MTST ocupa terreno em São Bernado do Campo

Por Laura Capriglione, Gabriel Lima e Lucas Martins

O MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) voltou à cena hoje (02/09) com mais uma ocupação.

O movimento ocupou um terreno de 60 mil m² no centro de São Bernardo, na Rua João Augusto de Souza, em frente à histórica fábrica da Scania, berço do movimento sindical que levou ao surgimento de Lula como liderança metalúrgica. Trata-se de um terreno particular, cercado por condomínios de alto padrão, que nunca recebeu qualquer uso além da cruel especulação imobiliária e em desrespeito explícito à função social da propriedade — definida pela Constituição de 1988 como obrigatória. Para o Estatuto da Cidade, Lei federal que regula a obrigatoriedade da função social da propriedade, toda propriedade precisa ter algum uso que envolva “o atendimento das necessidades dos cidadãos quanto à qualidade de vida, à justiça social e ao desenvolvimento das atividades econômicas”. Esse terreno não está de acordo com a norma jurídica do país, uma vez que não é utilizado para a sociedade de nenhuma forma.

A importância dessa ocupação é enorme uma vez que, só em São Bernardo, o déficit habitacional é de 90 mil famílias sem casa, o maior do ABC, que acumula 230 mil famílias sem teto. A ocupação foi feita por quinhentas famílias do MTST que buscam, com a força da luta, garantir o direito constitucional e humano de ter uma casa. A legitimidade da ocupação se garante pelo simples fato de que o terreno foi sempre alvo exclusivo da especulação imobiliária.

Em um momento de crise econômica aguda no país, com diversos ataques aos direitos sociais, o desemprego em alta e os salários em baixa, muitas pessoas não têm como garantir uma casa, seja por meio de aluguel ou pela compra da própria casa. Assim, a ocupação de terrenos que não têm uso, apenas são deixados à espera da valorização de seu preço, enquanto milhares de pessoas não têm um teto sob o qual se abrigar, não é apenas um passo lógico, mas que caminha em busca da igualdade.

A ocupa

Localizada no centro de São Bernardo, região metropolitana de São Paulo, foi feita por volta das 00:30h da madrugada de sexta (01/09) para sábado (02/09) como é prática como do MTST, que evita realizar suas ações durante o dia para não atrair a atenção dos vizinhos e policiais. Cerca de 500 famílias ocuparam o terreno, sendo a maioria de São Bernardo, mas algumas vindo das cidades vizinhas, como Mauá, Santo André e Diadema.

O procedimento foi padrão. A hora da chegada é a mais importante e tensa, todos têm que sair dos ônibus rapidamente, pegar os kits de bambu e lona e, no meio do escuro total, começar a construir suas “casas”, na verdade, barracas precárias. É uma imagem impressionante, mais de quinhentas pessoas correndo por um campo aberto, só com as luzes do celular e às vezes uma lanterna aqui e ali, fazendo um trabalho bem coordenado de montar a estrutura de bambu, fincar a estrutura na terra e amarrar a lona. Em pouco menos de uma hora todo o campo já está lotado de pequenas barracas, algumas concentradas umas perto das outras, formando pequenas vilas. Outras pessoas escolhem um pouco de privacidade e montam suas barracas mais longe, e assim todo o campo acaba por ser ocupado.

Esse terreno era ideal para se montar o acampamento, pouco íngreme, bem largo e plano. As dificuldades de engenharia para montar a barraca são menores que em terrenos (muitas vezes já ocupados pelo movimento) que têm grandes barrancos, declives e a geografia passa a ser mais um problema. Mas, mesmo com um terreno bom, o pior problema enfrentado pelo movimento ao iniciar uma nova ocupação é a polícia.

A Polícia sempre acaba chegando, uma hora ou outra, e é esse o ponto que vai definir se a ocupação terá futuro ou acabará rapidamente. Caso a polícia resolva atacar, o movimento vai ter que escolher entre a resistência ou a saída do terreno. A escolha tem que ser tática: em alguns momentos é melhor sair, muitas vezes há crianças e idosos demais ou a polícia está muito intransigente. Em outros casos, o diálogo é possível. O movimento  consegue explicar quais são seus objetivos e quem são aquelas pessoas que, se pudessem, não estariam ali no meio da noite e do frio. Há casos em que, tamanha é a importância do movimento, que os PMs respeitam a ocupação e deixam sua tradicional truculência de lado.

Ontem, a ação da PM, que chegou pouco mais de uma hora depois do início da ocupação, foi mais agressiva. Os primeiros policiais chegaram já com armas de grande calibre e munição dispersiva. Em menos  de meia hora da chegada da primeira viatura, a pequena rua que levava até o terreno estava tomada por carros da ROTA e de viaturas comuns. A discussão entre o capitão e os advogados do movimento foi tensa. Mas como o número de pessoas dentro do terreno era muito grande, e como não havia nenhuma disposição para a violência entre os sem-teto, a polícia desistiu de intervir. Quem sabe o cordão de isolamento que os Sem Teto fizeram em frente ao terreno, com cerca de cem pessoas cantando em uníssono tenha influenciado a decisão de não reprimir a ocupação.

