QUE O SUICÍDIO SEJA UM DESPERTADOR PARA O BRASIL

O justiçamento promovido por Moro se espalhou dentro e fora do meio jurídico, a derrocada da democracia criou a atmosfera para que cada cidadão se sentisse no direito de fazer justiça com as próprias mãos

Por Tiago Peregrino dos Jornalistas Livres

O início do processo político que estamos vivendo se deu em junho 2013 quando foi deflagrado o levante popular em todas as capitais do país de forma desordenada, espontânea e até agressiva. Com diversos atores sociais envolvidos, as pautas mesmo que difusas pelo caráter horizontal do movimento, representavam uma clara coerência com os pleitos reconhecidamente à esquerda do espectro político-ideológico. Um povo cansado e espremido entre um Estado ineficiente e uma iniciativa privada voraz, clamava por proteção e direitos. Pedia um Estado maior e mais eficaz, que entregasse o que estava previsto na Constituição: saúde, educação, transporte e segurança. Se tornou um verdadeiro cavalo sem sela que ninguém conseguiria prever onde poderia dar.

As elites previram e agiram rápido. A Lava-Jato surgiu para aplacar a sede de sangue e pintar com mais precisão os objetivos dessa massa frustrada. Se o erro de 2013 era não ter liderança política e nem alvo bem definido, agora com o apoio da Globo tudo estava resolvido e reconfigurado: Moro, representado na figura do Aécio e com esse apoio da mídia, vaticinou o extermínio do PT do mapa. Com tudo devidamente encaixado ficou fácil controlar as rédeas desse cavalo. Com o domínio da narrativa por parte desses novos atores, as pautas agora estavam à direita do espectro político-ideológico. Menos Estado e menos políticas sociais se escoravam no Fora PT e no Viva Sérgio Moro. Seria questão de tempo para tudo se resolver, e no caso era previsto que se resolvesse logo na eleição daquele ano de 2014, mas a coisa desandou e mais lenha teve que ser jogada na fogueira.

Os métodos da Operação foram cada vez mais à margem da Constituição, uma caçada em nome da moralidade transformou a democracia em obstáculo. Fez-se de tudo para mostrar que com ela nada iria mudar, a eleição passou a ser um problema e a soberania popular foi esquecida. A partir daí virou terra de ninguém. O STF negociava aumento pro judiciário enquanto autorizava Cunha a tocar o processo de impeachment. O juiz de primeira instância estava com carta branca para cometer os crimes necessários para cumprir o objetivo. Renan deu uma banana pra Suprema Corte enquanto Jucá combinava o pacto com Sergio Machado. O que se dizia a sociedade era: agora vale-tudo. O justiçamento promovido por Moro se espalhou dentro e fora do meio jurídico, a derrocada da democracia criou a atmosfera para que cada cidadão se sentisse no direito de fazer justiça com as próprias mãos. Começaram a amarrar pivete em poste, a endeusar figuras messiânicas como Bolsonaro, a radicalizar o discurso de moralização pela família brasileira, a pedir pela cura gay, e assim abriu-se o terreno para a penetração cada vez mais forte da igreja nas casas legislativas e até nos museus. O Bispo Macedo agradece, Crivella idem.

O poder não deixa vácuo, se tem alguém perdendo, tem alguém ganhando. Com a saída do PT e a demonização das pautas progressistas, Michel Temer surgiu como instrumento para executar uma política diametralmente oposta àquela clamada pelas ruas em 2013: cortou os gastos com os serviços públicos, os direitos trabalhistas e protegeu a iniciativa privada, diminuindo o poder do Estado e favorecendo os especuladores internacionais. A nova narrativa venceu e o país ficou de quatro.

Foto: Jair Quint/Agecom

Velório do reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, suicidado após um processo de linchamento sem defesa

Essa semana o reitor da UFSC tirou a própria vida após ser preso e jogado nu em uma cela sob a absurda acusação de obstrução de justiça. A imprensa, os justiceiros do judiciário e os incautos, o condenaram previamente como é característico do Estado Punitivista que estamos. O reitor que dedicou sua vida à universidade usou uma tragédia para mostrar outra ainda maior. Quem não se choca com isso jamais poderia se chocar com o vazamento de um grampo ilegal da presidência. O terreno para o fascismo está adubado, Bolsonaro cresce nas pesquisas. O ano de 2018 está gravemente ameaçado e 2017 já é uma desgraça. Se a Lava-Jato recuperou R$ Bilhões até agora, Temer gastou 4 só pra enterrar a primeira denúncia. É preciso acordar novamente o tal gigante. Que o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier sirva de despertador.

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