a educação das pessoas na Universidade George Washington é mais importante do que a segurança de milhares de pessoas que seriam vítimas de violência se uma candidatura de Bolsonaro se tornar viável. Não se engane: Bolsonaro não está interessado em debater ou em explicar suas declarações intolerantes passadas. Ele está interessado em promover sua candidatura e criar uma imagem “moderada” para si mesmo aos olhos da mídia internacional. Mesmo que ele seja devidamente confrontado, ele será beneficiado por falar em uma plataforma internacional como uma universidade americana.

Outra razão pela qual essa noção simplista de liberdade de expressão é preocupante é que a ideia de que o debate de ideias intolerantes favorece a democracia vem de um lugar de privilégio. Os defensores radicais da liberdade de expressão geralmente se recusam a reconhecer a distribuição desigual dessa liberdade nessas discussões, defendendo primeiro os direitos de pessoas como Bolsonaro para depois cuidar dos desprotegidos.

O Dr. Langevin enfatiza que quer confrontar os pontos de vista de Bolsonaro sobre democracia, tortura e aplicação da lei. Como o Dr. Langevin sabe bem, o Brasil tem uma taxa extremamente alta de violência policial e ele parece acreditar que Bolsonaro será intimidado por estatísticas e argumentos lógicos. É importante lembrar que a capacidade de debater essas ideias como abstrações é um privilégio: as pessoas que são vítimas de violência policial no Brasil todos os dias não têm esse luxo. A liberdade de expressão e o direito de existir dessas pessoas são violados pela própria violência que Langevin postula como discutível. Enquanto Bolsonaro está supostamente “sendo confrontado” em uma universidade americana sobre suas opiniões sobre policiais mais duros, brasileiros negros e mulatos estão sendo assassinados em comunidades marginalizadas pela polícia que ele busca fortalecer. Os mesmos princípios podem ser aplicados às vítimas da ditadura brasileira. Dr. Langevin tenta argumentar que este evento promoverá a democracia, mas a realidade é que ele apenas expõe como a democracia é distribuída de forma desigual.

Bolsonaro, do mesmo modo que outros fascistas em todo o mundo, não está interessado em fatos: ele está interessado em fazer declarações intolerantes para estimular o ódio e consequentemente ganhar seguidores e eleitores. Fascistas como ele não estão interessados em provar os erros daqueles que os desafiam, mas em manifestar e popularizar sua ideologia violenta para que, outros que concordem com eles, possam se sentir mais à vontade ao serem racistas, homofóbicos, misóginos e genocidas.

Por isso, qualquer intenção de “debater” alguém que sem rodeios espalhe o ódio, defende explicitamente a tortura e não hesita em falar de bater e assassinar populações marginalizadas e desassistidas, é uma proposição já errada por sua própria enunciação. Debater com Bolsonaro só lhe dará uma plataforma mais ampla para o discurso de ódio; debater com ele ampliará ainda mais sua voz. Simplificando, não há nenhuma possibilidade de um debate com esse homem levar a mudanças significativas, ao contrário de um boicote.

Quando falamos do risco que um político como Bolsonaro representa para a democracia brasileira, não estamos exagerando. A ditadura militar brasileira torturou e assassinou seus opositores políticos, ainda viva na memória, de 1964 a 1985. Hoje, em resposta à crise política, alguns membros do exército brasileiro estão abertamente a pedir “intervenção”, uma palavra-chave para o golpe. Essa ideia terrível é apoiada por uma minoria significativa do público brasileiro, que está buscando uma possível solução para a crescente onda de violência e instabilidade política, mesmo que equivocada. Essas pessoas, grupos e movimentos tendem a apoiar Bolsonaro e serão fortalecidos por sua candidatura.

Desde o início, argumentamos que o conteúdo da conversa de Bolsonaro é irrelevante para seu propósito final. Sua intenção principal é validar-se e parecer suficientemente “presidencial” para brasileiros no exterior e em casa. Priorizar a educação dos americanos sobre a ameaça muito real do fascismo no Brasil não aprofunda a democracia. Portanto, continuamos a pedir à Universidade George Washington que rescinda seu convite para Jair Bolsonaro e cancele este evento.

O Dr. James N. Green da Brown University responde ao convite de Bolsonaro

Por que o deputado brasileiro Jair Bolsonaro está visitando os Estados Unidos?
Qualquer um que siga a complexa situação política no Brasil sabe que as eleições de outubro de 2018 serão de importância crucial. Os eleitores escolherão o presidente, o vice-presidente, os vinte e sete governadores, dois terços dos senadores federais, todos os membros da Câmara dos Deputados e os representantes dos órgãos legislativos estaduais.

As pesquisas indicam que, apesar da recente condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele permanece à frente entre os possíveis candidatos presidenciais, embora seus números de rejeição superem as exibições favoráveis. Ele atualmente está recorrendo, em segunda instância, de sua sentença, mas, se isso falhar, é provável que ele seja impedido de concorrer nas eleições do próximo ano.