Com a saída da PM, a calma enfim chegou à ocupação. O maior perigo já passara, a maior parte das barracas de lona já estava montada (algumas pessoas já até dormiam dentro de suas casas improvisadas). Enquanto os últimos bambus eram fincados, a única coisa que faltava era terminar a construção da cozinha, o principal local do acampamento, aonde as refeições são preparadas e as reuniões ocorrem.

A ocupação continua resistindo. Durante a manhã, a PM fez uma passagem de averiguação, mas não houve tensões.

1º dia da ocupação (MTST / Comunicação)

Veja em vídeos como foi a ocupação:

https://www.youtube.com/watch?v=l0QJdj4vn28&feature=youtu.be

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7 comentários:
  • ABEL SILVA
    6 setembro 2017 at 15:34
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    Matéria isenta de qualquer parcialidade… como convém à imprensa esquerdista desse país!!

  • ABEL SILVA
    6 setembro 2017 at 15:50
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    A interpretação da pseudorepórter e do iminente politico de FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE é o pretexto para margem de manobra política de forma hipócrita de uma massa de inocentes úteis ….

  • Jeremiah jhon
    17 setembro 2017 at 12:34
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    É um absurdo a ocupação e invasão de áreas de forma desregrada, isso é uma prática desonesta e de selvageria sem medida. Eles se julgam no direito de invadir e de se apropriar do que não lhes pertence, não estão nem ai. O interessante é que se observa chegando à esses locais, pequenos latifundiários, equipados com veículos novos e seminovos entre outros que se arriscam para se apropriarem de um pedaço de terra com o desejo de morar em local privilegiado.
    Lembro que tempos atrás, para morarmos em São Bernardo era necessário adquirir um lote, regularizado junto à Prefeitura, pagar pelo lote e para a construção era necessário uma planta aprovada por um engenheiro, recolher os tributos na Prefeitura, após a construção tirar o habite-se, receber a aprovação da Prefeitura e pagar os tributos. Hoje, basta apenas escolher um local, invadir, mesmo que seja em áreas de mananciais, construir sem nenhuma regra e nenhum pagamento, pedir para a Eletropaulo e Sabesp efetuarem as ligações de luz e água e ficar ali vivendo de graça. Esse é a nova cara de São Bernardo, uma cidade de invasões, uma terra de ninguém onde vale qualquer coisa. Moro a 58 anos em São Bernardo e já vão longe os anos em que tínhamos segurança e paz nesta cidade. São Bernardo virou uma terra de bagunça e de gente inescrupulosas que se fingem de coitados e na verdade são especuladores e roubadores, trazendo o crescimento de favelas e habitações desordenadas, destruindo a natureza, o meio ambiente e emporcalhando cada dia mais o bonito município que já foi um dia São Bernardo. De problemas a problemas, São Bernardo se afunda cada dia mais na sua política permissiva e de falta de controle.

  • Alexandre Neto
    27 setembro 2017 at 12:58
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    ESTE TERRENO SERVIA DE AREA VERDE PARA UMA CIDADE COMO TANTAS OUTRAS, AO MEU VER DEVERIA MANTER-SE ASSIM.
    NA GESTAO DO PT DERRUBARAM AS ARVORES E VENDERAM PARA CONSTRUTORA, DURANTA A GESTAO DO PT ESTA AREA NAO FOI INVADIDA (COINCIDENCIA…) O FATO E QUE AGORA INVADIRAM UMA PROPRIEDADE PRIVADA …E AGORA? QUAL A LEI? O QUE ESPERAR DE QUEM PAGA E CUMPRE IMPOSTOS? QUEM PERDE COM TUDO ISSO?
    VEJO QUE SIM TEM FAMILIAS QUE NESCESSITAM DE MORADIA…E O EMPREGO? A CIDADE INCHADA E SEM EMPREGOS, O IDEAIL SERIA CRIAR RIQUEZA E EMPREGOS E CUMPRIR UM PROGRAMA PLANEJADO DE MORADIA….
    O FATO QUE ESTA INVASAO NAO TEM E NAO CUMPRE REQUISITOS BASICOS DE SAUDE… E AI SE A FALTA DE SANEAMENTO CAUSAR DOENCAS?
    DEIXA-SE ASSIM CRESCENDO INCOMODANDO E VEJO QUE ISSO VAI SER PERIGOSO

  • João
    29 outubro 2017 at 6:33
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    Abel, a imparcialidade é uma farsa. Bela reportagem, contando o lado que ninguém conta.
    A constituição garante à propriedade privada, mas também o direito à moradia. Qual vale mais? Quem precisa mais do terreno nesse momento?

  • João
    29 outubro 2017 at 6:33
    Comente

    Abel, a imparcialidade é uma farsa. Bela reportagem, contando o lado que ninguém conta.
    A constituição garante à propriedade privada, mas também o direito à moradia. Qual vale mais? Quem precisa mais do terreno nesse momento?

  • O MTST É GENTE ARRANCANDO A VIDA COM AS MÃOS | Jornalistas Livres
    2 novembro 2017 at 1:17
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    […] dia 10 de novembro, o MTST quer respostas. Eles querem que um cadastro das pessoas que estão na Ocupação em São Bernardo do Campo seja realizado. Desejam também uma solução que busque encontrar terrenos que estão sem função […]

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