ELA JÁ NÃO GOSTA MAIS DE MIM

ensaio sobre o desespero da poesia e a música que resiste

Fui caminhar em ruas que nunca andei na cidade. Chegou-me a notícia que um poeta que cuida de gado, boiada de fazenda, cantaria em lugar distante, na Zona Leste da cidade. Alguns dizem que não é bar não, que é trincheira, que é cocho camarada, é resistência.

Nesses dias de censura, onde tantas manchetes assustaram a poesia, a graça de viver em liberdade, tão curioso fico ao saber que há fortalezas na invernada urbana.Terá a poesia, a arte, a esquerda, a democracia, a polêmica, a liberdade, todas palavras femininas de sertão, como Macabéia ou Maria Bonita, morada na Zona Leste?

Para lá parto, cidade sem fim, vereda; sobe, desce, vira, sei apenas que o bar se chama Frango, o bar do Frango. Encontro. A rua é pequena, a colina é singela, lá embaixo a cidade imensa brilha em infinitas luzinhas.

Há uma bandeira do Brasil na janela, por trás da grade, há toada  do sertão, ecoa canto de solidão, voz feminina suave canta que amor não mata quando a gente quer amar. Tão pequeno o salão com tão grande história estampada nas paredes desse lugar, antigos cartazes colados, velhas imagens, toda esperança e desejos de nossas gerações ali escancarados. É uma trincheira de fato, vejo agora, e o poeta vaqueiro é Vidal França e seus convidados. Para Vidal o artista tem uma missão, não é só fazer festa, acredita ele que quando é hora de comer a tristeza tem lugar, pede água, engole vento que é pra vida sustentar, e a gente dessa terra vivendo nessa pobreza quando o ouro sai do chão. Descubram quem é ladrão, pede ele.    

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Água nova sobre a velha ponte, minha alma renova, água fresca de mina, ponto de resistência entre diversa gente que faz metrópole paulista, um bar se mostra também fortaleza. Se no país proíbem, aqui se bebe na fonte. Poesia e liberdade fazem morada no Frango. Andava triste na censura, agora é choro de viola.

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“Na minha terra, as estradas são tortuosas e tristes, como o destino de seu povo errante. Viajou? Se ardes em sede, se acaso a noite te alcançou, bate sem susto no primeiro pouso: terás água fresca para sua sede, rede cheirosa para teu sono.

Na minha terra, o cangaceiro é leal e valente: jura que vai matar e mata. Jura que morre por alguém –  e morre. (Brasil, onde mais energia: na água, que tem num só destino do teu Salto de Sete Quedas ou na vida, que tem mil destinos, do teu jagunço aventureiro nômade?) Ah, eu sou da terra do seringueiro, – o intruso que foi surpreender a puberdade da Amazônia. Eu sou da terra onde o homem, seminu, planta de sol a sol o algodão para vestir o Brasil. Eu nasci nos tabuleiros de Quixadá e fui crescer nos canaviais do Cariri, entre caboclos belicosos e ágeis.

Filho de gleba, fruto de em sazão ao sol dos trópicos, eu sou o índice do meu povo: se o homem é bom – eu o respeito. Se gosta de mim – morro por ele. Se porque é forte, entender de humilhar-me, – ai, sertão! Eu viveria o teu drama selvagem, eu te acordaria ao tropel do meu cavalo errante, como antes te acordava ao choro da viola…” Terra Bárbara – Jáder de Carvalho

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