Segundo nas pesquisas, o deputado federal Jair Bolsonaro, o candidato de extrema direita do Rio de Janeiro, que supera outros candidatos potenciais do tradicional Partido da Social Democracia Brasileira, de centro-direita, e outros partidos políticos. Aqueles que assistiram aos trabalhos da Câmara dos Deputados em 18 de abril de 2016, que votaram para apoiar o impedimento da presidente Dilma Rousseff, lembram-se de que Bolsonaro lançou seu voto contra a presidente em nome da ditadura brasileira (1964-85) e em homenagem ao coronel Ustra, que supervisionou a tortura de Rousseff enquanto ela estava presa no início da década de 1970 por sua oposição radical ao regime militar.

Aqueles que acompanharam suas declarações públicas ao longo dos anos também sabem sua posição. Ele é abertamente misógino, homofóbico e racista. Houve acusações contra ele no Supremo Tribunal por ter sugerido o estupro de uma colega dele Deputada no Congresso. Ele defende a tortura e os torturadores e pediu um retorno dos militares ao poder.

Agora, em um esforço para expandir seu prestígio e importância no Brasil, ele está viajando para os Estados Unidos, onde ele falará na Universidade George Washington na sexta-feira, 13 de outubro. Ao aparecer em uma importante universidade dos EUA na capital do país, ele está legitimando sua imagem. Ele envia a mensagem de que ele tem apoio na academia dos EUA. É um estratagema de propaganda para mostrar aos seus apoiadores e outros no Brasil que ele é um candidato viável para a presidência.

Eu vivi no Brasil durante seis anos durante a ditadura militar. Lembro-me da censura da imprensa, televisão, rádio e teatro. Lembro-me das tentativas de silenciar os pequenos jornais das oposições. Lembro-me da invasão violenta da polícia militar da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1977 para evitar que os ativistas estudantis refundassem a União Nacional de Estudantes.

Sendo muito claro, acredito firmemente na liberdade de expressão e da imprensa e no direito, legal, de reunião. Defendo os direitos dos outros para expressarem sua opinião, mesmo quando discordo deles. No entanto, isso não significa que eu tenho que convidar a extrema direita para jantar em minha casa ou para entrar na minha sala de aula para dar uma palestra.

Jair Bolsonaro tem a liberdade de falar o que passa por sua mente no Brasil, e ele o fez, ofendendo pessoas afro-brasileiras, mulheres e pessoas LBGTQ com seus comentários racistas, sexistas e homofóbicos. Na verdade, ele foi multado por comentários públicos que violam as leis brasileiras. No entanto, ele ainda tem o direito de falar com a imprensa e fazer seus discursos no âmbito do Congresso brasileiro.

Mas devemos convidá-lo para falar em uma universidade dos EUA? Ou devo dizer, uma universidade deveria ser obrigada a convidá-lo para seu campus? O que faz, esse convite, além de legitimá-lo aos olhos de seus seguidores e potenciais apoiadores no Brasil? Nós convidamos os membros do Ku Klux Klan para o campus de nossa universidade como uma forma de indicar que somos a favor da liberdade de expressão, de um debate saudável e de uma troca de ideias? Convidamos aqueles que negam o Holocausto para nossas universidades, a fim de lhes dar uma plataforma para legitimar suas mentiras?

Sem dúvida, se George Washington University não cancelar seu convite a Bolsonaro, alguém denunciará suas ideias no evento. Outros provavelmente protestarão do lado de fora. Bolsonaro terá alcançado seus objetivos de aparecer na primeira página dos jornais brasileiros e em transmissões dos noticiários da TV. Isso agradará seus seguidores e fortalecerá o apoio em sua base. (Trump fez uma coisa semelhante durante as primárias republicanas no ano passado para catapultar-se ao primeiro lugar). Queremos viabilizar isso?

Bolsonaro tem todo o direito de viajar para os Estados Unidos, agendar reuniões com políticos e falar com a imprensa. Mas devemos dizer: “Venha aqui. Queremos dar-lhe um pódio, um microfone e um foro para defender suas ideias? A liberdade acadêmica não nos obriga a oferecer o palco às pessoas que constantemente vomitam o ódio.

E é um grande erro estender esses convites para pessoas que não acreditam na liberdade de expressão. Bolsonaro é claro. Ele quer que o Brasil volte aos dias da ditadura quando aqueles que levantavam a voz em oposição ao domínio militar eram presos, torturados e assassinados, quando a cultura foi censurada e a todos os brasileiros foram negados seus direitos democráticos e humanos básicos. Não é tarde demais para dizer: “Mudamos de ideia”.

James N. Green, professor de História e Cultura Brasileira, Brown University

Notas

1 Para ver os quatro textos em inglês: https://stopbolsonaro.wordpress.com/

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